Imagino que poucas pessoas já pararam para observar o pequeno habitante urbano e de costume módico denominado “pardal”; espécie de pássaro que pouco desperta curiosidade por ser muito comum.
Estão por toda parte. Telhados, antenas, fios de energia e árvores. O conhecido piado de pardal faz parte das lembranças de quase todos. O som é curto, não contínuo, bem familiar e traz certo bem-estar no lusco-fusco do dia, quando anuncia a hora do descanso. Depois, em bando, fazem a farra do amanhecer, anunciando a dissipação da escuridão e a majestade e o fulgor do novo dia.
A pequena ave é tímida, frágil e vulnerável mas parece não se importar nem um pouco em ser “pardal”. Seus vôos não alcançam grandes altitudes nem se exibe em manobras arriscadas. Ocupa seu dia indo e vindo no trabalho pelo sustento, e talvez esta atitude represente tudo o que é: pássaro ingênuo que vive intensamente sua vida neste mundo veloz.
A reflexão sobre o pássaro que divide conosco o espaço da urbanidade deu-se quando ouvi no rádio importante figura do meio financeiro nacional revelando querer ser um “pardal” quando surgissem as conseqüências avassaladoras da crise global.
Num primeiro momento tive a sensação de que o sujeito fosse um daqueles pessimistas adeptos dos conceitos de Schopenhauer, e perturbado, ao querer ser pássaro. E tudo por conta da “marolinha” que chegaria ao Brasil conforme “deduziu” o presidente Lula se referindo aos possíveis reflexos da crise.
Aquela coisa de alguém querer ser pardal não me saía da cabeça. Martelava doloridamente meus pensamentos exigindo introspecção, pois deveria haver alguma lógica em “querer ser pardal” e não homem.
Passei a observar mais cuidadosamente o pequeno pássaro em seus hábitos e costumes, descobrindo sua forma simples de levar a vida, com despreocupação mas também com habilidosa cautela.
Sem temer errar, asseguro que não consegui identificar grandes planos ou projetos na vida de um pardal. É um serzinho de comportamento existencial modesto, que vive um dia de cada vez, livre, livre de preocupações desgastantes e escravo do “agora”.
Após estudá-lo a fundo (viu como me meto em encrencas por conta de minhas dúvidas?) pude, enfim, entender o homem que queria ser pardal: por ser comum, raramente é notado ou lembrado; não é vaidoso, nem vive de cobiças; não especula e sim, trabalha para o sustento. Riscos praticamente inexistem no curso de sua vida; conserva-se ingênuo e não malicia; está sempre sóbrio e não comete exageros, permanecendo indiferente a tudo que foge dos limites de seu pequeno mundo. E por aí vai.
Ser “pardal” talvez seja um jeito de se acovardar e sair do jogo arriscado ao invés de assumir escolhas que exigem ousadia e maior agressividade, apesar dos riscos. Se preferirmos, podemos ficar com Mário Quintana que dizia: “eles passarão, eu passarinho”, numa sutil alusão que nem sempre ser “grande” é boa coisa.
Ricardo Veríssimo Júnior
Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e deste jornal
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