Brincar de recordar


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Estimular a memória pode ser a melhor das diversões. Recebi esta semana um conjunto de anotações sobre como era a vida em meados dos anos 60 e 70 e, quando percebi, lá estava eu, viajando. Reproduzo aqui o resultado do exercício. Infelizmente, o texto-base que me estimulou não chegou com autor e por isso não registro o crédito. Mas o saúdo. Quem sabe meus leitores também gostem da brincadeira e estimulem suas melhores lembranças. Os carnavais tinham confete, serpentina, lança-perfume Rodouro, bisnagas para esguichar água ou “sangue do capeta”. Para escrever, caneta-tinteiro Sheaffer, Compactor, Pilot ou Parker que carregávamos no bolso (sempre manchado) da camisa. A tinta, também Parker, se vendia em vidros. Relógios de pulso ou de bolso eram “a corda”. Os Tissot, Áurea, Omega, Mido e Eternamatic, se não fossem “recarregados”, paravam. As mães renovavam anualmente a ordem para tomar purgante. E lá vinha óleo-de-rícino, sal-amargo, Neocitram, Limonada Purgativa ou Vermífugo Xavier. Depois, era a vez do Fosfosol (para a memória), Biotônico Fontoura (para “ficarmos fortes” e estimular o apetite) e Emulsão Scott (óleo de fígado de bacalhau, para ossos e resistência). Tossíamos com “peito cheio”? Vick Vaporub, canja de galinha e Phimatosan. Entorses? Emplastro Poroso Sabiá. E na lista ainda tinha Licor de Cacau Xavier, Cibalena, Pílulas de Vida do Doutor Ross, Cafiaspirina, Capivarol e Pílulas de Lussen. As mulheres usavam laquê Helene Curtis. Também, calcinhas com elásticos ou botões, de tecido (morim ou cambraia de algodão), anáguas, combinações, cintas e sutiãs, deixados de lado para usar os novos DeMillus. Era a época dos vestidos “tubinho” feitos em organdi; dos jeans Lewis ou Lee, blusa Ban-Lon e saia plissada. E do pó-de-arroz Cashmere Bouquet, rouge, creme Rugol, Antissardina, Minâncora, creme Ponds, perfume Heure Intime e desodorante Água de Rosas. E das perucas Kanecalon e dos “bobs”. Para os rapazes, brilhantina Glostora ou Gumex; sapatos Paso Doble ou Vulcabrás 752; Congas e Kichutes. Meias, Lupo ou Lobo. Após o creme de barbear Bozzano, assepsia com Acqua Velva. Se chovia, capa e galochas. Se não chovia, o pai e os homens mais velhos usavam ternos completos, em linho, com calça (com braguilha com botões) presa por suspensórios, colete e paletó, completados com camisas Volta ao Mundo e chapéu. Havia calças com nycron, “que não amarrotavam e nem perdiam o vinco”. Era o tempo dos 78 rotações serem substituídos pelos long plays, “prensados” pela Continental, RCA e Odeon. Dormíamos em camas com colchão Probel (o “Divino”, de molas, era o melhor). Os lençóis eram (Moinho) Santista. Tomávamos Toddy, Ovomaltine e Vic Maltema e combatíamos os insetos com Detefon e “chato” com Neocid. Por falar nisso, transar, só na zona, com possíveis “seqüelas que pingavam”, tratadas com Benzetacil. Nos olhos, Colírio Moura Brasil ou Lavolho. Refrigerantes, Crush, Clipper, Grapete, Maçã, guaranás Paulistinha ou Caçulinha. Má digestão e azia, Sal de Frutas Eno. Nossas bicicletas eram Monark ou Calói. Colávamos figurinhas com “grude” ou goma arábica. Trocávamos figurinhas que faltavam ou gibis à porta da Agência Brasil. Chupávamos Drops Dulcora e balas Chita, 7 Belo e Pipper. Nosso chocolate era Diamante Negro e fazíamos que fumávamos cigarrinhos de chocolate da Garoto. Íamos, aos domingos, às matinês dos cinemas porque à noite era sempre para “maiores de 14 anos” e o Dr. das Bicicletas, comissário de menores, não permitia a entrada mesmo acompanhado dos pais. Pedíamos a nossos amigos menos tímidos que combinassem com as meninas que escolhíamos, para sentarmos junto quando as luzes já estivessem apagadas. Nossas mães limpavam os móveis com Óleo de Peroba e lustravam o chão com cera Parquetina ou Cenap; o sabão em pó era Rinso ou Lux; as suas máquinas de costura eram Vigorelli, Singer, Elgin e Leonam (Manoel ao contrário); usavam um ovo de madeira para coser meias com linha Corrente; usavam areia de rio para “arear” as panelas e anil para clarear as roupas lavadas no tanque, no braço. Para passar, ferro com brasas. Nas casas de famílias mais abastadas, fogões Dako, geladeiras GE ou Frigidaire e telefones pretos à pilha; televisão Admiral Aquarela e toca-disco portátil Sonata. Para a locomoção, Lambretas e Vespas. Ou Vemaguetes, Interlagos, Simcas, Volkswagens e Karman-Ghias. Após o almoço de domingo na churrascaria Eduardo ou restaurante Santa Maria, o futebol da Francana no Nhô Chico, com bola de capotão (besuntada com sebo), goleiros com joelheiras e munhequeiras, jogadores com sungas Big e chuteiras Barioni. E o bom futebol de atletas que ganhavam pouco e se dedicavam muito. O estímulo foi bom. Deixei centenas de outras lembranças para trás porque meu espaço acabou. Por que você não tenta continuar? MNEMÔNICO O exercício que fizemos hoje, juntos, é excelente remédio para manter a memória acesa. Mantemos, arquivadas, lembranças sobre cada uma de nossas vivências. Não nos lembramos delas até que um gatilho permita a que aflorem. Habitualmente, os insights que resgatam memórias são involuntários, mas você pode treinar fórmulas para comandar ações do tipo. Se ligar um conceito menos elaborado a uma lembrança mais complexa, poderá usar um e se recordar do outro. Para guardar as cores do arco-íris em seqüência correta, um professor de física me ensinou a associar o nome do ex-jogador Vavá ao assunto. Disse-me: lembre-se sempre do VAAVAAV. E de que o vermelho é a cor forte mais forte”. Faz muito tempo mas nunca esqueci: Vermelho, Alaranjado, Amarelo, Verde, Azul, Anil, Violeta. Mnemônico. É este o nome desta técnica. Luiz Neto Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

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