A crise financeira atual que o mundo vivencia começa a migrar para uma crise mais séria que é a econômica. Sim, há uma diferença entre elas. A primeira é resultado do descontrole do Estado sobre a movimentação do capital, sobre a sua concentração em poucas mãos e sobre a falta de benefícios sociais a essa livre movimentação (leia-se, aqui, especulação). A segunda, a econômica, é a redução das atividades econômicas, ou seja, do trabalho, da geração de empregos, das vendas, etc.
Enquanto a primeira é sentida pelos financistas (investidores e especuladores) e mal compreendida pela população – a terminologia usada é de quem tem dinheiro –, a segunda é sentida pelo povo, pela maioria da população que depende do seu trabalho para sobreviver.
Ontem presenciei os dois aspectos dessa realidade. Em visita a uma fábrica escutei do proprietário sua reclamação sobre a crise, argumentando que ela acontece ‘logo agora que havia encomendado um carro importado’ e, minutos depois, dentro da produção e conversando com um funcionário, ele me perguntava sobre as exportações porque estava preocupado com o que via na televisão, pois ‘logo agora que pensava em construir mais um cômodo na sua casa para sua filha que vai ter um filho em breve’.
Duas realidades, uma mesma crise. Esses temas ainda darão vida a muitos artigos, textos, estudos e ensaios de futurologia. O que me chama a atenção nisso tudo é a oportunidade que nos traz de repensarmos os investimentos. Tanto os públicos quanto os privados.
Podemos aproveitar a crise para deixarmos de ser hipócritas. Todos os bancos centrais do mundo (inclusive o nosso) estão disponibilizando valores astronômicos para ‘salvar’ o sistema financeiro com a desculpa de proteger a ‘poupança’ dos trabalhadores e aposentados. Sabemos que não é assim. Sabemos que a pressão que os governos sofrem vem mais dos grandes investidores que dos pequenos. Mesmos os fundos internacionais de investimento navegam no mercado conforme o interesse dos seus aplicadores.
E, isso, mostra outra incongruência do sistema capitalista. Ele repudia a intervenção estatal na economia quando regulamenta as atividades econômicas, mas aplaude, quando o Estado estatiza os prejuízos privados.
Oportunidades existem em todas as crises e essa mostra-se propícia a um redirecionamento dos investimentos para as políticas sociais.
Conforme o pensamento keynesiano, os investimentos são cíclicos; em certos momentos feitos pelo setor privado e em outros pelo setor público. Portanto, me parece que iniciaremos o ciclo dos investimentos públicos e, assim, mais do que socorrer os bancos, os governos devem investir seja nos programas sociais, que têm valores significativos, seja em programas de desenvolvimento como, por exemplo, o PAC, pois esse é grande gerador de empregos.
Os investimentos realizados nos programas sociais e nos programas de desenvolvimento, ao gerarem renda e emprego, colocam no mercado interno dinheiro que garantirá a manutenção do crescimento econômico. Esse aporte de capital se faz necessário para contrabalancear a desaceleração do fluxo de capital privado de investimentos. Isso pode ser feito diretamente, através dos órgãos estatais de financiamento, como pode ser feito, também, através de repasses (que o governo federal já está fazendo) para instituições financeiras privadas, mas é muito importante que o governo exija que os recursos repassados sejam realmente utilizados nas atividades produtivas. Vivemos, mais uma vez, uma crise repleta de oportunidades.
Cassiano Pimentel
Agente de Exportação e professor universitário
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