‘Só a família decide pela doação’


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RENOVANDO VIDAS - O médico e presidente da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos de Franca, Otto César Barbosa Júnior, em seu consultório: “Decisão da família é ob
RENOVANDO VIDAS - O médico e presidente da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos de Franca, Otto César Barbosa Júnior, em seu consultório: “Decisão da família é ob
<p>No dia 25 de outubro, ao diagnosticar a morte cerebral dos irmãos Letícia, 10, e Alexandre Massucato, 7, uma das preocupações da equipe médica que cuidava das crianças era proporcionar a sua manutenção hemodinâmica, procedimento que permite o funcionamento de todos os órgãos vitais.</p><p> Enquanto isso, uma equipe da Comissão Intra-Hospitalar de Doação de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT) trabalhava para obter o consentimento da mãe, Valéria Freitas, em permitir que os órgãos pudessem ser retirados para serem doados.<br />A autorização da mãe foi, naquele caso, a chave para sete transplantes, feitos em pessoas de diferentes idades. É esta comissão, instalada na Santa Casa de Franca, que trabalha em situações onde a rapidez e condições médicas ideais convergem para que em qualquer parte do Estado uma pessoa na fila de espera para um transplante possa ter suas chances de vida renovadas.</p><p><br />Criada em 1994, a comissão é atualmente presidida pelo urologista Otto César Barbosa Júnior, 45. É esta entidade que regulamenta todas as atividades de captação e transplante de órgãos em Franca e região, colocando a cidade em posição de destaque em São Paulo.</p><p><br />Para o médico, de nada adiantariam campanhas publicitárias para conscientização da população e aumento dos doadores sem que houvesse uma estrutura física capaz de gerenciar as complexas operações de retirada e remoção dos órgãos doados.</p><p><br />Neste trabalho, é o convencimento da família uma das etapas mais importantes e delicadas de todo o processo, tarefa normalmente desempenhada por psicólogos e assistentes sociais ligados à comissão. “De nada adianta a pessoa querer doar se não houver o consentimento da família. É ela quem dará a palavra final”. A seguir, os principais trechos da entrevista feita com Otto Barbosa em seu consultório.</p><p> </p><p><strong>Comércio da Franca - Para entendermos melhor esse universo, qual a quantidade de pessoas esperando na fila de transplante atualmente?<br />Otto César Barbosa Júnior -</strong> No Brasil são mais de 65 mil pessoas aguardando algum tipo de transplante. A demanda por rins vem em primeiro, com 25 mil pessoas. Em segundo, está a necessidade por córneas. Em Franca temos em torno de 50 pessoas esperando por um rim e umas 250 em tratamento de hemodiálise.<br /><br /><strong>Comércio - Especificamente com relação a Franca, como a cidade está preparada para esse trabalho?<br />Otto César - </strong>Tivemos mais que o dobro de captações neste ano em relação a 2007. Duas questões podem ser citadas para explicar esse fato. A primeira é que estamos muito bem estruturados na captação. Somos, aliás, destaque no Estado de São Paulo, devido à comissão, que está bem montada, com uma equipe permanentemente de plantão. Adotamos o sistema de busca ativa, que consiste em ir atrás do potencial doador, de sua família. Isso tem dado bons resultados.<br /><br /><strong>Comércio - Campanhas publicitárias, oficiais ou não, ajudam na conscientização da necessidade de se doar órgãos?<br />Otto César -</strong> Não adianta fazer campanhas publicitárias para envolver as pessoas e sensibilizá-las se não houver um sistema preparado para captar o órgão. Você pode até ser a favor da doação, mas se chegar a hora e não tiver um médico que identifique a morte cerebral, ou se tiver o profissional mas não a estrutura para realizar os exames necessários não adianta nada. Há um protocolo extremamente complexo a ser seguido. São necessárias equipes para fazer os diagnósticos, para orientar, conversar com a família, fazer a cirurgia. E essa equipe existe através da comissão, com assistente social, psicólogo, urologista, neurocirurgião. No momento em que você identifica um potencial doador, toda a estrutura do hospital é movimentada. É preciso tanto fazer a manutenção do doador quanto passar as informações para a central que vai selecionar o receptor.