‘Tem médico que não toca no paciente’


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ATENDIMENTO DIFERENCIADO - O pediatra Luiz Faraco, 77, em seu consultório simples, localizado em Batatais; com mais de cinco décadas de medicina, tem em seu cadastro 163 mil atendimentos
ATENDIMENTO DIFERENCIADO - O pediatra Luiz Faraco, 77, em seu consultório simples, localizado em Batatais; com mais de cinco décadas de medicina, tem em seu cadastro 163 mil atendimentos
<p>Quem tem filhos pequenos atualmente - ou os teve nas últimas quatro ou cinco décadas - deve conhecer, ter parentes ou amigos que conhecem ou, no mínimo, ter ouvido falar do médico pediatra Luiz Faraco, de Batatais, cuja fama vai longe.</p><p> Aos 77 anos, 51 deles dedicados à medicina, Faraco atrai pais de toda a região e até de outros Estados, que vão até seu consultório atrás de soluções para as doenças dos filhos. É em um consultório simples que o médico atende estes pacientes todos os dias da semana, das 8 horas até enquanto houver gente esperando. Isso pode se arrastar até após as 22 horas.</p><p><br />Viúvo e pai de quatro filhos, Faraco não quer saber de se aposentar. Diz que o trabalho lhe proporciona felicidade e que é capaz de passar o dia todo no consultório. Só não abre mão de arrumar um tempinho para bater papo com os funcionários e amigos.</p><p><br />Totalmente avesso a computadores e planos de saúde, o médico utiliza uma técnica diferenciada dos colegas na hora da consulta. Para começar, o atendimento demora, no mínimo, uma hora. Ele traça um detalhado perfil da criança e também da mãe. Até mesmo as condições de gestação são analisadas.</p><p> “Se a mãe estiver com pressa, não atendo. Muitas vezes elas ficam agitadas porque os filhos estão chorando, mas choro de criança não me incomoda”.</p><p><br />Para deixar o ambiente mais tranqüilo, nada de música. Sinos dos ventos ficam tocando o tempo todo bem no meio da sala. Além disso, no consultório, ficam apenas uma pequena mesa, uma estante com várias fotografias, inclusive de ex-pacientes que hoje levam os filhos, e uma maca. Modesto, o médico afirma que não é “famoso”, mas fica feliz com o reconhecimento. Orgulha-se em dizer que ao completar 50 anos de profissão foi homenageado em Franca, onde começou a clinicar.</p><p><br />Tanto tempo de profissão lhe rendeu um cadastro enorme de pacientes. Durante todo este tempo, já passaram pelo menos uma vez em seu consultório 163 mil pessoas. Nomes e detalhes de cada um deles estão anotados em fichas de papel organizadas em caixas.</p><p><br />Apesar da experiência e agenda apertada, Luiz Faraco afirma que sempre reserva um tempinho para fazer cursos de capacitação e se manter atualizado. Afinal, segundo ele, não é a falta do computador que o deixa distante do mundo.</p><p> </p><p><strong>Comércio da Franca - Como o senhor ingressou na medicina?<br />Luiz Faraco -</strong> Isso vem desde a minha infância. Eu gostava muito de ler livros sobre o corpo humano. O assunto me despertava interesse. Não tinha ninguém na minha família que era médico. Então, depois de completar o ginasial em Batatais, me mudei para o Rio de Janeiro, onde ingressei na Faculdade Nacional de Medicina. Me formei em 1957 e ainda permaneci no Rio por mais dois anos fazendo residência. Depois me mudei para Franca, onde trabalhei durante quatro anos em um consultório. Como tive muita dificuldade de ingressar no corpo clínico dos hospitais da cidade e tinha a pressão da minha família, voltei para Batatais. Fui o primeiro pediatra da cidade. De Batatais nunca mais saí. Mas estou sempre em Franca onde, inclusive, tenho um filho. Estou intimamente ligado a Franca.<br /></p><p><strong>Comércio - Mas mesmo morando e trabalhando há tanto tempo em Batatais o senhor é muito conhecido em Franca e tem muitos pacientes na cidade.