<p>Aos 81 anos, 67 deles dedicados ao setor calçadista, o tcheco Zdenek Pracuch presta assessoria em tecnologia e gestão para indústrias de calçados em vários países. Não admite ser chamado de consultor. Prefere ser simplesmente reconhecido como “sapateiro”. Isso porque já trabalhou em praticamente todos os setores da produção de calçados. Foi de operário a diretor. Começou aos 14 anos na mundial Bata Shoe Company, hoje com sede em Toronto, no Canadá. </p><p> <br />Quando veio para o Brasil, em 1948, trabalhou como cortador manual por seis meses, em Salvador, até aprender a falar português e poder assumir cargos mais importantes. Hoje, mora em Itajubá, sul de Minas, mas passa a maior parte do tempo viajando. Divide seu tempo entre os principais pólos calçadistas brasileiros (Franca, Birigüi, Nova Serrana e Jaú) e algumas empresas no exterior. Aqui, Pracuch trabalha apenas com quatro indústrias. Sua história com a cidade está diretamente ligada a Wilson Samello. Ele fala sobre a ascensão e a queda da Samello com a tranqüilidade de quem acompanhou tudo de perto. De opinião firme e polêmica, o sapateiro-consultor faz prognósticos sombrios para os próximos anos da indústria francana. </p><p> <br />Para ele, antes mesmo da crise no mercado financeiro internacional, os industriais de Franca estavam fadados à extinção, com algumas raras exceções. Para deixar o quadro apocalíptico um pouco mais suave, afirma que há luz no fim do túnel. Na verdade, segundo ele, há uma espécie de processo de seleção natural que elevará a qualidade dos produtos e serviços brasileiros ao mesmo patamar dos italianos. E para chegar lá, Pracuch dá a receita: criatividade, originalidade - para procurar nichos de mercado que não vão interessar aos orientais - e serviços de primeira grandeza.</p><p><strong>Comércio da Franca - Qual é sua ligação com Franca?<br />Zdenek Pracuch -</strong> Minha relação com Franca começou em 1961, quando Wilson Samello visitou a República Tcheca, naquela época Checoslováquia, para conhecer o sistema de esteiras transportadoras. E ele disse que era uma pena que aquilo nunca funcionaria no Brasil. Os tchecos riram e contaram a ele que já funcionava em uma indústria em Salvador, na Bahia. Wilson ficou doido, foi direto a Salvador e ficou lá até descobrir que realmente tínhamos as esteiras com planejamento no estilo da Bata. Não sossegou até me trazer para Franca, com todo tipo de vantagens. E não se arrependeu, porque a esteira que implantei para ele virou até atração turística. Foi gostoso até 1967, quando quase tive um colapso nervoso de tanto que o Wilson me pressionava. Decidi voltar para Salvador. Hoje, venho ajudar as fábricas que pedem ajuda. Já estou trabalhando com quatro (em Franca) e não pretendo abrir o leque. Porque essas quatro fábricas com as quais estou trabalhando vão sobreviver.<br /><br /><strong>Comércio - E que fábricas são essas?<br />Pracuch -</strong> Preciso falar? É que eu não quero disseminar o terror entre os fabricantes, aqueles que eu não mencionar, como se os condenasse à morte. Mas o pessoal sabe quais são. Uma é muito grande e três são de porte médio.<br /><br /><strong>Comércio - E por que o senhor acredita que elas vão sobreviver?<br />Pracuch -</strong> Por causa da mentalidade dos dirigentes. São mentalidades abertas, não têm medo de novidades e implantam sistemas modernos de gestão. São pessoas que realmente foram talhadas para viver no terceiro milênio. Não são como aquelas que têm medo de mexer em uma coisa que funcionou durante anos e que não têm imaginação suficiente para adotar métodos diferentes de produção, mais atualizados. Sempre digo e escrevi isso várias vezes: hoje fazemos calçados do primeiro mundo. Calçados que se colocássemos a plaqueta “made in Italy”, ninguém duvidaria. Mas, na gestão das empresas, nós estamos no tempo da colônia, de D. Pedro I. As empresas não estão sendo geridas. Isso que eles acham que é dirigir é um atraso na vida.<br /><br /><strong>Comércio - Na prática, qual é a diferença?