<br /><br /><strong>Comércio - Há outro momento possível para a retirada de um órgão que não seja na morte cerebral?<br />Otto César -</strong> Os únicos órgãos que podem ser retirados com a morte natural são as córneas, tecido, tendões e ossos. Em outras situações não é possível. O coração precisa estar batendo. O cérebro pode estar morto, mas o coração tem que fazer o sangue circular nos órgãos que serão doados.<br /><br /><strong>Comércio - Em acidentes onde a pessoa morre a caminho ou na chegada ao hospital...<br />Otto César -</strong> Não tem jeito. Se chegar com o coração parado, não dá pra fazer nada.<br /><br /><strong>Comércio - Como a captação funciona em cidades da região?<br />Otto César -</strong> Se tiver algum paciente na região, a central de Ribeirão Preto será notificada. Se não houver equipe nestas localidades, a mais próxima é deslocada. Eventualmente, o paciente pode ser transferido para a Santa Casa de Franca.<br /><br /><strong>Comércio - O órgão de um doador vai para o banco de receptores. Há algum direcionamento para que um receptor de Franca seja beneficiado por ser o doador da mesma cidade?<br />Otto César -</strong> Nenhum. A comissão não faz parte desse processo. Nem sabemos para quem vai. Faz-se a captação e os órgãos são enviados para Ribeirão Preto e de lá distribuídos. Há, além de Ribeirão, outras centrais no Estado, como em São Paulo e Campinas, que se comunicam entre si.<br /><br /><strong>Comércio - O tempo de espera na fila de transplante é condição de preferência para o receptor?<br />Otto César -</strong> Mais que tempo, a compatibilidade é que conta para o transplante. O tempo é apenas um item dos que definem quem receberá o órgão.<br /><br /><strong>Comércio - A compatibilidade é checada em que momento?<br />Otto César - </strong>No momento em que você identifica a morte cerebral, e com a autorização da família, o sangue é enviado à central. A partir daí, vão se cruzando as informações entre o doador e aos prováveis receptores para saber quem é o mais compatível.<br /><strong><br />Comércio - No caso da morte das duas crianças em Franca chamou a atenção o fato de os órgãos terem sido transplantados para adultos. Esse procedimento é normal?<br />Otto César -</strong> A preferência é dada para a criança, por causa do peso. Um rim muito pequeno, por exemplo, não pode ser transplantado em adulto, a não ser que seja uma pessoa de menor peso. No caso das crianças de Franca, elas não eram tão pequenas e os órgãos suprirão as necessidades de um adulto normalmente.<br /><br /><strong>Comércio - Ainda em relação às crianças, alguns de seus órgãos foram descartados enquanto outros, aproveitados. Por que isso aconteceu?<br />Otto César -</strong> Cada órgão tem sua especificidade. O mesmo doador pode ter um rim em perfeitas condições, mas não o fígado, por alguma alteração hepática. Uma das crianças teve parada cardíaca e, nesse caso, o coração não pôde ser doado. A outra criança fazia uso de medicamentos que não permitiram a doação do pulmão. Foram medicamentos para a sua manutenção hemodinâmica nos últimos três dias de vida.<br /><br /><strong>Comércio - Um menor infrator que foi espancado na cadeia e também teve morte cerebral, poucos dias depois, não pôde doar seus órgãos. Em que situações, se houver, os órgãos são descartados completamente para doação? <br />Otto César -</strong> Existem algumas restrições absolutas e algumas relativas. O HIV positivo é absoluto. Você descarta até mesmo as córneas. Algumas doenças infecto-contagiosas também. Mas hepatite, por exemplo, é uma contra-indicação relativa, porque o receptor pode ter a mesma patologia. Problemas inerentes à própria pessoa, ou algum problema agudo, como uso de drogas ou medicamentos, também impedem a doação.