<p>Em sete anos de criação e pouco mais de um ano de trabalho, a Ecofran, instituição que cresceu sob os domínios da Unifran (Universidade de Franca), voltada à qualificação profissional e aplicação e desenvolvimento de políticas públicas para jovens, começa a colher seus frutos.</p><p><br />A consagração do trabalho veio na forma do reconhecimento, pelo Ministério do Trabalho, da Ecofran como a melhor entidade no Estado de São Paulo em seu segmento e uma das duas melhores do País. Por trás de um projeto que expande suas fronteiras de atuação para muito além das linhas divisórias de Franca há, obviamente, uma grande equipe, mas há também um articulador quase intransigente em suas idéias e metas. No caso, o professor Antônio Mauro Alves, 47.</p><p><br />O diretor da Ecofran é coordenador do setor de relacionamento e vendas da Unifran, bacharel em História e especializado em marketing. Hoje bate no peito e se diz feliz com o projeto, numa referência aos que, segundo ele, tentaram de todas as formas demovê-lo da criação da instituição que dirige. “Hoje o que eu tenho é uma autorização lavrada pelos Ministérios da Educação e do Trabalho autorizando a Ecofran a atuar como instituição apta a desenvolver projetos de qualificação profissional nestas regiões”.</p><p><br />Durante o tempo desta reportagem, em um sábado de chuva e frio, Antônio Mauro atendia à reportagem com 2.080 jovens de Franca e cidades da região distribuídos pelas salas de aula da Unifran. “Essas crianças estão aqui aprendendo o que é cidadania, vendo que podem ser cidadãos de verdade e que o futuro, com conhecimento e educação, pode ser melhor. Basta dar a chance”. E vai às lágrimas ao falar de seus pupilos. Confira a seguir os principais pontos da entrevista.</p><p> </p><p><strong>Comércio da Franca - O que é exatamente a Ecofran?<br />Antônio Mauro Alves - </strong>A Ecofran trabalha com projetos ligados ao meio ambiente, projetos que permitam capacitar o jovem para o emprego e capacitar outros trabalhadores em áreas estruturalmente carentes. São recursos públicos, sem a participação da iniciativa privada.<br /><br /><strong>Comércio - Compondo a Ecofran encontramos o Consórcio Social da Juventude, seu principal cartão de apresentação. Como começou a história do consórcio?<br />Antônio Mauro -</strong> Saiu de uma conversa minha com o ministro Carlos Lupi (Trabalho) em um restaurante de Franca. A cidade de Ibiraci, que havia sido agraciada com um projeto para jovens com 400 vagas, não tinha candidatos para todas elas. Aí, então, reuni prefeitos da região e comecei a gerir as vagas. O ministro Lupi autorizou um consórcio com mais municípios e mais jovens, dizendo que eu tinha o direito de ousar. Com isso fui a Brasília com um projeto para 33 cidades (sete de Minas), para 2.080 jovens. O ministro disse que eu tinha pegado pesado (fica emocionado).<br /><br /><strong>Comércio - Foi difícil tudo isso sair do papel?<br />Antônio Mauro -</strong> Fiz todo o projeto em novembro do ano passado. Quando foi dia 23 de dezembro eu consegui que fosse aprovado. Tinha urgência porque se passasse de um ano para outro teria que fazer tudo de novo. No dia 27 depositaram a primeira parcela. Aí tudo começou.<br /><br /><strong>Comércio - Como serão empregados os R$ 3,2 milhões que custaram o Consórcio Social da Juventude?<br />Antônio Mauro -</strong> Será dinheiro para transporte, professores (mais de 300), alimentação dos alunos, material didático, contratação de profissionais de diversas áreas, material de higiene e papelaria. Para dar conta disso eu conto com uma equipe muito eficiente. Hoje eu tenho estrutura de marketing, de tecnologia, assistentes sociais, psicólogas. Não fosse assim, eu não conseguiria nada. <br /><br /><strong>Comércio - O que difere a Ecofran de uma ONG (organização não-governamental)? <br />Antônio Mauro -</strong> Tecnicamente nada. A única diferença é que somos uma associação que presta contas ao Conselho Municipal de Assistência Social. Ainda este ano deveremos obter a autorização do Conselho Federal também.