Simples e gostosa


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Galette, substantivo feminino. Em seu sentido primeiro o nome remete a um biscoito doce, recheado, massa folhada e forma redonda, muito consumido na França do século em que o magnífico Pierre Auguste Renoir apresentou ao mundo o Le bal du moulin de la galette (1876). O moinho inspirador continua lá, em Montmartre; antes de subir para o Sacré Coeur o olhar o captura à esquerda. Mas os biscoitos que ali eram vendidos não existem mais, a receita se transformou, virou várias. A mais fiel ao primeiro modelo é a de um bolo que lembra o nosso panetone mas é baixinho. É a “galette des rois”. Mas o que proliferou e é hoje uma marca da cozinha francesa, tanto nos bistrôs quanto na vida doméstica, é a galette de batatas, uma variante salgada. Existem mil maneiras de preparar, parece até que os franceses inventam uma a cada dia, a cada livro, a cada blog. A batata pode ser passada no ralo grosso, cortada em fatias finísimas, cozida e grosseiramente amassada, temperada ao gosto do freguês: sal é imprescindível, o resto varia ao infinito. De noz-moscada a tomilho cabe tudo numa galette. Pensava na tela de Renoir, relembrando crônica de Alfredo Palermo a respeito do grande mestre da pintura. Olhava uma reprodução do bal e refletia sobre a incomensurável joie de vivre que dele emana e nos convida a entrar no festivo agrupamento humano com todos os nossos sentidos. Admirava o clima amistoso e a iluminação delicada nos rostos de homens e mulheres, efeito obtido pelo gênio do pintor. Lembrava o que tinha lido num folheto do Musée D’Orsay: este tipo de festa retratado pelo impressionista era popular mas não no moinho, e sim num espaço bem próximo, o Butte Montmartre. Considerava que este baile aconteceu de fato e foi organizado pelo próprio Renoir com fins beneficentes. Homem solidário e generoso, queria arrecadar fundos que lhe permitissem criar uma sociedade que cuidasse das crianças que vagavam pelas colinas do boêmio Montmartre enquanto suas mães trabalhavam. Ainda marcada pelas impressões desta obra-prima, e por recordações do moulin de la galette, baixei e-mail de Luciana Capelli e li a sugestão culinária que ela encaminhava às amigas. Não é que era... uma versão de galette?! Não resisti, pois respeito demais as coincidências. Experimentei com leves adaptações a receita, que passo aos leitores. Ficou muito boa, por isso decidi compartilhar. Descasque as batatas e cozinhe sem deixar que amoleçam muito. Devem ficar firmes para que possam ser cortadas em rodelas finas. Corte também as cebolas em rodelas finíssimas - o superlativo é por conta de Luciana e a recomendação deve ser seguida à risca. Desmanche as rodelas, libertando os aros. Num prato coloque as batatas; no outro, as cebolas. Unte um pirex alto e redondo com manteiga. Polvilhe com farinha de rosca. Disponha a primeira camada de batatas. Polvilhe sal , farinha e queijo. (Fui além da recomendação de Lu e polvilhei também ervas finas). Depois, camada de cebolas. A alternância é esta. A última camada deve ser de batatas com os condimentos escolhidos. Derreta a manteiga no leite quente e despeje no pirex. Polvilhe caridosamente ( o adjetivo expressivo também é de Luciana) com queijo ralado (se tiver o Gruyère, ótimo; caso contrário pode ser o parmesão ou o mineiro). Leve ao forno quente por meia hora. Vai estar no ponto quando corar. Acompanha bem carnes. Mas pode ser servida com salada verde, numa combinação bem leve.

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