No dia em que se comemora o feriado da Consciência Negra, um levantamento do Laser (Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, revela que a distância entre negros e brancos ainda é grande. E em Franca, o cenário não é diferente.
Eles ganham menos, vivem mais em uniões consensuais, têm escolaridade média inferior à dos brancos e moram mais de aluguel. Além disso, 27,24% dos negros da cidade estão na linha de pobreza, contra 14,98% dos brancos. Os dados têm por base o último censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas). No total, a raça negra de Franca corresponde a 23% da população. São mais de 73 mil negros, a maioria homens, com até 30 anos e casados.
Mesmo depois de 313 anos da morte do maior líder em defesa do negro, Zumbi dos Palmares, a diferença entre as raças continua em áreas como o trabalho e a educação. Entre os negros, a escolaridade média não atinge cinco anos, enquanto entre os brancos quase chega a seis anos. Outra demonstração do abismo entre as duas etnias, está na remuneração mensal. Em Franca, o salário médio do negro é de R$ 523,33, quase 47% menor em relação ao salário dos brancos.
Comparado ao salário das mulheres, a diferença é ainda mais gritante. Enquanto as brancas recebem R$ 556,65, as negras têm renda média mensal de R$ 262,37. “Apesar deles ingressarem cada vez mais no mercado de trabalho, ainda há uma diferença salarial a ser combatida”, diz o Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil, também publicado pela UFRJ.
Para piorar, o rendimento dos negros francanos está abaixo de outras regiões do Estado pelo fato da cidade ter o forte da economia no setor coureiro-calçadista. “O preconceito ainda existe e, no mercado de trabalho, o negro acaba prejudicado, pois tem menos preparo. Como o acesso à educação, principalmente superior, é mais difícil, ele deixa de estudar para ajudar no sustento da casa. Sobram, então, as posições inferiores, em que o rendimento é mais baixo”, disse o professor de economia da Unifran (Universidade de Franca), Karl Wiens Schumacher. Em Ribeirão Preto, por exemplo, o rendimento médio é de R$ 711, 91. São José do Rio Preto, tem salário médio de R$ 654,23.
Mariana Coelho Rosa, presidente do Conselho Municipal de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra, diz que o perfil do negro francano não é diferente do de outras regiões do Estado e do Brasil e aponta medidas para melhorar esse cenário. “O negro enfrenta dificuldades em todos os lugares. Sofre preconceito no trabalho, na escola, nas ruas. Para mudar isso, precisamos investir mais em educação”.
Com uma renda abaixo do ideal, os negros têm mais dificuldades de comprar a casa própria e moram mais de aluguel. São 25,55% da comunidade negra, contra 19,50% dos brancos. “Há uma disparidade grande entre negros e brancos que só será minimizada com mais acesso dos negros aos estudos. Franca, aos poucos, tem investido nesta área”, disse o economista Schumacher, que também coordena o Núcleo de Educação a Distância da Unifran.
[FOTO2]
Independente da cor e das dificuldades para chegar ao ensino superior, a dona de casa Graça Santana e o marido, o mecânico Roberto de Santana, comemoram o fato dos três filhos do casal terem entrado na faculdade. As duas filhas mais velhas, Gleise, 28, e Taís, 27, já estão formadas e agora ajudam a custear os estudos do irmão mais novo, Islan Eliezer Santana, 20. “É um milagre, principalmente por serem negros e não termos condições”, disse Graça.
Para ela, barreiras existem, mas o negro precisa se impor e fazer a diferença. “O negro precisa ter presença e saber se valorizar”.
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.