<br />Faraco - </strong>Isso é em decorrência do tempo de profissão que eu tenho. Com o tempo fui adquirindo experiência. Graças a Deus obtive sucesso e ganhei repercussão. São pessoas que vieram ao meu consultório e foram contando para as outras. A melhor propaganda é essa de boca-a-boca. A grande maioria dos meus novos pacientes veio por indicação de outros pacientes.<br /></p><p><strong>Comércio - A maioria dos seus pacientes é de Franca?<br />Faraco -</strong> Acredito que 70% da minha clientela é de Franca. Os demais são das cidades vizinhas a Franca e Batatais. Atendo pacientes de Claraval, Capetinga, São José da Bela Vista, Patrocínio Paulista, indo até Rifaina e Sacramento. Recentemente atendi um paciente de Goiânia (GO). É um industrial que é casado com uma mulher de Franca e que já tinha trazido o filho no meu consultório. A criança ficou doente e ele se desesperou. Alugou um táxi-aéreo para trazer o filho. Tenho outros pacientes daquela cidade que são de Franca e hoje moram lá. Sempre que estão em Franca trazem os filhos para eu examinar. Esse reconhecimento me traz uma gratificação muito grande e me deixa extremamente recompensado.<br /></p><p><strong>Comércio - De Batatais mesmo o senhor atende pouca gente?<br />Faraco - </strong>Não tanto quanto de Franca, claro. O motivo é a quantidade de convênios existentes em Batatais. São mais de dez e com isso grande parte da comunidade é conveniada. Eu não trabalho com convênios. Não é orgulho e nem ganância. Nada disso. Não gosto de convênios porque todos eles impõem um ritmo de atendimento a cada paciente. É um ritmo que eu não suporto. Não aceito. Os convênios querem uma consulta de no máximo 15 minutos. Isso contraria todos os padrões e meu ritmo. Vai contra o que aprendi no decorrer da minha vida. Desde que escolhi a medicina procuro exercer livremente minha profissão. Quando iniciei na medicina não existia esse negócio de convênio. O atendimento era público ou os pacientes tinham que pagar uma consulta particular. Na área pública era precária. Então muita gente vinha até meu consultório. Para se ter uma idéia, por 11 anos eu trabalhei sozinho como pediatra em Batatais. Isso me propiciou aumentar o número de pacientes. Hoje os filhos destes antigos clientes também são meus pacientes. <br /></p><p><strong>Comércio - Qual é o diferencial do senhor?<br />Faraco -</strong> Acredito que o tempo que gasto com cada consulta. Gasto, no mínimo, uma hora, não menos que isso. Isso possibilita fazer um interrogatório bem minucioso e um exame bem tranqüilo. Hoje a maioria das consultas é realizada entre 10 e 15 minutos. Isso acontece muito por imposição dos convênios. Muitas vezes o médico nem toca na criança. Minha consulta é dividida em fases. Na primeira etapa a criança é submetida a todo tipo de exame. Ela é pesada e medida, independente da doença ou idade que ela tenha. O exame é feito por minha auxiliar, que já está treinada. Enquanto isso eu converso com os pais. Pergunto tudo. Sobre como é a alimentação da criança; se ela tomou todas as vacinas; como foi a gravidez da mãe e as condições de nascimento. Traço um perfil completo da criança, incluindo histórico de doenças. Com os meus dados e da minha auxiliar em mãos, eu examino a criança. Essa etapa dura, em média, 20 minutos. Com o diagnóstico, entrego a receita para a mãe e explico o que tem que ser feito.<br /></p><p><strong>Comércio - Como sua consulta demora muito deve ser difícil conseguir vaga?<br />Faraco -</strong> Não é tão difícil agendar assim. Faço uma triagem dos casos. A minha própria secretária já analisa o caso ao conversar com a mãe. Se for urgente ela tenta encaixar mesmo se for preciso desmarcar alguma consulta. Dou prioridade aos casos urgentes. <br /></p><p><strong>Comércio - Qual o preço de sua consulta?