A fisionomia dos trabalhadores da Calçados Mariner denuncia que há algo errado. No intervalo para o almoço ontem, a expressão não era de quem havia cumprido parte da jornada, iria descansar e retornaria logo em seguida. Com olhares perdidos, os sapateiros deixavam a fábrica de cabeça baixa. Brincadeiras para descontrair o ambiente não eram vistas como de costume. Segundo os próprios trabalhadores, o atual ambiente não é nada animador.
O cortador GMM, 49, morador no Parque Vicente Leporace, está na empresa há seis anos. Após o anúncio dos cortes, os colegas mais novos de “casa” o procuraram para saber se a situação era normal. A resposta foi não. “É a primeira vez que acontece isto. Nunca havia presenciado esta queda de produção e tantas demissões como vai acontecer”. Segundo GMM, todos os anos acontecem dispensas, mas desta vez é diferente. “A empresa exagerou”.
O termo usado pelo cortador para expressar o sentimento dos colegas foi “assustados”. “O chefe fez uma reunião e comentou que infelizmente vai ter demissões. Foi o suficiente para alarmar todo mundo”. O responsável pelo setor de corte, onde GMM trabalha, não revelou nomes, mas disse que a assinatura dos avisos de demissões teria início nesta quarta-feira e se estenderia até terça-feira da próxima semana.
MRA, 32, é casado e pai de dois filhos. Conseguiu uma vaga como cortador de forro na Mariner há três meses. No início, ele acreditava na melhora do setor calçadista e que ficaria na Mariner por muitos anos. Ontem estava frustrado e preocupado com o futuro. “Vou continuar correndo atrás de alguma coisa porque não podemos parar”.
Entre os funcionários da Mariner está o diretor do Sindicato dos Sapateiros Ricardo Antônio Duarte, 34. Trabalhando no setor de preparação da Mariner há quatro anos, ele disse que foi procurado pela direção que teria justificado a crise financeira mundial como motivo para reduzir a produção de 8 mil para 2,5 mil pares por dia e demitir, no mínimo, 300 funcionários. A versão é diferente da apresentada pelo diretor da empresa à reportagem na tarde de ontem.
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