Ladrões de corações


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Perder bens materiais ao “amigo do alheio” é, por si só, situação de que não nos esquecemos jamais. Mas, se é bem material, com o tempo conseguimos recuperar. Cruel é quando nos levam bens sentimentais. Partes de nossas vidas vão-se também, nada que possamos comprar de novo na loja da esquina. Conversávamos eu e Luiz Neto ontem e ele me disse que escreveria, no sábado, sobre um anúncio diferente, publicado na seção de Classificados deste Comércio na última quarta-feira. Trocamos algumas idéias e ele zarpou em direção às reuniões relativas à Editoria de Opinião e Relações Corporativas, que cuida no Grupo Corrêa Neves de Comunicação. Pus-me a pensar sobre o texto do anúncio: “COMPRO O MEU COMPUTADOR ROUBADO - Você que roubou meu computador na Rua Presidente Kennedy devolva minhas lembranças, fotos da minha filha e anos de trabalho. Pago R$ 200 pelos meus arquivos ou pelo computador de volta”. Algumas lembranças voltaram à minha mente. Eu também passei por problema similar. Daí a começar a produzir algumas linhas, fui um pulo simples. Em uma de suas idas-e-vindas, Luiz me perguntou o que havia achado do texto. Disse-lhe que não havia resistido e que tinha iniciado algumas considerações sobre o tema. Antes de desaparecer de novo, gritou um “continue”. Pois bem, estão aqui as anotações. Atuo hoje, de novo, como interino dele. A vítima em questão, antes do roubo, havia sofrido por dias enquanto técnicos tentaram recuperar os arquivos de seu micro, prejudicados por um defeito no disco rígido. O alívio de ter de volta a maioria das fotos de sua filha única, de seus trabalhos acadêmicos e profissionais foi por terra após a visita indesejada. O sofrimento de ver-se desta vez totalmente impossibilitado de qualquer tentativa de reaver parte de sua vida levou-o ao desespero de oferecer uma recompensa à sensibilidade do agressor. Nada pode trazer de volta lembranças de alegrias congeladas em arquivos, gotas de suor e noites em claro derivadas de exaustivos trabalhos. Não resta nada. Encontram-se agora apenas na mente do pai zeloso e nas mãos ou na lixeira de alguém que para aliviar seus dramas, divide os arquivos pessoais dele com quem não tem nada a ver. Falo com propriedade sobre o assunto, pois vivi na pele o compartilhamento de bens e relíquias sentimentais com alguns destes personagens do submundo. Armados e inclementes levaram, sob os olhos desesperados meus e de minha família, lembranças, fotos e pequenos tesouros pessoais com a mesma tranqüilidade e confiança que observamos em um operário em dia rotineiro de trabalho. Conosco fica o trauma até hoje não superado de ter nosso lar, nossas lembranças, nossas alegrias e nossas vidas violentadas com naturalidade e distanciamento. Para quem acredita em coincidências, esta semana, quatro anos após o relatado assalto à minha casa, uma parenta localizou uma fita VHS com uma parte mínima porém idolatrada de nosso passado perdido para as mãos doentes dos marginais. Com lágrimas nos olhos minha mulher acompanhava cada cena do vídeo e vivia de novo a lembrança e a tristeza daquelas horas de provação. “Nunca mais!”, dissemos juntos. Também o Luiz – soube depois por ele próprio – traz no peito a experiência vivida como amarga vítima, pouco tempo após seu matrimônio. Todos os presentes de casamento - dados e recebidos com carinho - foram levados sem piedade. “Minha mulher chorou por muito tempo alguns dos presentes que ganhamos, nunca pelo valor financeiro e sim pelas lembranças das pessoas que não se esqueceram de nós no dia do casamento”, disse. Também no caso dele - espelho do que sofri - e do que o pai desesperado em recuperar o que lhe levaram sofreu, é possível pensar que o que armazenamos com tanto carinho seja em CDs, DVDs, fitas VHS ou em caixas e engradados devem estar deteriorando agora num terreno baldio ou em lixões. É onde, aliás, também estão jogados nossos direitos de cidadania. Lamentei saber, meses após minha experiência, que os autores do crime cometido contra minha família e de outras, muitas outras, depois de presos haviam recebido a visita de representantes dos “direitos humanos” que se preocupavam com suas condições de cárcere. Minha família, a família de Luiz Neto e o pai zeloso (apenas exemplos entre centenas, milhares), não podemos mais entender direitos constitucionais como algo realmente “direito”. Continuamos a viver, isto sim, em “regime semi-aberto”, tentando recuperar parte de nossas vidas recompensando a possível (mas não provável) sensibilidade destes verdadeiros ladrões de corações. PARCERIA Escrever aqui, aos sábados, não significa apenas cumprir uma obrigação. É preciso encontrar temas capazes de permitir à sociedade olhar para a própria sociedade com olhar crítico. Alexandre Fischer, que tem um olhar arguto, me ajuda. Sei que essa parceria continuará rendendo bons momentos.

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