Complicadíssima é a mente humana. Por mais que se tente compreendê-la, o resultado sempre se apresenta quase nulo. Estudiosos de todos os tempos muito pesquisaram sobre o funcionamento do cérebro e, ainda hoje, pouco se tem a acrescentar sobre a previsão da maneira de uma pessoa agir.
Mesmo assim, há uma vertente da psicologia que atribui a formação de uma mente esquizofrênica à rejeição da própria mãe, por não aceitar de bom grado o fato de estar grávida, passando a maldizer a situação. Outra linha de pesquisa psicológica aponta fatores genéticos para a esquizofrenia. Há também o agravante do uso de drogas no desarranjo cerebral.
Muito do que tem acontecido ultimamente, em termos de tragédia familiar, põe à mostra a enorme fragilidade psicológica individual. Mais que isso, escancara todo um processo doentio do relacionamento interno de si para si e conseqüentemente para com todos aqueles circundantes.
Às vezes, a arte chega perto de desvendar o conflituoso comportamento humano. Syd Barrett, fundador e ex-líder do grupo musical Pink Floyd, produziu composições que mesclam situações autobiográficas. Nelas, fica claro o quanto de suscetibilidade existe em uma pessoa, não só a partir do momento em que nasce, mas desde o momento da fecundação.
O cineasta inglês Alan Parker aproveitou-se da narratividade das canções do Pink Floyd para produzir The Wall (O Muro), uma coletânea das principais músicas do grupo. Em seqüência cronológica, as letras mostram as influências da mãe, dos colegas, dos professores, da esposa e de outras pessoas mais na formação da engrenagem psicológica do personagem central.
Metaforicamente, a mente humana assemelha-se a um muro. O alicerce está em um homem e uma mulher, formando uma família. Depois, cada atitude do casal é um tijolo no mundo da criança. Ao mesmo tempo que protege, também serve de barreira para o desabrochar da personalidade. A cada novo contato social, novos tijolos vão aumentando a proteção ou o cerceamento psicológico.
Já no início do filme, fica clara a idéia de que o pai de Pink morreu na guerra, antes mesmo de ele nascer. Criado pela mãe, o menino sempre se recente da figura paterna. Isso aumenta mais ainda, quando ele expande seus contatos. Posteriormente, negligencia-se como marido, devido ao uso excessivo de drogas e acaba perdendo a esposa. Torna-se alienado.
No final, o muro (a própria pessoa, no aspecto físico e psicológico) desaba. Em meio aos escombros aparece um grupo de crianças brincando. Cada uma delas pega um tijolo e tenta encaixar noutro. Ou então coloca a peça na carroceria de um caminhão de brinquedo e sai puxando a carga.
Simbolicamente, na arte, a solução está no novo problema (tijolo). Tudo depende da finalidade que se dê a mais um tijolo do muro (da vida), da forma como ele vai ser assentado. A sobrevivente da tragédia familiar aqui de Franca começou bem seu novo muro. A doação dos órgãos dos filhos e a afirmação de que o marido fez tudo o que fez por gostar da família demonstram a grandeza dessa mulher. Muito pouca gente seria capaz de um raciocínio agregador de vida como esse.
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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