<p>O empresário João Batista de Lima, 54, possui uma agenda apertada. Administra três empresas de ramos diferentes: a Padaria Estrela, a Estrutural (empresa coligada à Francal Feiras - da qual ele também é diretor) e a La Pharma, farmácia de manipulação. As duas últimas são sediadas na capital do Estado. Ele, a mulher e as duas filhas, de 26 e 23 anos, têm uma rotina intensa de viagens, especialmente entre Franca e São Paulo. Embora tenha muitos compromissos, o empresário encontra tempo para dedicar-se ao próximo.</p><p><br />Em Franca, a Padaria Estrela encabeça projetos sociais em prol de pessoas em tratamento contra doenças graves, creches e escolas. A campanha Estrela Solidária é uma das mais conhecidas. O projeto foi realizado neste ano pela terceira vez em prol do Hospital do Câncer da cidade. Todo dia 9 de outubro, o faturamento bruto com a venda de produtos, camisetas e o dia de trabalho dos 135 funcionários são doados à instituição. Neste ano, a campanha rendeu R$ 50.117,30. A iniciativa ajuda os 1.200 pacientes que se tratam no HC todos os meses.</p><p><br />João aposta no potencial industrial e comercial da cidade para incrementar as ações sociais em Franca, mas acredita que muitos empresários se sentem envergonhados em lançar projetos do tipo. A expectativa dele é a iniciativa da Estrela servir de exemplo ou conquistar outros parceiros, além do Grupo Corrêa Neves de Comunicação, nas próximas edições.</p><p><br />Na segunda-feira passada, com a produção de pães, salgados e tortas a todo vapor nas cozinhas da Padaria Estrela da Avenida Major Nicácio, João interrompeu seus afazeres administrativos para falar da sua rotina de trabalho, que alia administração, organização de feiras e solidariedade.</p><p><br />Ele falou com orgulho dos projetos sociais e da cumplicidade com os funcionários das empresas. A proximidade é tanta que dois ex-motoristas da Francal ocupam, hoje, cargos importantes na Estrela. Paulo Xavier é seu sócio e José Marques gerente da unidade do Jardim Redentor. "A gente tem um excelente relacionamento (...) e se entende muito bem, ou seja, é um casamento".</p><p> </p><p><strong>Comércio da Franca - Como e quando nasceu a Padaria Estrela?<br />João Batista -</strong> No ano de 1990, na minha casa, éramos clientes da Padaria Pão Nosso. Sempre que voltava de São Paulo, eu levava minha família na padaria para comprar e eu ficava esperando no carro. Eu via o movimento e entendia que era algo muito fascinante. Primeiro porque eu sempre gostei de cozinha e segundo porque eu entendia que era uma coisa muito prática, porque os produtos são de fácil aquisição. Sempre comentei que achava um negócio atrativo. No final de 90, tive uma proposta para a compra da Padaria Estrela. Compramos e eu me vi numa sinuca de bico porque eu tinha as empresas da Francal para tocar e uma padaria. E não havia dois "Joões" para ficar nessa atividade. Aí surgiu a oportunidade de ter sócios, que foram o Ramon e o Paulo Xavier, que na época trabalhava comigo como motorista na Francal (hoje Ramon deixou a sociedade). Eles vieram para a padaria, acreditamos e houve uma participação muito grande do Paulo, porque eu era um sócio ausente: estava em Franca nos fins de semana e segunda-feira, porque depois voltava para São Paulo. Mesmo sendo sócio minoritário, ele teve a incumbência de tocar a padaria no dia-a-dia e deu certo. Pode dizer que foi a duras penas, mas deu muito certo. Nós crescemos, chegamos a ter três padarias.<br /><br /><strong>Comércio - Como foi a história do Paulo, motorista, transformar-se em sócio?<br />João -</strong> A gente sempre conversava muito a respeito de prospecção de negócios. O Paulo parece ser uma pessoa fechada, mas é bom de papo; é só questão de engatilhar. E quando eu estava negociando a padaria, num café na Francal eu perguntei para ele se já tinha trabalhado com padaria. Ele disse que já tinha vendido pão em Restinga. Ele comprava, punha numa perua e levava para lá. Eu perguntei se já tinha pensado em fazer o pão. Fiz a proposta, ele veio para a padaria e está comigo nesses anos todos. A gente tem um excelente relacionamento. Eu diria que o Paulo não é meu irmão carnal, mas eu o tenho como um irmão e tenho certeza que ele também tem o mesmo sentimento por mim. A gente se entende muito bem, ou seja, é um casamento. Não temos briga. Nós nunca tivemos nenhuma discussão. Sempre trabalhamos na base do diálogo. Sempre foi algo pautado no respeito. Nós nunca saímos da padaria com sentimento pesado ou esfolado pelo outro. Com o José Marques, gerente da padaria do Redentor, é a mesma coisa. E é uma coisa interessante: quando o Paulo deixou de ser motorista, o José Marques assumiu o cargo na Francal e quando constituímos a padaria o tiramos do cargo de motorista e também o colocamos na padaria.