Para Waldemar Zusman, psicanalista consagrado e autor do livro Os Filmes que Eu Vi com Freud (Imago), pela pujança do audiovisual na nossa cultura e por sua especificidade enquanto arte, o cinema é hoje um comunicador de mitos e seus fotogramas, sua forma de desdobrar-se talvez seja o mais perto que se chegue na reprodução de um sonho. Considerando também ser o sonho uma das vias para o inconsciente, o cinema pode, portanto, prestar-se como veículo para o autoconhecimento.
Enquanto comunicação de massas, “é o mais ágil e talvez aquele que tem uma linguagem mais próxima das representações pictóricas da vida mental, tanto no plano da vigília como no da vida onírica”, diz Zusman, um dos pioneiros no País da aproximação cinema-psicanálise, com eventos do gênero promovidos nos anos 80 na PUC-SP.
“Sempre houve, nos escritos psicanalíticos, disponibilidade para apreender através da poesia, da ficção, da mitologia, a alma humana. A psicanálise sempre cortejou as artes”, diz Maria Luiza Salomão, psicanalista francana. Franca já assistiu, em várias ocasiões, a eventos que buscavam tal afinidade, mas nunca com a chancela indireta da IPA (International Psychoanalitycal Association), associação criada em 1910 com o apoio do próprio Sigmund Freud e que se mantém viva até hoje com o propósito do desenvolvimento/expansão do conhecimento psicanalítico e a manutenção/aprimoramento dos padrões básicos para a formação de novos analistas.
“Cinema e Psicanálise” é um encontro promovido pelo Espaço Cultural da SBPRP (Sociedade Brasileira de Psicanálise de Ribeirão Preto), instituto de formação psicanalítica filiado à IPA em atividade desde 1999. A idéia é exibir a uma platéia com pessoas das mais variadas formações um filme selecionado com posterior palestra de um psicanalista e comentários sobre o seu conteúdo, na visão psicanalítica relacionada aos temas do mesmo.
Tendo em vista o sucesso desses encontros em Ribeirão Preto, as profissionais francanas de psicanálise Ana Márcia V. P. Rodrigues; Ana Regina Caldeira; Débora Mellem; Fátima Cassis; Josiane Barbosa; Rosângela Oliveira Faria e Sônia Maria de Godoy, ligadas à SBPRP, e Maria Luiza Salomão, associada à SBP (Sociedade Brasileira de Psicanálise) de São Paulo, decidiram unir forças e trazer para Franca a iniciativa, que já tem data marcada para ocorrer: a primeira exibição/discussão será hoje, às 16 horas, no Anfiteatro do Hospital São Joaquim-Unimed, com entrada gratuita.
O filme escolhido para a abertura dessas, digamos, “cineclínicas” ou “cineclube” foi O Carteiro e o Poeta (Il Postino, 1994), de Michael Radford, a ser comentado pela psiquiatra e psicanalista Ana Márcia V. P. Rodrigues. A abertura contará ainda com a presença de Lenise Lisboa Azoubel, analista didata, presidente da SBRP e idealizadora do “Cinema e Psicanálise” em Ribeirão Preto, e de Paulo M. Moraes Ribeiro, diretor científico da entidade.
“O objetivo lá em Ribeirão, tanto quanto aqui, é tornar acessível ao público o modo de pensar psicanalítico, através do estímulo que um filme nos traz, e também apresentar os analistas e candidatos desta Sociedade à comunidade. Os comentários são feitos por um analista desta que em algumas ocasiões pode ser acompanhado também por profissional de outra área, como cineastas, escritores, médicos etc. Nosso intuito é mostrar que pensar psicanaliticamente nos leva a uma maior aceitação das diferenças, pois amplia nossa tolerância a respeito das paixões humanas sempre tão exploradas nos filmes”, explica Sônia Maria de Godoy, uma das integrantes do grupo.
Para Maria Luiza Salomão, uma platéia heterogênea é enriquecedora. “Acho a heterogeneidade algo salutar e produtivo. Os olhares podem variar muito e espero que a variedade dos filmes e a variedade dos olhares de quem vai comentar os filmes - somos um grupo de oito pessoas com diferentes personalidades e formação psicanalítica - forneça a condição de que a platéia também se movimente e aconteça a troca de reflexões”, comenta ela.
Sendo a psicanálise um corpo teórico tão vasto e plural em suas vertentes, o próprio Waldemar Zusman adverte quanto à inadequação inscrita no título de seu livro, dizendo não ser mais possível dizer que “viu um filme com Freud, mas, com toda uma ‘turma’: Bion, Klein, Winnicott etc.”, ao mencionar os desdobramentos da psicanálise na leitura de teóricos que sucederam o legado freudiano.
Sônia Godoy concorda com o autor: “a psicanálise continua avançando na tentativa de conseguir uma maior intimidade com as emoções humanas em toda a sua complexidade. Desta maneira, estamos sempre acompanhando outras referências, como W. Bion, D. Winnicott, Joyce Mc Dougall, Francis Tustin, Donald Meltzer, Judith Mitrani e tantos outros que têm dado novos enfoques às subjetividades que temos encontrado atualmente”, enumera.
Na quarta-feira, dia 29, as organizadoras do “Cinema e Psicanálise” já contabilizavam lotação esgotada. Mas as mostras/discussões retornam em março de 2009 com o filme Frida, a ser apresentado por Ana Regina Caldeira.
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