Ela venceu a morte


| Tempo de leitura: 4 min
LEMBRANÇAS - Ana Isabel mostra as fotos e recordações da família que perdeu vítima de acidente: “Não há um só dia em que não me lembre deles e não sinta saudades”
LEMBRANÇAS - Ana Isabel mostra as fotos e recordações da família que perdeu vítima de acidente: “Não há um só dia em que não me lembre deles e não sinta saudades”
Em junho de 2000, a pedagoga Ana Isabel Costa Carvalho, 44, sobreviveu a um trágico acidente de carro. Ao acordar, teve de aprender a lidar com a dor da perda. O marido e seus três filhos, todos menores de seis anos, haviam morrido no acidente. Ana ficou sozinha. Lutou e reconstruiu a vida. Terminou um curso de especialização no atendimento a deficientes na Unifran, conseguiu emprego na Apae (Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais), namorou e engravidou. Hoje seu filho tem 3 anos. Já se passaram oito anos, mas os momentos que antecederam o acidente e o drama seguinte à tragédia estão presentes em sua memória. Ana conta que ela e o marido, o comerciante Daniel Carvalho, escolheram o bairro de Estreito - região de Pedregulho - para morar, trabalhar e criar os filhos Thiago, 6; Ícaro, 3, e Ana Gabriela, 1. Viviam felizes. As crianças acompanhavam os pais no trabalho onde havia, inclusive, um quarto para brincarem e descansarem. "Estávamos juntos (a família) dia e noite. Não tinha babá para olhar as crianças. Daniel queria todos por perto", conta Ana. A vida pacata e feliz da família foi interrompida no dia 23 de junho de 2000, Dia de Corpus Christi. Ana, Daniel e os filhos haviam chegado à casa de parentes em Piumhi (MG), um dia antes. Na sexta-feira, 23, ela convidou o marido para ir à casa de seu pai, na cidade de Pimenta - a 21 quilômetros de Piumhi. O pai de Ana fez o inverso. Seguiu ao encontro da filha. "Chegamos à casa do meu pai e minha madrasta disse que ele não estava. Resolvemos voltar para Piumhi". De volta à estrada, a família não imaginava que aquele seria o último passeio. Um ônibus de trabalhadores rurais invadiu a pista contrária, se chocou com a caminhonete dirigida por Daniel e a jogou em uma ribanceira. Daniel, Thiago e Ícaro morreram na hora. Ana Isabel foi socorrida ao hospital de Passos, com escoriações generalizadas. De carona, estava um sobrinho de Ana, de 14 anos, que também sobreviveu. Uma senhora de 63 anos que havia pego carona não teve a mesma sorte: morreu no local. Já a pequena Ana Gabriela não foi encontrada no momento do resgate às vítimas. Quando soube das mortes, Ana Isabel entrou em estado de choque. "Fizeram reunião para me contar, mas ninguém tinha coragem. Minha irmã entrou no quarto e falou: você tem que saber, morreu todo mundo. Falta encontrar a Ana Gabriela". A esperança da pedagoga era que a menina tivesse sido socorrida com vida. "Começava uma corrente de oração entre meus familiares para encontrá-la. Passaram a noite toda procurando nos hospitais das cidades vizinhas". No dia seguinte, quando os corpos do marido e dos dois filhos de Ana eram velados em Franca, o ônibus era erguido por um guincho. Neste momento, a esperança de encontrar Ana Gabriela com vida chegou ao fim. A criança estava soterrada debaixo do veículo. "Meu pai estava lá em busca de nossos documentos e viu a perna da Ana em meio à terra quando levantaram o ônibus". Ana Isabel foi liberada para o velório da família. "Os caixões de Thiago e Daniel estavam lacrados. Pedi para abrirem, mas deixaram eu ver apenas meu menino. O Dani estava muito machucado", conta Ana em lágrimas. Após o velório, ela foi internada no Hospital São Jaquim. Na semana seguinte, teve alta médica. Era o momento de desfazer a casa, os pertences dos filhos e do marido. "Minhas irmãs foram a Estreito e desmancharam a casa. Graças a Deus, não precisei ter mais esse momento de dor". Conviver sem a família não foi fácil. Os questionamentos a Deus sobre a tragédia eram constantes. "Pensava por que Deus não me levou. Perguntava "me deixou para quê?". Na verdade, tenho alguma coisa para fazer aqui. Hoje tenho um presente que é o Antônio Augusto", diz referindo-se ao filho de 3 anos. Três anos depois de perder o marido, Ana reencontrou um primo de primeiro grau, ex-namorado na juventude e que também havia ficado viúvo. Namoraram e decidiram morar juntos. Do relacionamento nasceu Antônio Augusto. O casal continua junto, mas em casas separadas. "Ele é uma pessoa carinhosa. Não comenta sobre minhas lembranças, vê minhas fotos de casamento, filmagens em família. Nos damos muito bem". Hoje, na nova casa de Ana, no Jardim Paulistano, as lembranças do passado estão expostas na sala de jantar, numa espécie de santuário. Fotos e desenhos da família ficam sobre um aparador de madeira. "Vendo as fotos não tenho a sensação de estar sozinha. São fotos bem alegres. É uma forma de simbolizar a presença deles na minha vida e de encontrar forças para continuar vivendo".

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários