“A parte mais difícil foi quando o cabelo começou a cair. Foi triste, fiquei constrangida. Eu não queria nem sair na rua”. O relato é da estudante Flávia Cristina Pereira, 12, que se transformou num ícone na luta contra o câncer em Franca. Suas fotos estão espalhadas pela cidade e ilustram publicações e campanhas de prevenção. Lutar para prevenir o câncer tem se tornado cada vez mais importante em Franca. Dados obtidos pelo Comércio mostram que é cada vez maior o número de mortos por neoplasias na cidade. Em dez anos, as mortes por câncer aumentaram 79,5%. Apenas os casos de derrame mataram mais.
Em 1997, 186 pessoas morreram em Franca por causa de algum tipo de câncer. Na época, a doença ocupava a quarta colocação entre as que mais matavam na cidade. No ano passado, o número de óbitos saltou para 334. Os dados são do Ministério da Saúde e foram levantados com base nos atestados registrados pelos hospitais da cidade.
Em números absolutos, o câncer de pulmão é o responsável pela maior parte das mortes. Foram 24 casos em 1997 contra 45 no ano passado, um crescimento de 87%. “O câncer de pulmão é uma doença extremamente grave, agressiva. Nos EUA, o índice de curabilidade deste tipo de tumor é em torno de 10%. O restante vai falecer devido à doença em até seis meses após o diagnóstico”, disse o médico oncologista José Reinaldo de Paula Tasso. O cigarro é o grande vilão.
O câncer de estômago matou 30 pessoas em 2007, enquanto os de colo, reto, ânus e de próstata foram responsáveis por 23 mortes.
Há dez anos, quatro pessoas haviam morrido em Franca vítima de câncer no pâncreas. No ano passado foram 11 mortes. Foi em 2007 que Edna Maria Comodaro Moraes, 59, teve diagnosticado este tipo de doença. “Fizemos exames após perceber que ela estava ficando muito amarela. Foi um susto muito grande quando descobrimos que era câncer. O baque é enorme. Minha mãe demonstrou muita força e sempre falava que venceria a doença. Infelizmente, não foi possível”, disse a médica ortomolecular Maria Paula Comodaro Moraes, filha de Edna. No dia 17 de julho deste ano, 13 meses depois de descobrir a doença, sua mãe não resistiu à luta e morreu. “O portador de câncer precisa acreditar muito em Deus e manter o otimismo”.
NÚMEROS CRESCENTES
Responsável-técnico pelo Hospital do Câncer de Franca, o médico José Reinaldo de Paula Tasso convive de perto com a doença há 13 anos. Para ele, o crescimento real dos casos de morte por causa da doença não seria tão grande como indicam os dados do Ministério da Saúde. “Há dez anos, o registro de óbitos não era tão confiável como agora. A causa de muitas mortes não era explicada nos atestados. Também havia muitos casos de pessoas que iam se tratar fora e que acabavam morrendo em outras cidades”.
O médico afirmou que, com a implantação do Cacon (Centro de Alta Complexidade em Câncer), em 1997, e com a inauguração do Hospital do Câncer, em 2001, a cidade passou a contar com uma assistência médica melhor e a fazer as notificações com mais exatidão. José Reinaldo, no entanto, admite que os casos do câncer estão aumentando por causa do estresse, da alimentação desregrada e do abuso do álcool e, principalmente, do cigarro.
Colaborou Daniela Rodrigues
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