<br /><br /><strong>Comércio - Qual o segredo do sucesso da empresa?<br />João -</strong> O grande segredo desse sucesso que a padaria tem é exatamente o relacionamento interpessoal que temos entre todos nós. Tenho o privilégio de ter pessoas certas, no lugar certo. Isso aqui é uma roda dentada. É dente sobre dente que se encaixam e rodam todo esse mecanismo. O segredo é que nós temos a fidelidade do cliente. Nós nunca medimos esforços em encontrar, primeiro, matéria-prima de primeira qualidade e de usar todos os insumos e tecnologia que o mercado oferece.<br /><br /><strong>Comércio - Há planos de expansão da Estrela?<br />João -</strong> Nós temos vários planos de crescimento. Um deles é no antigo ponto onde funcionou a padaria por muitos anos e se encontra fechado. Temos um projeto de abrir um grande armazém, com comida e bebida, no local. Só que a gente sempre fica no aguardo das circunstâncias de mercado. Nosso mercado vinha num certo equilíbrio, mas com as bagunças cambiais, bolsas e esse desastre da economia mundial nós puxamos novamente o freio. Dentro da própria padaria já estamos colocando em prática mais uma opção com o serviço de alimentação. Já estamos com um consultor gastronômico, que é da Itália, o Roberto Benelli. Ele está nos assessorando na questão gastronômica. Queremos oferecer uma alimentação com qualidade. Queremos ter uma lasanha como ela é feita na Itália. Só para ilustrar: o jeito brasileiro modificou a operação de se fazer a lasanha. A italiana não tem presunto, não tem mussarela. Queremos servir pratos práticos, com alimentação mais acessível financeiramente. Ofereceremos massas no almoço e jantar. A princípio serviremos no mesmo espaço que temos, mas em janeiro pretendemos ampliar a área de refeições para o segundo andar do prédio (da Major Nicácio).<br /><strong><br />Comércio - O que representam as ações sociais da empresa?<br />João -</strong> Eu tenho sempre por mim que o que a mão direita faz a esquerda não precisa ficar sabendo. Mas nós temos uma ação que abraçamos, que é a Estrela Solidária, junto ao Hospital do Câncer de Franca. Esse é um projeto que já realizamos em três edições, sempre no dia 9 de outubro, data da mudança para esse novo prédio. E a partir do ano de 2009 vamos ter uma outra configuração para o projeto, inclusive com uma ação de agressividade maior dentro da própria coletividade. Ele foi modesto nas primeiras edições porque nós estávamos plantando, para analisar a receptividade, o crescimento e o entendimento na comunidade. E depois de três edições, com o apoio irrestrito que sempre tivemos do Grupo Corrêa Neves de Comunicação, nós temos a partir da próxima edição um projeto com abrangência maior. O Hospital do Câncer de Franca tem muita necessidade de apoio da coletividade. Franca tem um dos melhores hospitais dentro do Estado, respeitando os que estão no topo. O hospital tem uma demanda regional monstruosa. Os recursos do governo, independente de ser estadual, federal ou municipal, são sempre escassos. Entendemos que a coletividade tem de se unir, construir e fortalecer. Muitas vezes eu vejo que a coletividade e o empresariado não têm esse olhar. Não conseguem enxergar para o futuro, para as gerações vindouras, o benefício de se construir agora para se desfrutar no futuro. Não que a gente deseje que o futuro seja de doença. Se tivermos educação, nós teremos saúde, segurança, nós teremos tudo. E nós temos ainda outros projetos voltados para a comunidade, como no Veredas e em creches.