‘A crise já está aqui’, diz consultor


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Há 67 anos trabalhando no setor calçadista em vários países, o sapateiro e consultor Zdenek Pracuch acompanha de perto quatro empresas em Franca e não acredita que a indústria francana será poupada durante a crise financeira mundial. Bem humorado, Pracuch concedeu entrevista exclusiva ao Comércio na tarde de ontem. Comércio da Franca - Como essa crise financeira internacional deve chegar ao Brasil? Zdenek Pracuch - Essa crise já está aqui, firmemente instalada. Perdemos mercados de exportação e ainda vamos sofrer com a abertura de mercado para a China. Há meses eu falei que isso iria acontecer, embora nosso glorioso líder e guia, o presidente Lula, diga que vamos ter apenas uma marolinha. Agora esta marolinha parece que está nos sufocando. Até o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que é um capitalista frio, disse na última segunda-feira que vamos sofrer, um pouco menos que o resto do mundo, mas vamos sofrer... Comércio - Mas, conversando com empresários do setor para saber como o mercado vê a crise e eles parecem bem otimistas principalmente devido a alta do dólar. Pracuch - O câmbio seria a solução se não houvesse competidores. Só alguém que olha do ponto de vista francano: “Puxa, o dólar subiu, vamos começar a exportar...” e não tem a mínima noção daquilo que acontece realmente no mercado lá fora, é que vive uma vitória como essa, completamente falsa. Isso porque os chineses são tenazes. É um povo que temos que aprender a respeitar. Antes de morrer, eles vão tentar conquistar os outros mercados que perderam devido à recessão americana. E nós vamos ser atacados por todos os lados, mais ainda agora que o governo abriu as portas. Não temos nenhuma restrição oficial contra eles. Ouvi de vários empresários: “Ah, esse filme eu já vi várias vezes. Você lembra do Collor, do confisco? Pelo amor de Deus, quase que dei um tiro na cabeça. Isso aqui não me assusta”. Já ouvi isso. Então, o que eu posso esperar de um dirigente de empresas que com todos os métodos obsoletos com que estamos produzindo, ignora toda a pressão dos importados e que não vê a perda dos mercados de exportação para os orientais? O que você espera de um gerente desses, cujo o mundo começa em Batatais e termina em Rifaina? Comércio - Algumas empresas já deixaram de acreditar no mercado externo Pracuch - Parabenizo eles por esta decisão. Hoje nós não temos a mínima chance no mercado externo. Seremos desalojados como fomos nos EUA. Não há como competir com os chineses com nossa legislação, com nossa burocracia... Apenas tendo originalidade, criatividade e um serviço perfeito há alguma chance. Comércio - Como o setor pode se mostrar de alguma forma otimista ante a um cenário como esse? Pracuch - A palavra desemprego, que vinha sendo evitada, agora toma os noticiários brasileiros. Em São Carlos 480 pessoas foram demitidas por uma fábrica de autopeças depois que a Volks decidiu não renovar o contrato com a empresa. A General Motors, em São Caetano, deu aos trabalhadores quase duas semanas de licença e anunciou que não garante o emprego para 2009. E por aí vai. Isso é contagioso e é lógico que todos vão sentir. Imagine como será o fim do ano para quem está com uma carta de demissão nas mãos. Quem via gastar? E temos que nos preparar porque a coisa tende apenas a piorar.

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