<br /><br /><strong>Comércio - Existe limite de idade para ser doador?<br />Otto César -</strong> Dependendo da condição do órgão no momento, se estiver em pleno funcionamento, não tem problema. O órgão de uma pessoa de mais idade pode ir normalmente para um jovem.<br /><br /><strong>Comércio - Constatada a morte cerebral, o trabalho de convencimento da família é difícil?<br />Otto César -</strong> Na média, a recusa é de 30% dos casos. Isso tem melhorado muito com campanhas de esclarecimento. O contato inicial é feito pela equipe, pela assistente social e psicólogo.<br /><br /><strong>Comércio - Como é feito o trabalho de convencimento?<br />Otto César -</strong> Não há nenhum tipo de coação. Respeita-se a condição momentânea da família. Com isso, a orientação para a equipe de transplante é ser o mais clara e objetiva possível. A família tem que tomar a decisão com a tranqüilidade necessária de que está fazendo o melhor possível para a sua consciência naquele momento.<br /><br /><strong>Comércio - Não há insistência?<br />Otto César -</strong> Não. Tentamos convencer com argumentos, mas sem sermos agressivos neste convencimento.<br /><br /><strong>Comércio - Para o adulto, como funciona aquele aspecto legal de colocar na carteira de identidade que ele é doador?<br />Otto César -</strong> Aquilo não tem validade legal nenhuma. A lei não existe, foi revogada. Algumas carteiras de identidade ainda carregam a informação, mas sem valor algum. A doação é feita apenas com o consentimento familiar. É a família que decidirá pela doação.<br /><br /><strong>Comércio - Não há nada que assegure a vontade pessoal de ser doador?<br />Otto César -</strong> Você pode ir ao cartório e registrar essa vontade, mas esse documento não valerá. É importante dizer que se a pessoa quiser ser um doador, que fale com sua família, porque no momento mais delicado serão os familiares que decidirão isso.<br /><br /><strong>Comércio - A prática leva a entender que não seria uma lei que aumentaria as doações?<br />Otto César -</strong> Essa lei já existia e foi um fracasso; causou polêmica e diminuiu o número de doadores. Era a Lei da Doação Presumida, determinando que todo paciente com morte cerebral poderia ter seus órgãos retirados para doação. Seus órgãos não pertenciam a você, mas ao Estado. Foi um erro, porque a decisão deve ser espontânea.<br /><br /><strong>Comércio - Quem resiste à doação faz isso por convicções religiosas?<br />Otto César -</strong> Não acredito. A maioria das religiões defende a doação e ajuda bastante. O que mais pesa é a convicção pessoal, a falta de conhecimento sobre o assunto.<br /><br /><strong>Comércio - Como a comissão lida com a aproximação entre doadores e receptores?<br />Otto César -</strong> Não há nenhuma possibilidade disso acontecer. Aliás, é contra a ética profissional. Se a família do doador demonstrar interesse em conhecer o receptor, entramos em contato com ele. A decisão será mais do receptor. Normalmente não incentivamos essa postura porque nem sempre é um encontro com histórico de sucesso. Podem ser criados vínculos com confusão de sentimentos. A família do doador pode achar que o filho ou o ente que morreu está vivendo naquela pessoa que recebeu o coração, o fígado. É muito delicado.<br /><strong><br />Comércio - Teve conhecimento de casos assim?<br />Otto César -</strong> Já tive, sim. Às vezes até com complicações financeiras. Em algum momento pode haver cobranças. Os encontros têm que ser consentidos pelos dois lados.<br /><strong><br />Comércio - Há algum momento em que a doação de órgãos sofre um aumento sensível?<br />Otto César -</strong> Em casos como das crianças em Franca ou aquele recente seqüestro em Santo André há maior sensibilização. Se novelas tratam do assunto, fica maior o interesse em doar. <br /></p>

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