<br />Pracuch - </strong>A maioria dos empresários não tem, por exemplo, controle da lucratividade deles. Eles não têm contabilidade de resultados, lucros e perdas. Hoje, atendo duas empresas em Nova Serrana que já fazem isso semanalmente, porque não querem esperar até o fim do mês para saber o quanto ganharam e se ganharam. A Samello tinha isso nos anos 60, quando implantei isso lá, mas depois isso se perdeu. Em Franca tudo dura 15 dias... Controle de resultados, acompanhamento do capital de giro, planejamento financeiro. Franca não sabe vender! Há pouquíssimas empresas que têm seu corpo de vendedores. Vivem nas mãos da boa vontade dos representantes. Até nisso temos uma diferença enorme entre o que valia há cinco anos e está valendo hoje.<br /><br /><strong>Comércio - Por que o senhor acha que as grandes empresas do setor caíram?<br />Pracuch -</strong> Com conhecimento de causa, eu posso falar somente da Samello. Passei cinco anos trabalhando para uma trading na Suécia e quando voltei, em 1997, Wilson me chamou. E disse: “vamos restabelecer os controles, aqueles livrinhos pretos que faziam com que toda semana soubéssemos a quantas andávamos”. Eu disse para ele esquecer a idéia, porque tudo que havíamos feito já estava perdido. E outra, ele já estava doente, não tinha aquele pique todo. Mas ele não desistiu e me chamou para ajudar o Renato Furtado, administrador que eles haviam trazido da Xerox do Brasil. Um executivo de primeiríssima grandeza. Acompanhei-o na parte de calçados, porque ele não entendia nada do assunto, mas era doutor, pós-graduado em administração de empresas. Na mão dele, a Samello tinha todas as chances de sobreviver, mas a família não deixou ele trabalhar. E ele acabou jogando a toalha. Vivi aquele drama todo, da morte de uma empresa que era modelo para as demais empresas em Franca. As outras seguiram o mesmo caminho...<br /><br /><strong>Comércio - Tiveram os mesmos problemas de gestão?<br />Pracuch -</strong> De gestão e familiares. Ou seja, não conseguiram vencer a transição de uma geração para a outra. Isso é fácil de explicar. Esses meninos nasceram em berço de ouro, achando que dinheiro nascia em árvores. Viagens ao exterior, helicópteros, cavalos para jogar pólo... Traduza isso sobre a lucratividade de um par de calçados. <br /><br /><strong>Comércio - O senhor disse no início da entrevista que poucas empresas vão sobreviver. A experiência dos problemas vividos por essas grandes empresas não pode ajudar o empresário francano?<br />Pracuch -</strong> Parece que não. Parece que um churrasco em Rifaina ainda é mais importante do que a presença do dono na fábrica. Essa é a triste realidade. Ouvi de vários empresários: “Ah, esse filme eu já vi várias vezes. Você lembra do Collor, do confisco? Pelo amor de Deus, quase que dei um tiro na cabeça. Isso aqui não me assusta”. Já ouvi isso. Então, o que eu posso esperar de um dirigente de empresas que simplesmente ignora todos os métodos obsoletos com que estamos produzindo, toda a pressão dos importados e que não vê a perda dos mercados de exportação para os orientais? O que você espera de um gerente desses, cujo mundo começa em Batatais e termina em Rifaina?<br /><br /><strong>Comércio - Já que começamos a falar sobre o mercado internacional... Como essa crise deve afetar o Brasil?<br />Pracuch - </strong>Há meses eu falei que isso iria acontecer, embora nosso glorioso líder e guia, o presidente Lula, diga que vamos ter apenas uma marolinha. Agora esta marolinha parece que está nos sufocando. Até o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que é um capitalista frio, disse na última segunda-feira que vamos sofrer. Um pouco menos que o resto do mundo, mas vamos sofrer... O que é que esse sapateiro pode dizer mais? Essa crise já está aqui, firmemente instalada. Perdemos mercados de exportação, em grande parte pelo câmbio, e ainda vamos sofrer mais com a abertura de mercado para a China. O Brasil não tinha nenhum motivo para declarar a China de mercado livre. Só para ganhar um assento no Conselho de Segurança do ONU? Destruímos a indústria de móveis, têxtil, de calçados, ótica, de brinquedos. Eles agora são destroços... A indústria de calçados ainda é mais protegida. Ainda