Salada radiante


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Vender o peixe, mil modos de o fazer. A feira-livre, desde séculos, ainda é um dos lugares mais prazerosos onde assistir a essa negociação. Bacia de pimentões fica mais barata se os mesmos forem pesados e cobrados por quilo? Qual a razão de jabuticaba ser medida em litro, se na verdade é sólida? Levar os tomates e as cebolas reunidos em mix é mais vantajoso que comprá-los separadamente? Ah, muito maduras as bananas, não sei se valem a pena até amanhã, está tão quente... Moça bonita não paga mas também não leva? Quem desdenha de fato quer comprar? A feira é um desfrute no domingo. Gosto muito de ir à da Major Nicácio. As cores dos legumes, a verdura variada das folhas, as barracas de doces, queijos, pastéis , as de plantas e artesantos - tudo me encanta. E especialmente se a manhã se faz luminosa, se o céu ganhou aquele azul francano que é de doer de tão belo. Então estava flanando entre salsão e salsinha , depois de um dedo de prosa com o Donizete que ali também vende o nosso peixe, ou seja, o Comércio, quando tive a atenção atraída para os grãos coloridos numa banca: lentilha, soja, grão-de-bico, ervilha, fava, milho, arroz e... feijão! Aliás, feijões de todos os tamanhos e cores, oferecendo-se ao olhar e ao toque. Brancos, vermelhos, pretos, rajados. Miudinhos, medianos, grandões. Todos lustrosos e lindos. Pensei na falta que deles sentem os brasileiros quando viajam ao Exterior. E nas formas mais tradicionais de o preparar. O preto na feijoada e no cotidiano dos cariocas, que parecem nem conhecer o de outras cores. O branco nos cassoulets franceses ou à moda portuguesa com dobradinha. O jalo para as sopas, se casado com macarrão fininho. Na infância comia um dito roxinho, do qual minha mãe extraía um caldo vermelhinho. Ainda existirá um feijão daqueles? Não sei. Vi escrito “bico roxo”, “bolinha”, “mulatinho”, “carioquinha”, “rajado”, “mãezinha” em tabuletas espetadas nas sacas entreabertas. Menos “roxinho”. Em compensação me deparei com um desconhecido graúdo e belo, que o vendedor me disse se chamar “radiante”. Pensei: que nome mais expressivo para um grão que parece nos sorrir em seus rajados cor de vinho, desenhados em superfície de um amarelo desmaiado! E me vi comprando pela beleza, pois me pareceu um pecado ir embora sem levar um quilo, nem que fosse apenas para colocar num vidro transparente e depositar em cima da pia, só para olhar. Mas aí fui pensando o que fazer com ele. Não me parecia apropriado para o tropeiro, nem para o virado, muito menos para o tutu. Tentei uma salada com o que tinha na geladeira. E não é que ficou bem bom? Fiz assim. Cozinhei o feijão em bastante água na panela de pressão. Antes de levar ao fogo juntei uma folha de louro, salguei, corri um fio de óleo. Deixei cozinhar sem que os grãos desmanchassem, isso foi importante. Enquanto o feijão cozinhava, piquei miudinho as cebolas, os tomates, os dois pimentões - o verde e o vermelho, o buquê de salsa crespa - ela é mais firme e seu efeito mais crocante nos pratos frios. Também preparei o molho. Juntei numa tigela o azeite de oliva extravirgem, o vinagre, o molho inglês. Misturei bem e acertei o sal. Levei para gelar. Retirei o feijão já cozido e escorrido e lhe apliquei um choque térmico passando-o pela torneira de água fria. Juntei delicadamente a mistura de legumes e cheiro-verde. Juntei o molho e coloquei a vasilha na geladeira por uma hora. E então servi.

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