No corredor a mãe aguardava ser chamada e sua maior angústia era deixar o filho de dois anos de idade sozinho até que pudesse voltar. Aquela oportunidade de emprego era única e levar o menino a tiracolo poderia atrapalhar a contratação. Situação embaraçosa.
A sua frente uma outra mãe também esperava, no colo um garotinho da mesma idade, no rosto a mesma preocupação. Ao entrar na sala do entrevistador pôde ouvir o início do primeiro choro, era o choro desesperado do seu filho, que em seguida se associou a outro choro, para em segundos misteriosamente calar. Vendo o outro chorar, a segurança do colo não era mais suficiente para ele, pôs-se também a chorar e puxar a mãe pelo braço para que pudesse confortar seu mais novo amigo e, então, começar a brincar.
Diferente de simpatia (impressão agradável de alguém), o termo empatia vem do grego empátheia (entrar no sentimento) e representa a capacidade de identificarmos os sentimentos e aflições do outro, compreendendo seu comportamento e prevendo suas ações. Trata-se de uma habilidade própria do ser humano que, como vimos na história acima, se manifesta bem cedo em nosso desenvolvimento. Estudos realizados com recém-nascidos comprovam que seu choro, em resposta a outro recém-nascido chorando, tem tonalidade e características sonoras específicas de uma resposta empática reflexa. Para a Psicologia evolucionista, a empatia surgiu como uma resposta adaptativa e altruísta do cérebro humano de caráter fundamental para a sobrevivência da espécie.
Estudos atuais de neuroimagem funcional sugerem que circuitos cerebrais que conectam o sistema límbico (emoções) ao córtex pré-frontal (decisões e autocontrole) são ativados pela audição, pelo odor e pela visualização da expressão facial e gestual do outro, fenômeno descrito como “contágio emocional”. Outros dois estudos publicados esse ano apontam para a importância dos chamados “neurônios-espelho” (os mesmos responsáveis por bocejarmos quando vemos outra pessoa bocejando) no processo empático. Apesar de encontrar-se em baixa nesses tempos de individualismo global, a empatia é fundamental para o funcionamento e sobrevivência do ser humano e da sociedade em que vivemos.
A eleição de Barack Obama, apoiado pela maioria dos americanos e por 41 cientistas laureados com o Nobel, me trouxe de volta a esperança na empatia. Sua trajetória de vida, inteligência e sincretismo já ultrapassam as fronteiras e contagia empaticamente todo o mundo. Resta saber se o deixarão governar. Good luck, Mr. President!
Marco Antônio Arruda
Neurologista da Infância e Adolescência e doutor em Neurologia pela USP - www.aprendercrianca.com.br
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