<br />Comércio - Que tipo de ajuda é essa? <br />João - Quando temos conhecimento de que uma creche tem dificuldades, procuramos ajudar. A gente evita fazer aporte financeiro sem saber para onde vai e procura colaborar de outras maneiras, como doações de instrumentos, de computadores, de material didático. É uma ação que a gente propaga.<br /><br /><strong>Comércio - A Estrela doa o faturamento bruto para o HC, sempre na mesma data, 9 de outubro. Por que essa opção?<br />João - </strong>Quando tomamos a iniciativa de doar um dia de faturamento, muita gente na cidade chegou a fazer comentários de que não era um bom exemplo porque as pessoas passariam a ter conhecimento sobre o que a padaria tem de movimentação, o que consegue ter de faturamento e que poderíamos ser vitrine da maldade (referindo-se a atrair a atenção de marginais). Eu nunca tive essa preocupação. Aquilo que temos de fazer para favorecer o menos favorecido tem de ser feito. Não se consegue dar uma grande caminhada sem o primeiro passo. Eu estava em reunião com o Paulo e a Márcia (procuradora dele) falando da primeira Estrela Solidária e falei para doarmos de porteira fechada, como se dizia antigamente. Porque se a gente tiver que ficar explicando a arrecadação e as cargas tributárias cobradas, se tiver que ficar dando muita satisfação, cria até um constrangimento para quem está recebendo. Eles aceitaram de imediato.<br /><strong><br />Comércio - Como o senhor avalia a participação dos empresários francanos em ações sociais?<br />João -</strong> Acredito que se o empresariado doasse um pouco, nem que não fosse todo o faturamento, acredito que pelo volume que temos de empresários na cidade já teríamos o hospital pronto e talvez a gente tivesse opções para investir em outras áreas, como escolas. Às vezes o empresário tem vontade de fazer, mas tem a vergonha, receio de pôr a mão na massa. Você não tem idéia de como eu me sinto bem ao término das ações solidárias. Vem à flor da pele, aflora. É um momento em que eu entro em estado de graça. Eu me coloco no lugar daquelas crianças que estão ali, naquele momento, dentro de um quadro de carência, mas não existe demérito nenhum. Não denigre minha imagem, nem a do Paulo. Você não tem idéia do atrito que cria dentro da padaria para saber que funcionários vão até as festas nas creches, porque todos querem participar. A demanda é muito maior do que podemos levar. Eu sinto que muitos empresários têm esse melindres. Veja bem: eu não posso rotular todos os empresários, porque eu conheço muitos que fazem e que dão assistência a obras maravilhosas na cidade e que não gostam de aparecer. Não gostamos muito de aparecer, mas muitas vezes eu tomo a liberdade de deixar que a coisa cresça e apareça para ver se alguém toma a iniciativa de fazer também ou de se tornar um parceiro nosso.<br /><strong><br />Comércio - É possível ajudar a Estrela Solidária?<br />João -</strong> Mas claro que é. O Grupo Corrêa Neves de Comunicação é um dos parceiros (o Comércio da Franca vende assinaturas a preços promocionais e doa o valor integral ao HC. Neste ano, funcionários doaram um dia de trabalho, como os da Estrela fazem na campanha). Eu tive um parceiro que jamais posso deixar de mencionar nessa empreitada, desde a primeira, que foi o Júnior (Corrêa Neves Júnior, diretor responsável do jornal). Ele sempre foi um parceiro que entendeu que a causa era nobre e nos apoiou. Isso nos fortalece. Há "n" ações. O empresário pode fazer doação da própria empresa, doação de dia de trabalho dos funcionários e até na compra de produtos aqui na Estrela. É só querer. A coletividade é sábia. Nós tivemos "n" pessoas que no dia da Estrela Solidária passaram pelo caixa e enrolaram notas de valores grandes e colocaram no cofrinho, sabendo que estavam contribuindo com o Hospital do Câncer naquele dia. Quer dizer: é simples, é só ter coragem e iniciativa.<br /><br /><strong>Comércio - Mas o que quer dizer quando diz que falta mais envolvimento da coletividade e dos empresários?<br />João -</strong> A gente pode ter alguns empresários participando conosco. Se temos, por exemplo, um lava-jato que deseja participar da campanha, ele estabelece aquilo que ele quer e ele vai fazer conosco uma ação de trabalho conjunto. Queremos aumentar a receita da campanha. <br /></p>
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