No dia 1º de setembro morreu em Toronto, Canadá, com 93 anos de idade, o industrial Tomas Bata Jr., finalizando uma era dos grandes capitães da indústria internacional. Em plena atividade, a despeito da idade avançada, a morte o surpreendeu durante preparativos da viagem para a Índia, onde se localiza hoje a maior fábrica do grupo Bata.
A morte do Tóma, como foi tratado pelos auxiliares mais chegados, nos leva a uma série de reflexões sobre longevidade, nem tanto dos personagens, mas sim das empresas que comandam. Tomas Bata pertencia à terceira geração da firma fundada pelo avô, em 1887.
Firma próspera, paradigma do setor, atravessou incólume duas guerras mundiais, sobreviveu à nacionalização (eufemismo do roubo) da matriz na Tchecoslováquia pelo governo comunista. Na época, eram produzidas na unidade 220 mil pares por dia. A empresa teve sua sede transferida para o Canadá e prospera até hoje. A quarta geração e, devagarzinho a quinta, já participam da gestão do conglomerado.
Qual é o segredo desta longevidade bem-sucedida? Bem, não se trata de nenhum segredo, porque o sistema Bata de gestão está sendo hoje ensinado na Universidade Tomas Bata em Zlín, na República Tcheca, ponto de encontro de estudiosos de gestão do mundo inteiro. Alguém disse há muito tempo que gestão é sinônimo de bom senso aplicado.
Simplificando bastante, poderíamos deduzir que o sucesso do sistema e do grupo Bata pode ser explicado com base na estrita obediência aos seguintes princípios: planejamento, cobrança de resultados planejados, controles, constante renovação e profissionalização da direção.
Quantos destes princípios estão sendo aplicados na vida cotidiana de nossas empresas, mormente nas empresas calçadistas? Muito poucos ou nenhum? Vejamos: quem planeja? Como planeja? A intenção não é um planejamento hipotético! Planejamento são números baseados em outros números fornecidos pela pesquisa, projeções e pelo retrospecto de atuação. E se não há planejamento, como pode haver cobrança de resultados?
Controle é outro ponto fraco. Para controlar, temos que ter uma base firme dos gastos, de uso de material, tempo, energia e assim por diante. Nossas indústrias de calçados são medalhistas de ouro em matéria de desperdício. Competitividade começa em ser mais econômico e produtivo que o competidor.
Renovação constante. Porque insistimos em produzir calçados usando métodos e mentalidade de 50 anos atrás? Porque insistimos em comercializar com os mesmos métodos de 50 ou mais anos atrás? Porque preparamos duas coleções por ano desde os tempos em que Alcântara Machado fez sua primeira feira? Bata renova sempre, sejam métodos ou tecnologias e quando uma fábrica fica obsoleta a ponto de não justificar a renovação, a fábrica é simplesmente desativada.
Profissionalização da direção é mais um ponto fraco na gestão das empresas. Assistimos em Franca nos últimos anos a uma mortandade preocupante de empresas, outrora símbolos de solidez e de prosperidade. O que aconteceu? Não venceram a transposição de geração e falharam na preparação de futuros dirigentes, confundindo certidão de nascimento com diploma de ensino superior com pós-graduação ou doutorando em Economia e Administração ou estágios em indústrias que poderiam servir de modelo de gestão.
Em todos estes pontos Bata serve de exemplo a ser seguido. A família continua no comando do grupo, definindo estratégias e políticas de negócio com base nas propostas e sugestões preparadas por profissionais de altíssimo gabarito. Mas uma vez definidas as metas, a execução destas cabe aos subordinados e a cobrança dos resultados se torna rotineira e simples.
Nesta simplicidade está a visibilidade do negócio, a transparência das ações e de resultados daí decorrentes. O principal ponto está no fato de que os que definem a política e a estratégia dos negócios não ficam engolfados pelos assuntos rotineiros, que podem ser administrados por colaboradores menos qualificados.
Quem leu a coluna até este ponto, pode não ter percebido, mas nos parágrafos acima está contido todo o segredo de uma gestão eficaz, praticada e provada pelas três gerações de sapateiros Bata: Antonin (avô), Tomas e Jan A. (pai e tio) e Tomas Bata Filho. Um modelo a seguir.
MEMÓRIA
Bata Shoe Museum (http://www.batashoemuseum.ca) acrescentou quatro novos sites aos sete já existentes, cobrindo vasta área da história do calçado. Emanuelle Lepri, diretor do museu, diz que “não importa onde no mundo o visitante se encontre, porque através da internet pode visitar o museu e ver detalhadamente o que poderia ver visitando pessoalmente”.
SUCESSO!
Brasileiros fizeram bonito na Modacalzado e Iberpiel (Artille, Azaléia, Di Cristally, Fasolo, Freeway, Hetane, Klin, Miezko, Pé com Pé e Werner). No total esperam concluir vendas de USD$ 2,850.000 nos próximos 12 meses. Foram feitos 503 contatos com 21 países.
ESPANHA EM QUINTO
Espanha ocupa o quinto lugar entre os países de destino das exportações brasileiras de calçados. De janeiro a junho deste ano a Espanha importou 2,9 milhões de pares no valor de USD$ 33,4 milhões.
Zdenek Pracuch
Sapateiro, shoemaker – pracuch@comerciodafranca.com.br
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