Revolucionários silenciosos


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O indivíduo, já ao nascer recebe seus primeiros números, que carregará até o final de seus dias comemorando-os ano a ano como sua data de natalidade ou de nascimento. Conforme vão passando os anos, ganha número novo, servindo de contagem “regressiva” do tempo, sinalizando que quanto maior o número mais próximo estará seu fim. A República, por sua vez, estabelece dispositivos legais para identificação dos entes da federação codificando-os pelo IBGE. Neste caso, Franca ganhou o número 351620, e sua população em 2007 era de 319.094 habitantes (viu como nos transformam em números?) Na trajetória da efêmera vida de cidadão, desde pequeno, é possível começar a ter noção dos números. Eu mesmo descobri com pouco mais de 8 anos que um cruzeiro comprava dois pedaços de doce-de-leite, um de abóbora (formato coração) e três puxas e, já naquela época me lembro de ouvir algo chamado “inflação” que sempre vinha seguido de algum número. Mas foi bem mais tarde que fui entender porque minhas guloseimas preferidas não eram mais compradas por um cruzeiro. Prosseguindo na trajetória de vida (como os números nunca nos deixam) chega a hora de recebermos aquele registro estadual: o `RG`, que é emitido pelo Estado e então começamos a nos sentir um pouquinho gente, qualificado num documento que têm até foto. O número, às vezes, não agrada muito a exemplo do meu que começa com 24. À medida que vamos avançando na idade a coisa vai ficando cada vez mais séria e ganhamos o número do Título de Eleitor tendo que dividir responsabilidades sobre os rumos da nossa política e as m... que os caras fazem. E assim são os números e eles não descansam nem nos deixam. Aí chega o momento do Cadastro de Pessoa Física (CPF). Momento áureo por nos tornarmos cadastrados (numericamente) em âmbito nacional; tempo de começar operar financeiramente - ir às compras - gastar dinheiro e também entender direito o significado de Receita Federal. Inegavelmente somos seres de carne, osso e sangue. Porém, terminologicamente, somos sempre encerrados e computados como meros números. Sem eles não somos reconhecidos e tampouco nos tornamos pessoas reais. Tudo está sob o controle dos números: os documentos pessoais, conta bancária, cartão de crédito, número da casa, telefone e etc. etc. Diante da atual conjuntura os números se revelaram “revolucionários silenciosos” por não terem feito alarde na busca pelo poder e controle absoluto. Conseguiram os números dominar amplamente estendendo os tentáculos à macroeconomia. Após quebrarmos a parceria harmoniosa eles nos subjugaram, no momento em que abusamos e os subestimamos imaginando sermos seus controladores como se fossemos deuses ganhando (especulando) dinheiro “a rodo” nas bolsas de valores que agora despencam e levam muitos ao desespero. Conseqüentemente não era difícil de prever que insurgiriam os números com toda sua violência sobre o mundo, trazendo sinais que precedem importante recessão global, demonstrando seu poder àqueles que montaram a equação e erraram na conta. Conta essa que todos nós fatalmente pagaremos... Ricardo Veríssimo Júnior Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e deste jornal

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