O pão-durismo


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Pão-duro, sovina, mão-de-vaca, muquirana. Essas são algumas das expressões mais populares para dizer que alguém é dominado pela avareza. Quem não conhece o Tio Patinhas? Sem dúvida, ele é o mais famoso pão-duro das histórias em quadrinhos. É a figura da avareza transformada em um personagem que tem como passatempo preferido nadar no dinheiro da sua caixa-forte. Em tempos de crise, como a que assola o mundo globalizado, necessário cautela antes de se entregar desenfreadamente ao consumo, gastança com cartões e cheques especiais que pode levar à insolvência pessoal, o que é uma tragédia. Seria correto bancar o pão-duro, fechar a carteira, ater-se ao realmente necessário? Defendo a linha da educação financeira e das finanças sustentáveis. Isso não quer dizer, em hipótese alguma, que incentivo as práticas de “pão-durismo”, como é popularmente conhecida, e com exemplos cômicos, sem dúvida. Afinal, como surgiu essa expressão, pão-duro? Historiadores relatam que se vulgarizou no Rio de Janeiro por causa de um mendigo muito popular. A criatura esmolava comida, sempre implorando um pedaço de pão duro. A reiteração da súplica imprimiu-lhe o apelido: “Pão-Duro”. Falece o mendigo e descobre-se que seu refúgio abrigava uma pequena fortuna em dinheiro, contas bancárias e títulos. Daí esse termo passou a designar o avarento e pão-durismo a sua prática, que é a inércia. Quem não tem um amigo ou parente pão-duro? Ou nunca saiu com um amigo que sempre esquece a carteira e que por isso nunca paga o chope no bar, ou simplesmente não compra cigarro, apesar de fumar mais de um maço por dia? Tenho um amigo jornalista que não esquece a carteira nunca, mas em compensação só anda com nota de cem reais, e nunca tem troco para pagar nada. Isso quando a conta apresentada é pequena, evidente. Puxa a carteira, mostra a cédula de valor e se desculpa, largando as despesas para os colegas. Sempre tive a curiosidade de anotar a série da nota que carrega na carteira para conferir mais adiante. Com certeza está com ele faz muitos anos. Definido como um sujeito que sente uma dor imensa diante da perspectiva de gastar dinheiro, o pão-duro não se importa com os comentários dos amigos. Na Lanchonete André Center, do amigo Antônio Amorin, em Santo André, tem um amigo assim, o Cilair. Mineiro de Guaxupé é comerciante há anos na cidade e sempre se reúne com os amigos nos finais de tarde. Cômico é quando a conta é apresentada. Enfia a mão esquerda no bolso e segura com a direita. Uma tenta sair, a outra não deixa. Por mais que se esforce, não consegue retirá-la - chega a suar, coitado - até que a conta é paga. Pelos colegas, claro. Na família tenho uma tia “econômica” - permitam-me usar esse termo - que sempre tem umas receitas “bem em conta”. Uma delas é a bacalhoada que me ensinou a fazer. Nesse prato, todos os ingredientes, batatas, cebolas, tomates, salsa, cebolinha, alho, sal e pimentão são comprados no final de feira, bem mais baratos. Só não entra o bacalhau. Depois de pronto, o segredo é comer com os olhos fechados e deixar a imaginação trabalhar. Minha tia garante que é o mesmo paladar de uma bela bacalhoada. Funciona o poder da mente Conheço muitos exemplos de pão-durismo. Uma prima costuma guardar pastilha para garganta, meio chupada, para quando a tosse ameaçar de novo. O Miltão, do Bar da Baixada, na Estação, coloca um palito no petisco para cada cliente. Se quebrar ou cair, o freguês que se vire. Já um vizinho conserva camiseta furada para dormir ou para usar por baixo da camisa. E assim vai... Os pães-duros que me perdoem, mas estamos inseridos num contexto econômico onde a sociedade depende exclusivamente do consumo para garantir sua sobrevivência. E é praticamente impossível negarmos esse sistema por completo - a menos que nos mudemos para o campo e vivamos completamente isolados do mundo. GUIDO FIDELIS A RG Editores, de São Paulo, lançou no começo dessa semana o novo livro do jornalista e escritor Guido Fidelis, Tempo Tempo Tempo. A obra reúne textos que remetem à beleza da vida, à superação de problemas, à necessidade de não esmorecer diante dos obstáculos do cotidiano, além de se constituir em incentivo ao trabalho e às realizações. O livro, que tem diagramação diferenciada e bem cuidada, induz a observar e aproveitar melhor as belezas do dia-a-dia. Para manter na cabeceira e consultar a qualquer momento em que se busque mais poesia e atitude para encarar a vida. Leitura obrigatória. NEGATIVO Agrava-se um problema que persiste nas farmácias de Franca e, acredito, no País inteiro: o cliente vai à procura de algum medicamento e o vendedor indica outro. Ora, balconista de farmácia não é médico, logo, não pode prescrever remédios. Aliás, é incrível como essas grandes redes de farmácias ganham fábulas em cima do sofrimento do povo. POSITIVO Franca completa amanhã 184 anos de emancipação, com muitas atividades culturais gratuitas para toda a população. No feriado desta sexta-feira, a Praça da Catedral, ruas e avenidas da cidade ficarão mais coloridas com a decoração de Natal. A programação de aniversário vai se estender, já que na semana entre os dias 8 e 13 de dezembro, Franca será mais uma vez privilegiada, ao receber o Caminhão da Sorte da Caixa Econômica Federal, que vai realizar, ao vivo, na Praça Nossa Senhora da Conceição, os sorteios da quina, lotomania, lotofácil, loteria federal, loteca, lotogol, dupla-sena e mega-sena. ESMOLA... Alguém bate à porta do Salim, muito pão-duro que deixava sempre a campainha desligada, só pra economizar energia. Salim pergunta quem é. Uma voz fina e fraca sussurra do outro lado: - Uma esmolinha pelo amor de Deus! E o Salim: - Tá bem... Pode enfiar por debaixo da porta! Edward de Souza Jornalista e radialista - edward@comerciodafranca.com.br

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