Realmente, está se tornando difícil para um empresário afogado pela rotina diária de problemas relacionados com a produção, funcionários, vendas, clientes, fornecedores etc., manter a cabeça fria e ainda acompanhar e interpretar os sinais cruzados com que é bombardeado pela mídia.
A mídia, como um todo, está contraditória quando tenta interpretar as notícias, que por sua vez em nada ajudam a esclarecer a situação para oferecer alguma segurança ao empresário na tomada de decisões e muito menos fazer prognósticos que o poderiam orientar sobre como agir.
Exemplo? Um jornal da área calçadista mantém uma página on-line, onde antecipa o resumo das notícias que serão publicadas na edição seguinte. A exemplo, uma das notas dizia: “Para entidades do segmento couro e calçados, vitória do Obama traz esperança de mudança no mercado financeiro mundial”. A segunda: “O comércio mundial deve cair pela primeira vez em 27 anos. A afirmação é do presidente do Banco Mundial, Roberto Zoellick”.
O leitor, como fica? Acredita na previsão do presidente do Banco Mundial ou na análise dos experts de Apucarana, Hamburgo Velho ou Timbaúba? Para ajudar a clarear a análise, mais adiante e mesma página, “tivemos entrevistas com pessoal da Werner, da West Coast e uma indústria que não quis ser citada, dizendo que os negócios estão suspensos, que há cancelamentos e a diretora da Cosmopolitan Imp. & Exp. que manipula uns 400 mil pares por ano diz que já recebeu cancelamentos por conta da turbulência financeira”.
E ainda: “a própria Abicalçados alerta que as conseqüências devem ser sentidas entre janeiro e março, quando deve haver queda nas exportações de calçados brasileiros”.
E agora? O que um infeliz empresário pode pensar e como agir diante de um panorama destes? Como preservar o patrimônio, resultado de anos de trabalho duro, como preservar os empregos de tanta gente que dependem dele? É nestas horas, horas de dificuldade, que o comandante de um grande jato deve justificar o salário régio que está ganhando e um empresário deve pagar por todas as mordomias de que usufruiu durante anos.
O ideograma chinês para crise é “oportunidade + risco”. Oportunidade no sentido de tentar caminhos novos, ser diferente dos outros, mais criativo, mais original, mais empresário. Risco: na tomada de decisões equivocadas, decisões tomadas sob pressão, risco de não avaliar em profundidade tanto a situação como a conseqüência da tomada de decisões.
Há empresas que já se adequaram, por antecipação, aos difíceis tempos novos. Enxugando o processo produtivo. Desenvolvendo modelos com economia de material e com produção racional que permite uma produtividade maior. Que já se adequaram à comercialização condizente com o terceiro milênio e com nova situação nos mercados. Mas quem ainda não fez nada disso corre um sério risco de não alcançar os que tiveram coragem de mudar.
A implantação dos novos métodos de trabalho e de comercialização é um assunto altamente profissional. Não há como improvisar. É radical - ou é ou não é. Não existe área cinzenta, área de indefinição. Não há tempo de ficar em cima do muro e esperar por uma definição. Vejam o ideograma chinês: crise = oportunidade + risco.
FAZENDO HISTÓRIA
A firma dinamarquesa ECCO está seguindo seus próprios caminhos na internacionalização da sua produção. Abriu fábricas na China, Tailândia e Indonésia e agora acaba de abrir o seu curtume próprio na cidade de Xiamen, na China. O curtume é um monumento de aço e vidro e vem sendo considerado o mais moderno do mundo. Vai abastecer exclusivamente a produção do calçados ECCO.
ABERTURA
Com a onda dos produtos naturais e orgânicos como resposta à crescente “plastificação” do planeta, abre-se aos calçadistas brasileiros uma oportunidade única, com aprovação do IBAMA: usar couros dos répteis, peixes e anfíbios brasileiros para oferecer produtos naturais, exóticos e ao mesmo tempo de grande valor agregado para os mercados mundiais.
A VOLTA DO PALMILHADO
A Índia está retornando em grande estilo ao cenário mundial com calçado palmilhado, que predominava na primeira metade do século passado no setor do calçado masculino. Além do conforto ímpar, a durabilidade da construção era preferida pelos compradores. Aquele país que já era conhecido em produzir palmilhado manual, agora está ampliando a produção no conjunto industrial de Agra.
AINDA
Falando em calçado palmilhado, os compradores americanos insistiam há muito com produtores chineses para produzi-lo. Mas os chineses, embora equipados com máquinas das mais modernas, não se deram conta de que calçado palmilhado depende de componentes e couro de primeira linha e de mão-de-obra altamente especializada, bem diferente daquela usada para produzir mercadoria em grande escala a que estavam acostumados. Daí decorre o fracasso deles e o sucesso dos indianos, que aproveitaram bem a tradição na confecção.
Zdenek Pracuch
Sapateiro, shoemaker – pracuch@comerciodafranca.com.br
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