Matraca provoca briga


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Em plena era da comunicação, ainda existe serviço de propaganda da época imperial. E, pelo jeito, com excelente retorno, pois a cada dia surge mais gente espalhando panfletos pelas ruas, calçadões e esquinas. Durante o império, era comum um comerciante divulgar os seus produtos por meio de matraca (instrumento de madeira, formado por tabuinhas móveis, uma delas semelhante a um pequeno martelo, que, ao se chocarem, produzem um som agudo, estridente e que incomoda muito). Mascates, ou vendedores ambulantes, anunciavam-se por ruas ou caminhos através do agudíssimo barulho. Com o tempo, matraca ganhou novas conotações. Machado de Assis, no livro ‘O Alienista’, explica: ‘... Itaguaí, que como as demais povoações de mesmo porte, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos pregados na porta da matriz; ou por meio de matraca. Eis em que consistia este segundo uso: contratava-se um homem, por um ou mais dias, para andar as ruas, com uma matraca na mão. De quando em quando ele tocava a matraca, reunia-se gente e o matraqueiro anunciava o que lhe incumbiam, um remédio para febre, umas terras, um donativo eclesiástico, a melhor tesoura etc. O sistema tinha inconvenientes para a paz pública...’. Tinha não; tem ainda. Mesmo com jornal, rádio, televisão e internet, muita gente recorre à matraca como meio promocional. Vide os veículos de som espalhados pelas ruas no mais alto volume. Não faltam também moças postadas nas esquinas ou praças, com bandeirolas ou banners, para promover um produto, uma empresa comercial e até mesmo candidatos em época política; sem contar também panfletos e jornalecos de supermercados e assemelhados... Ah, mas agora inovaram a matraca de vez! Franca recebeu a visita de Carol Miranda, sobrinha da Gretchen, para dois espetáculos (quer shows, então vai!). Precisa apresentar melhor o “material” ou basta? Qualquer dúvida, reveja as edições dos dias 6 e 7 de novembro. Lá se encontra o anúncio, com a foto completa, em posição secundária (nas palavras da própria atriz, ela fez filme pornô, mas, na época era virgem do lado principal, só usava o lado secundário). Isso, se você não passou por algum cruzamento com semáforo e viu, ao vivo, uma nova versão de matraqueira entregando panfletos. Ou, o que é pior, parou, recebeu a propaganda e estava acompanhado da esposa, como aconteceu com um marido. Descia o casal pela Rua Evangelista de Lima. Má hora em que o sinal amarelou e na seqüência avermelhou. Carro parado, a moça de pernas da grossura de uma tora, trajando uma miniblusa e uma saia de uns 30 cm, sai do meio-fio e vem se aproximando sorridente com um panfleto. Na dúvida, o marido fecha o vidro, isso em plena tarde encalorada. Mesmo assim, o encarte foi colocado sob o limpador do pára-brisa. Quando a mulher viu as fotos da, digamos, bailarina Carol Miranda, já fez a pergunta/discussão ao companheiro: ‘Você vai nesse ... nessa sem-vergonhice de show?” Nem esperou a resposta. Na arrancada do carro a briga começou. E continuou subida afora, quase atrapalhando o tráfego normal de veículos. Antônio Araújo Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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