Livros que nos transformam


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Um livro, ainda que objeto palpável - feixe de papel impresso entre duas capas -, em sua essência, pode ser uma das tantas metáforas da vida. A arte, aliás, é uma das formas de resistência à morte. É por meio do leitor que um livro se completa e permanece, uma vez que sua substância tenha tocado ou evocado nele sentidos profundos, tenha feito desabrochar, tenha confirmado ou antagonizado significados. O bom livro é mobilizador: mesmo que vagueie pela vicinal do entretenimento, em algum aspecto, a obra de caráter seminal tem o poder de transformar a visão de mundo de seu leitor ou de, no mesmo sentido, apaziguar aflições na relação especular que favorece. Quando propicia ao leitor a possibilidade do reconhecimento de si mesmo no outro - autor, personagem ou situação - conclama à idéia da irmandade que, noutro viés, o dramaturgo e poeta romano Terêncio expressou ao escrever: “Nada do que é humano me é estra-nho”. Sim, os livros exibem e traduzem a aventura humana. São grãos de pólen ao vento. Podem engendrar, ou não. São rios que levam aqueles sedentos de conhecimento, reconhecimento de si, do outro (os objetivos são variados!) a outras nascentes. Nessa corrente, vão se criando os leitores, que acabam por influenciar e moldar novos leitores, se devidamente movidos pelas obras lidas. O Comércio colheu comentários de leitores francanos acerca de livros que julgam importantes e que de algum modo promoveram modi-ficações em sua forma de ver e de se colocar no mundo. Leia, abaixo, os títulos selecionados por esses leitores muito especiais. *Participe você também, enviando seu depoimento sobre um livro muito especial para blogsgcn@gmail.com ou enviando um comentário ao final desta página. DEPOIMENTOS EDWARD DE SOUZA - JORNALISTA E RADIALISTA “O livro que marcou a minha vida foi O Guarani, de José de Alencar, uma das obras mais importantes da literatura brasileira. Muitos jovens que hoje tremem ao saber que terão de lê-lo, como dever escolar, talvez não se sentissem tão ameaçados se soubessem que houve época em que milhares dos seus semelhantes se reuniam nas repúblicas estudantis, por todo o Brasil, só para ouvir a leitura emocionada das aventuras narradas por José de Alencar, assim como hoje fazem fila para assistir aos filmes de Steven Spielberg ou aguardam ansiosamente o capítulo final de uma novela de televisão.” ADRIANA BARBOSA RAYMUNDO - FUNCIONÁRIA PÚBLICA “É difícil lembrar apenas de um livro marcante em minha vida. Comecei lendo escondido Harold Hobbins. Li A Mulher Só sentada no chão, ao lado da estante onde o escondia quando ouvia passos. Quem nunca leu Agatha Christie? O melhor livro dessa autora em minha opinião é: Cai o Pano, onde criativamente e maravilhosamente encerra-se a carreira do detetive Poirot. Concluí que o ser humano é capaz de fazer tudo para provar suas crenças. Tinha eu uns 12 ou 13 anos, quando lançaram o livro O Perfume, li e me apaixonei pela narração crua, metafórica do autor. Precisou virar filme (muito bom) para ser reeditado. Na adolescência, enquanto resolvia qual filosofia política seguir, Olga me arrancou lágrimas e Christiane F., me ensinou o que NÃO fazer durante a vida. O Caçador de Pipas e Cidade do Sol são livros que fazem o ser humano repensar seus conceitos. Travessuras de Menina Má, de Mário Vargas Llosa: o livro surpreende com a conclusão de que às nossas atitudes, refletem-se atos alheios por vezes inversos. Ou seja, a menina má, que zomba, desdenha, decepciona, parte sem dar explicações, é respei-tada, amada e valorizada. Tem o porto seguro a sua espera”. REGINA CELI BERTELLI DE FIGUEIREDO - MÉDICA “Já foi dito que ‘não somos nós que achamos os livros; são eles que nos acham’. Há livros para mim seminais, porque me mostraram novas concepções intelectuais: como o primeiro Nietszche, o primeiro Dostoievski, o primeiro Shakeaspeare, o primeiro Freud. Outros, porque me perdi em seus mistérios. Se eu tivesse de escolher simbolicamente os meus preferidos talvez ficasse entre dois: Grande Sertão: Veredas de Guimarães Rosa, que me fez ficar perplexa e emocionada desde a primeira página; pela beleza da prosa poética e pela infinita complexidade dos sentimentos humanos abordados em linguagem tão inusitada. Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, porque ali me deparei com Sancho Pança, personagem com o qual eu me identifico muito: seu pragmatismo e senso de realidade, contrastando com o mundo fantástico de seu amo e permitindo a ambos a completude necessária a uma existência plena. Não seria eu um Sancho Pança a usar a literatura para viver aventuras como um Dom Quixote, mas sem riscos?” EVERTON DE PAULA - EDUCADOR, CONFERENCISTA, E ESCRITOR “Vejo, e somente após entrar no grupo dos cinqüentões, que quixotismo e resiliência podem se prestar a sinônimos perfeitos. Ambas as palavras denotam a condição de o ser humano manter-se permanentemente íntegro apesar de toda a adversidade que enfrenta ao longo de sua vida. Aí entra outra questão: você é o que é pela genética ou pela cultura, no âmbito comportamental? Bravo, não? Ao menos no meu caso, credito às leituras que fiz e ainda faço o manancial de crenças que defendo. De longe, Dom Quixote de La Mancha, escrito por Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), continua sendo o livro que mais profundamente marcou e contribuiu para a formação de minha personalidade: sátira, romantismo, idealismo, defesa do injustiçado, doçura, luta contra mentiras ortodoxas, um tiquinho de inofensiva loucura, busca por façanhas e, acima de tudo, resiliência num mundo globalizado, cercado de catracas por todos os lados.” MARIA LUIZA SALOMÃO - PSICANALISTA “Este livro me faz provar uma transformação pessoal, para a qual nunca procurei explicação. Os caminhos que percorro pelas letras, pelos capítulos deste livro não me dão um ‘amar é...’, uma ‘alegria é...’ O livro tem dois títulos - Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres e traz epígrafes que falam da alegria como ‘expressão de dor’, a alegria como sendo mais forte que o amor. Começa com uma vírgula e termina com dois pontos. Clarice Lispector mostra um trajeto da descoberta de uma alegria. Uma mulher - Lóri - precisa descobrir a si mesma. Um homem, Ulisses, é alguém que anseia que a mulher viva esta aprendizagem. Ulisses, o amor de Lóri, é capaz de esperá-la atingir esta aprendizagem. Mas qual é exatamente a aprendizagem de Lóri? Aí é que está a pepita da mina. É preciso senti-la, ao ler o livro. É preciso ser Lóri à busca de, mas também ser Ulisses, aquele que sabe esperar. A frase central, para mim, está na página 31, ‘a mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser humano.’ Não, não sei dizer em outras palavras o que li neste livro. Quando terminei, da primeira vez, nada entendi. Precisei garimpar, esperar como Ulisses, e arriscar como Lóri. Há uma mágica que sempre me escapou ao ler este livro (e já o li e reli mais de 20 vezes), e confesso que em momento algum eu quis saber qual era o truque, e se havia algum truque nele. Acredito em Clarice Lispector: ela era humildemente livre, livre até da literatura quando aprisionada em seus conformes.” SÔNIA GODOY - PSICANALISTA “Veio-me à lembrança Clarice Lispector, e Paixão Segundo GH. (...) Desistir de uma falsa pele e tentar encontrar-se com aquela que realmente se é, e continuar a manter viva, no último de nós mesmas, a esperança, apesar e por causa de se ter encontrado com a mais ínfima parte de nós! Clarice Lispector escreveu um conto chamado ‘Amor’ pu-blicado em Laços de Família. Este conto acordou-me para um outro estado de vida. Ana, a protagonista, segundo suas palavras, ‘sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas’. Acreditava-se segura de ‘não sentir ternura pelo seu espanto’. Inesperadamente, um cego a desorienta, a tira do banal, a faz encontrar-se em pleno Jardim Botânico, a enxergar o que tanto fizera para não ver: a plenitude da natureza com suas cores, cheiros sabores e sons. Ela descobre: ‘a morte não era o que pensávamos’. E ‘o que chamava de crise viera afinal. E a sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas’. Assim, como Ana, comecei a me sentir experimentando o perigo de viver, com a plenitude que me é possível, a cada instante. (...) Eu, que como Ana, tinha apaziguado tão bem a vida, tinha cuidado tanto para que esta não explodisse... Não posso me afastar do perigo de viver.” SÔNIA MACHIAVELLI - EDITORA E ESCRITORA “O livro Ensaios Reunidos, de Samuel Rawet, clareou um pouquinho o poço da minha ignorância. Influenciou a maneira de eu pensar o ser humano e olhar o mundo. Aliás, é o que todo bom livro faz, cada um a seu tempo e no tempo do leitor. Samuel Rawet (1929-1984) me fez refletir sobre a impossibilidade de nos enxergarmos de forma completa, como normalmente almejamos. A consciência de fragmentação, em contraste com a voracidade natural para entender o todo, desafia e dói, desestabiliza, é angustiante. Mas pode ensejar lição de humildade e modéstia. O tom cáustico de Rawet, os acentos dolorosos, os relatos crus e as raríssimas pitadas deste bálsamo chamado bondade afastam muitos leitores. É livro difícil (emocionalmente) mas transmite como poucos a sensação de transitoriedade. Todos ouvimos com freqüência a frase feita que busca na viagem uma metáfora para a vida. Mas bem poucos dos que li, até hoje, me possibilitaram, como Rawet, a percepção desta peregrinidade que nos caracteriza como viventes no planeta. Engenheiro, Samuel Rawet foi o responsável, junto com Joaquim Cardoso (outro engenheiro-escritor da equipe de Niemeyer), pelos cálculos da concretagem do edifício do Congresso Nacional, em Brasília. Seus parágrafos, algumas vezes, parecem talhados a régua, marcados por compasso, duros como bloco de cimento. No estilo, não encontra paralelo. Epifania em Clarice, espasmo em Rawet, o ato de criar tem nos dois ‘estrangeiros’ um ponto comum: traduzir em palavras alguns dos mistérios da vida, da mente, do coração do homem.”

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