O menino C., 8, mora com a mãe e o padrasto numa casa simples na zona Sul da cidade. É uma criança simpática e comunicativa. Gosta de jogar videogame, brincar de bola e com sua cachorra no pequeno quintal da residência. Ele fala sobre a violência que sofreu, que sentiu dor e, em alguns momentos, seus olhos enchem de lágrimas.
Sua mãe, a dona de casa LR, 25, soube que o filho tinha sido violentado pelo vizinho de 14 anos cinco dias depois do fato, pois seu filho só contou para a avó materna. Ela conhece o abusador, o viu crescer.
A primeira reação dela foi ir até a casa dele e, mesmo grávida de três meses, tentar fazer Justiça com as próprias mãos. “Fiquei transtornada. Não esperava que isso fosse acontecer com meu filho, ainda mais com uma pessoa que a gente conhece. Mãe é mãe e não me responsabilizei pelos meus atos. Não vi a hora que dei um pau nele e ainda foi pouco”.
LR espera que ele seja responsabilizado pelo que fez. “Tem de dar uma lição nele. Um dia vai acontecer de novo e a mãe vai querer esconder o filho, querer negar, como está fazendo agora”. Segundo ela, o adolescente de 14 anos foi transferido de escola e não está morando no bairro. “Preso ele não vai ser, mas precisa saber que o que fez não é humano”. Veja como a criança violentada se sentiu com o abuso.
Comércio da Franca - Em que série você estuda?
C. - Segunda.
Comércio - Do que vocês brincaram na quadra da escola no dia que aconteceu o crime?
C. - De bola, mas os meninos começaram a brincar chato, esculachar, chutar forte a bola, aí nós paramos. Aí chegaram os meninos com outra bola aqui, aí eu falei para ficarmos brincando de bola, de toquinho, zoando. Aí ele (o abusador) resolver brincar de pique-esconde.
Comércio - E o que aconteceu?
C. - Aí ele tirou minha roupa, num canto, do lado de fora da escola.
Comércio - E você não gritou?
C. - Ele tampou minha boca e não teve como eu gritar. Me segurou na barriga e os braços. Não consegui fazer nada.
Comércio - Ele arrancou sua roupa e fez o quê?
C. - Fez atrás em mim e fez eu chupar (começa a chorar).
Comércio - E você não tinha como pedir socorro?
C. - Não. Depois, eu falei para o irmão dele. Cheguei e contei para minha avó.
Comércio - Como você se sentiu?
C. - Senti muita dor. Ele fez muito forte.
Comércio - Por que você não contou para sua mãe?
C. - (fica em silêncio e começa a chorar) Fiquei com medo de ela bater em mim.
Comércio - Mas por que ela ia bater se você não tinha culpa?
C. - (fica em silêncio e chora).
Comércio - Para sua avó, você contou no mesmo dia?
C. - Falei na hora que eu cheguei. Ela foi na casa da mãe desse menino falar com ela.
Comércio - Qual a sua vontade quando você pensa nesse menino?
C. - Se eu fosse maior que ele, mais forte que ele, eu iria bater nele.
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