Ex-moradores de Orlândia, na região de Franca, a decoradora de festas infantis Marilete Santana, 42, o marido e os três filhos vivem de perto o drama enfrentado com a enchente em Santa Catarina. Há quatro anos, ela mora com o marido e uma filha de 8 anos em Blumenau e, ontem, concedeu entrevista por telefone, depois de ficar incomunicável por três dias. Os dois filhos maiores moram em outras cidades do Estado. Durante oito minutos, relatou o caos em que a cidade se transformou com as chuvas e falou da falta de bens essenciais, como água, energia elétrica, combustível e alimentação. Marilete chegou a ficar três dias sem contato com a irmã, que ficou ilhada, sem comida nem água, com os dois filhos pequenos no Bairro Garcia. Ela chora por estar enfrentando essa tragédia. "É desesperador. Nunca achei que viveria isso".
Comércio da Franca -Quando os problemas afetaram a região da senhora?
Marilete Santana - Na sexta-feira passada. Aqui está tudo alagado, deu enchente e desmoronamento. Tem água e as encostas estão todas caindo. Aqui em casa, no fim de semana, a água chegou até o portão, mas não atingiu minha casa. Os problemas maiores são nos Bairros Garcia, Progresso, Fortaleza e outros.
Comércio - Os noticiários comentam que estão sem combustível, sem água. Qual a situação real aí?
Marilete - O combustível, no nosso bairro, já não tem mais. Não temos água na cidade toda. Energia tem no bairro que eu moro, mas a maior parte da cidade está sem luz desde sábado. Não tem mais galões de água potável. Só consigo água porque meus vizinhos têm poço. O acesso à cidade, onde ainda tem, está difícil. Ficamos sem telefone durante três dias. Comida ainda tem, mas sei que já falta em alguns locais. Só consegui sair de casa na segunda-feira. O cenário é de destruição total, com lama, móveis jogados nas ruas, lojas e casas todas destruídas.
Comércio - A senhora sentiu medo?
Marilete - Sim, muito. Sábado e domingo foram os piores dias. Estava isolada. Não tinha como sair para lugar nenhum, nem em caso de emergência. Minha irmã foi para o Bairro Garcia no sábado, na casa do namorado dela, e só conseguiu sair hoje (ontem). Ela estava com os filhos de 1 e 6 anos e ficaram sem comer, sem água, sem luz todos esses dias. Ela só saiu porque atravessou um morro muito alto, de cinco metros. Ela disse que, do trajeto de lá até a casa dela, foi um cenário de destruição total. A gente não tinha comunicação com ela, como não temos com muita gente aqui. É tudo complicado, desesperador.
Comércio - E a chuva persiste?
Marilete - Sim. De manhã abriu sol, mas acabou de dar um temporal forte. O sol abre cinco minutos e volta a chover. Deve continuar assim até sexta-feira.
Comércio - A senhora chorou?
Marilete - Muito, muito. A gente desespera por saber que está ilhada e por ver a situação das pessoas, gente que perdeu a família, crianças morrendo e tem muita gente soterrada aqui. É muito triste mesmo. Nunca achei que passaria por isso. Cada vez que falam, me emociono porque está muito triste a situação aqui.
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