está se safando, mas os dias estão contados. Vão sobreviver. Não sei se vão ser muitos. Vamos ter indústrias de calçados depuradas, atualizadas, dinâmicas, mas não vão ser muitas. Vão ser aqueles que conseguiram interpretar os sinais dos tempos e aqueles que conseguiram se adaptar a eles. E esses são poucos. Agora, que podemos sobreviver, podemos. A receita eu também já dei várias vezes. Temos que ter uma qualidade impecável. Temos que ter criatividade e originalidade, ou seja, procurar nichos de mercado que não vão interessar aos orientais. E temos que ter serviços de primeira grandeza, começando no atendimento da telefonista, recepcionista e terminando no pós-venda. Quem não fizer isto vai sobrar.<br /><br /><strong>Comércio - Conversando com empresários do setor, para saber como eles vêem a crise, fica a impressão que eles parecem bem otimistas, principalmente devido à alta do dólar.<br />Pracuch -</strong> O câmbio seria a solução se não houvesse competidores. Só alguém que olha do ponto de vista francano: “Puxa, o dólar subiu, vamos começar a exportar” e não tem a mínima noção daquilo que acontece realmente no mercado lá fora, é que vive uma vitória como essa, completamente falsa. Isso porque os chineses são tenazes. É um povo que temos que aprender a respeitar. Antes de morrer, eles vão tentar conquistar os outros mercados que perderam devido à recessão americana. E nós vamos ser atacados com todas as armas, mais ainda agora que o governo abriu as portas. Não temos nenhuma restrição oficial contra eles. <br /><br /><strong>Comércio - Eles podem então vir para o Brasil tranqüilamente...<br />Pracuch - </strong>Sim... Eles vão pagar 35% de imposto de importação naquilo que for declarado. O nosso calçado, só de imposto, paga 39,6%. Temos quase 100 % de encargos sociais e trabalhistas. Como é que vamos competir?<br /><br /><strong>Comércio - Algumas empresas já deixaram de acreditar no mercado externo e buscam clientes aqui mesmo, no Brasil. Eles estão certos?<br />Pracuch -</strong> Parabenizo a eles por esta decisão. Hoje nós não temos a mínima chance no mercado externo. Seremos desalojados como fomos nos EUA. Não há como competir com os chineses com nossa legislação, com nossa burocracia... Mas, além de apostar no mercado interno, é preciso ter originalidade, criatividade e excelentes serviços. Ter cliente leal. Não basta ter cliente bom apenas.<br /><br /><strong>Comércio - Há alguma chance de expansão do mercado consumidor da indústria de calçados francana?<br />Pracuch -</strong> Há sim, principalmente com o crescimento da população de idosos, que procura em primeiro lugar conforto. E esse vai ser um item muito importante. Há dois anos foi feita uma pesquisa para saber o que os homens consideram quando compram calçados e 46% responderam conforto; 37% desenho e somente 3% consideraram o preço como fator mais importante. E quase sempre pensamos que é o preço, não é?<br /><br /><strong>Comércio - Qual é o futuro da indústria calçadista?<br />Pracuch -</strong> Nós vamos chegar à condição da Itália de hoje, ou seja, vamos ter fábricas de marca própria, com um produto acima de qualquer suspeita, que vão vender calçados caros, quase que artesanais. Em pequenas quantidades, mas que de longe vão sobrepujar em lucratividade as grandes quantidades que estão vendendo hoje. Este é o futuro da indústria brasileira de calçados. Produtos praticamente exclusivos. Vamos ter um mercado interno bem grande que será atendido por fábricas de menor porte, mas a maior importância será conferida às fábricas que vão trabalhar com artigos exclusivos e de alto custo. E aí também vamos exportar e poder competir. Há também um segmento que não pode ser desprezado, que é o de lojas próprias e franqueadas. Apesar de exigirem bastante capital, as grandes fábricas podem brigar por esse mercado porque precisam de muito menos lucratividade que uma loja de varejo normal. Isso porque o lucro pela venda do produto já fica na fábrica, ou seja, qualquer coisa que a loja ganhar com as vendas (no varejo) será extra.</p>
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