<br />Faraco -</strong> A consulta custa R$ 100 há oito anos. Não gosto de aumentar o valor. E quando alguém não pode pagar, eu dou um jeito de atender. Mesmo assim, o procedimento é exatamente o mesmo.<br /></p><p><strong>Comércio - O senhor tem algum médico que o acompanha? Pretende deixar um sucessor que tenha o mesmo método de atendimento?<br />Faraco - </strong>Tenho um colega que trabalha comigo há 17 anos. O padrão dele foge um pouco do meu, já que ele atende por convênio. Mas é uma pessoa por quem tenho uma grande estima. Colega extremamente leal e competente.<br /></p><p><strong>Comércio - Estou vendo que o senhor não tem computador no consultório. Por quê?<br />Faraco -</strong> Não tenho e não gosto. Por opção. Eu acho que o computador desvia muito o contato entre paciente e médico. Fico horrorizado quando vou em banco e estou sentado na mesa e o atendente fala comigo sem me olhar. Pior ainda é quando falam que o sistema está fora do ar. O computador tira o contato íntimo que, na minha opinião, é obrigatório entre médico e paciente. Não tenho computador nem em casa e olha que ganhei um. Anoto tudo em fichas de papel que ficam organizadas em um arquivo dentro do consultório. <br /><br /><strong>Comércio - O senhor tem as fichas de todos os pacientes de 50 anos de profissão?<br />Faraco -</strong> Sim. Em 50 anos de profissão atendi 163 mil pessoas. Quando atinge 20 mil cadastros eu separo e guardo em caixas, que ficam em seqüência. A minha secretária registra o número e entrega para o paciente, que leva para casa. Aqui só o outro médico é que usa computador.<br /></p><p><strong>Comércio - O senhor não tem medo de ficar desatualizado? Faz cursos de aperfeiçoamento?<br />Faraco - </strong>Sim. Vou onde tiver. Já fiz até no exterior. Eu e meu colega, doutor João Carlos, nos revezamos. Uma vez ele vai e me passa as informações. Depois é minha vez e eu faço o mesmo.<br /></p><p><strong>Comércio - Costumam dizer que a profissão de médico é uma das mais estressantes. O senhor não me parece ser uma pessoa estressada.<br />Faraco -</strong> Não. Como trabalho só no consultório, não tenho correria. Eu doso o meu tempo. Eu atendo paciente. Bato papo. Tomo café. Faço tudo vagarosamente. Detesto correria. Não me afeta em nada. Se uma mãe chegar no consultório e disser que está com pouco tempo, não atendo. Tem que ter aquele ritual da consulta. Às vezes a criança está chorando e a mãe fica querendo ir embora. Eu faço o meu tempo. Não aceito correr na consulta.<br /></p><p><strong>Comércio - Com toda a fama que o senhor adquiriu e com seu método diferenciado de consulta, por que nunca pensou em ir para uma cidade maior?<br />Faraco -</strong> Para minha pretensão profissional, eu que estou bem. Não sou uma pessoa ambiciosa e gananciosa. Profissionalmente me sinto uma pessoa bem realizada. Tenho casa, consultório próprio, um belo carro. Só falta uma namorada (o médico, que é viúvo, riu muito neste momento).<br /></p><p><strong>Comércio - O senhor, apesar de se dizer sempre atualizado, pratica uma medicina considerada bastante tradicional, com um consultório simples, em uma cidade relativamente pequena, e aparentemente sem a utilização de muitos recursos modernos. Para o senhor, em medicina, o conhecimento vale mais que a tecnologia?<br />Faraco -</strong> Hoje fala-se muito em exames de alta resolução. Antes não tinha nada disso. Algum tempo atrás era exame de urina, fezes, sangue e radiografia. Hoje o médico ouve a queixa e manda tudo para o laboratório, que dá a resposta por meio de exames. Quando eu me formei, como disse, eram exames de fezes, sangue, urina e radiografia. Não era nem radiografia destas grandes, era pequena. Tinha um caminhão que andava pelas ruas fazendo radiografias de tamanho pequeno. Hoje tem médico que nem toca no paciente. Costumo brincar que eu lavo as mãos e enxugo no paciente. <br /></p>

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