Aos 74 anos Francisco Cuoco esbanja simpatia e vitalidade. Com uma carreira de mais de meio século consagrada no teatro, no cinema e na televisão - ele está no ar na telinha global há 38 anos -, o ator esteve em Franca na noite da última sexta-feira para um evento na escola de idiomas Cultura Inglesa. Bem-humorado, Cuoco fez um discurso espontâneo aos convidados, brincou com a sua idade e elogiou a cidade que ele achou “limpinha, bonitinha e engraçadinha” e “orgulhosamente operária”. Filho de marceneiro, criado no Brás, em São Paulo, o ator, que atualmente interpreta o empresário Evandro, na novela das seis Negócio da China, foi muito atencioso com todos os presentes e fez questão de atender à equipe do Comércio.
Bom de papo, em apenas 20 minutos de conversa, Cuoco revelou os próximos capítulos do seu personagem, falou sobre o modo de fazer teledramaturgia atualmente, o segredo para se manter galã e os projetos para 2009. Confira.
Comércio da Franca - O que você pode adiantar sobre Evandro, o seu personagem em ‘Negócio da China’? Ele realmente vai acabar sozinho, não vai encontrar nenhum parente?
Francisco Cuoco - (Risos). A gente geralmente sabe muito pouco do que vai acontecer porque a cada semana chegam seis capítulos. Até onde eu sei, o Evandro finalmente descobre pelo código genético do sêmen que o Diego (Thiago Fragoso) é seu neto. O Evandro quer levá-lo pra São Paulo, mudar a vida dele, que é um excelente advogado, é jovem, mas ele diz assim: ‘Não sei, tenho que pensar. O senhor tem outras pessoas lá, eu não quero privilégios, eu gosto das coisas pela minha conquista, meu esforço.’ E eu digo: ‘Não, você tem que ir porque nós precisamos de jovens’. Mas ele é rechaçado pela mãe Júlia (Natália do Vale) que começa a pisar no freio. O que vai ajudar Evandro é que está havendo um interesse recíproco entre Diego e Antonella (Fernanda de Freitas), que é a filha do Mauro (Oscar Magrini), advogado e amigo do meu filho Adriano (Herson Capri). Ah! Esse interesse veio a calhar, nós não vamos ter que trabalhar muito para levá-lo pra São Paulo porque a mãe dele é casca dura, é dura na queda, mas através da Antonella nós vamos conseguir isso. E o Adriano vai se interessar pela Júlia. É mais ou menos o que a gente sabe até agora.
Eu recebi um recadinho do Maurinho (Mauro Mendonça Filho, diretor) e do Falabela (Miguel Falabella, autor da novela), que o Evandro - que até agora foi um homem ponderado e calmo -, vai virar um batalhador, um leão, porque o neto é o que ele mais queria, aí aparece um já criado, bonito, competente, inteligente... Eu tenho impressão que o papel vai dar um salto bonito porque até agora eu tava muito assim em casa, semi-aposentado.
Comércio - O que você acha dessa mudança na teledramaturgia: a interação com o público que altera o destino dos personagens...
Cuoco - Eu lamento um pouco isso. Entendo por um lado que a Globo é uma televisão comercial e tem que ficar de olho no Ibope. É uma empresa onde eu estou há 38 anos e não teve um dia que o pagamento atrasou. Agora, é claro, tem o fato de que entraram outras emissoras competindo que são a Record, a Bandeirantes, o próprio Silvio (Santos, SBT), que comprou o Pantanal e as pessoas gostam da novela, embora seja uma imagem mais antiga, outro ritmo. Então, a gente entende essa mecânica industrial da televisão, e se você tem, digamos, oito cenas num dia, você gostaria que as oito fossem muito bem feitas, mas não é possível. É interessante isso, você tem que lidar com uma coisa que envolve o artístico, mas você tem que entender que é comercial. Quando você não quer isso ou quer conciliar, você faz o seguinte: vai para o teatro, que é artesanal, uma coisa mais limitada. A gente tem que se situar conforme a música: se num determinado momento é limão, você faz a limonada. Os autores acabam sendo vítimas dessa temperatura do Ibope e o ator está sujeito a modificações no personagem. Não é grave porque na verdade, a Janete Clair, sem ter os grupos de discussão, já cuidava disso. Ela ouvia na rua e queria acertar: aumentava os personagens, via quem funcionava, quem caía no gosto popular. Mais ou menos as coisas continuam parecidas.
Comércio - Qual o segredo para se manter galã durante tantos anos?
Cuoco - Na verdade eu não sei responder a essa pergunta. É claro que o fato de você buscar pelo menos um equilíbrio psicológico e físico. Eu faço Pilates, comecei a fazer dança no Domingão do Faustão, gostei e continuei e também cuido da minha alimentação. Existe uma tendência da família para a pressão alta e a engordar, então passo fome muitas vezes, não como com sal... Acho que são alguns sacrifícios que trazem tantos benefícios que vale a pena quando você ouve: ‘Você está bem. Você é um galã veterano’. Na verdade o que a gente busca não é ser galã, é ser um galã-ator ou um ator-galã cada vez melhor porque todo trabalho é um desafio. Quanto entro numa livraria penso: ‘Precisaria tantas vidas para ler um pedaço disso’, porque tem muita coisa literária bonita.
Comércio - Quais são os projetos para 2009, depois da novela ou durante?
Cuoco - Eu estava fazendo um peça antes da novela que é muito interessante, Circuncisão em Nova York, do João Bittencourt. Ela durou dois meses por falta de patrocínio. Mas estou distribuindo vídeos da peça para vários produtores que conheço e ela voltará. Eu faço um judeu patriarca com sotaque (fala imitando). Fiz um trabalho detalhado com netos de judeus que têm sotaque e é uma comédia deliciosa, que fala sobre o amor de duas meninas, uma delas filha dele, que acabam decidindo pegar um doador de sêmen e ter um filho. Então o texto lida com as diferenças, com a nova família judia, muito bom. O projeto principal é esse. Tem outro projeto com a Fernanda Torres, que tem o Jorge Mautner, o Luiz Fernando Guimarães, que é um Trabalho em Progresso, chamado de Working Progress. Cada vez vamos arrumando a peça Deus é Química e fazendo sessões para amigos, em horários alternativos, para buscar novos caminhos.
Comércio - Você é um ator com carreira sólida e consagrada. Atualmente acompanhamos na mídia muita exploração da vida dos artistas. Como você conseguiu manter a sua vida pessoal longe dos flashes?
Cuoco - Foi abrindo mão de muitas saídas. Eu sei que quando estréia uma peça ou o lançamento de um filme é bom que você vá, mas tem toda essa outra coisa, se você vai com uma colega de trabalho já é... Então eu fui evitando muito, nunca abri a minha casa pra mostrar dois sofás. As pessoas imaginam que só existe o glamour, isso é uma mentira. É uma vida como as outras: dura, altos e baixos, expectativas, alegrias, tristezas, tem de tudo. Eu acho que soube medir isso e acho que foi bom porque preservei meus filhos, que não são da área artística, não quiseram, a minha ex-mulher, com quem me dou muito bem, foi uma coisa natural de intuição.
Comércio - Então você está solteiro?
Cuoco - Sim. (risos)
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