‘Transição deve ser cautelosa’


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A professora da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo) e doutora na área, Maria Letícia Nascimento, falou ao Comércio sobre o ingresso das crianças no ensino fundamental aos seis anos. Para ela, a iniciativa é válida, mas só funcionará se houver uma transição cautelosa e bem conduzida. Comércio da Franca - O novo currículo escolar foi elaborado considerando a idade do aluno e as fases do desenvolvimento infantil. Vai funcionar? Maria Letícia Nascimento - Não é porque a criança completa seis anos que ela tem determinadas competências que não tinha no ano anterior. Tudo isso é processual. Não se trata da idade ideal, mas de como se dará a passagem de um sistema para outro, de um espaço para outro. O ensino fundamental é mais regrado, prevê um caminho de instrução, coisa que não acontece na educação infantil. Na verdade, a perspectiva da educação infantil é de uma educação mais ampla, mais formativa. É preciso anali-sar o que representa no processo de desenvolvimento da criança sair de um ambiente educativo que oferece a ela atividades mais lúdicas para um ambiente em que elas vão ter necessariamente que se adaptar a uma estruturação instrucional. Muito mais (importante) que a questão das idades é a questão de ambiente. Comércio - A alfabetização aos seis anos pode ser prejudicial? Maria Letícia - Não é que a criança não possa se alfabetizar aos seis anos. Ela se alfabetiza até aos quatro se quiser. A intenção da alfabetização aos seis anos pode até corresponder às necessidades do mundo moderno, mas não pode ser uma obrigação. Porque, na verdade, essa criança ainda tem muito mais o direito de brincar, de se relacionar com os outros, de ter uma outra proposta de trabalho que não aquela do sentar na cadeira, como se dissesse: agora é hora da alfabetização. Comércio - Quais podem ser as conseqüências de uma transição mal conduzida? Maria Letícia - As crianças são muito mais espertas do que nós imaginamos. Se forem inseridas nesse sistema sem preparação elas vão dar conta disso. A grande questão é: isso é bom? A quem isso serve? É o melhor para a criança? Comércio - Como adequar o conteúdo para o primeiro ano do ensino fundamental? Maria Letícia - Será uma etapa de transição. Talvez dê até para sistematizar um pouco mais essa questão da alfabetização, mas dentro da perspectiva de que a criança não terá obrigatoriamente que se alfabetizar num tempo curto. Eu acho que a alfabetização pode até aparecer, mas o importante é como isso vai ser sistematizado: se sob a forma da escolarização, aquela rígida, regrada, ou se a criança terá flexibilidade para construir seu próprio aprendizado.

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