<br /><br /><strong>Comércio - Qual o primeiro impacto que o Consórcio Social da Juventude traz para esses jovens e qual o perfil dessas pessoas?<br />Antônio Mauro -</strong> Olha, hoje eu tenho aqui 2.080 adolescentes que acabaram de almoçar (eram perto de 13 horas). Sabe o que é isso? À tarde terá mais um lanche. Boa parte deles não come o lanche pois o pega, coloca na mochila e leva pra casa, onde terão um irmão com fome. Todo sábado aparece um ou outro que não almoçou no sábado, como não jantou na sexta. A primeira refeição acaba sendo aqui. São jovens com renda per capita de meio salário mínimo em suas famílias. Há todo tipo de jovens, com idades entre 16 a 24 anos. Mas a grande maioria é de 17, 18 anos, com predomínio das meninas em 60%.<br /><br /><strong>Comércio - Eles vêm para cá, recebem educação funcional, voltada para o mercado de trabalho. Como isso é operacionalizado? <br />Antônio Mauro -</strong> Todos eles recebem uma bolsa de R$ 100. Esses meninos e meninas, em sua maioria, nunca haviam estado em um laboratório de informática, sequer tocado em um teclado de computador. Hoje todos eles entram na internet e digitam um texto, que pode ter muitos erros, mas diante da realidade que eles tinham é um avanço extraordinário. Daqui a seis meses, como estarão? Talvez empregados, porque terão como apresentar um currículo. Vão ter coragem de bater em uma empresa e pedir emprego. São menos jovens nas ruas, envolvidos com a marginalidade. Há outros reflexos, porque se trabalha sexualidade ou temas transversais como ética, cidadania, valor do corpo e respeito ao corpo. Tudo isso é falado e discutido.<br /><br /><strong>Comércio - Por que o primeiro emprego se tornou uma questão de governo? <br />Antônio Mauro -</strong> Eu vejo que no mundo todo o maior percentual de desempregados é nesta faixa etária, dos 16 aos 24 anos. Há quem tenha a coragem de pregar que a pessoa deve estudar até os 28 anos. Oras! Essa não é uma realidade aceitável em um País como o nosso, de um menino que nasce em uma família com renda de meio salário mínimo. Estamos em um País de terceiro mundo, que sofre com a falta de estrutura necessária para manter esse jovem até os 18 anos na escola, o que já seria muito.<br /></p><p><strong>Comércio - O que mais pôde ser constatado com essa experiência?<br />Antônio Mauro -</strong> É na faixa dos 16 aos 24 anos que a Fundação Casa não recebe mais esses jovens, quando a marginalidade mais ataca. Um adolescente que não tem pronto o seu futuro fica vulnerável. O fato de tirar esses jovens todas as tardes e um sábado inteiro da rua, oferecendo alimentação, laboratórios, trabalho com psicólogos e recuperação do analfabetismo é muito animador. Você olha para essas pessoas e vê como é diferente e importante estar aqui com mais tantos milhares de jovens iguais a eles, que nunca esperavam estar dentro de uma universidade.<br /><br /><strong>Comércio - No mundo, ou em países mais próximos, essa situação é diferente?<br />Antônio Mauro - </strong>O maior percentual de desempregados no mundo está na faixa dos 16 aos 24 anos. Nos países mais pobres é um problema cultural, de comportamento. É um despreparo enorme e sistêmico. Para estar no trabalho é preciso ter equilíbrio na forma de se relacionar com as pessoas. Como isso é possível para aquelas pessoas que vivem em ambientes desestruturados? O jovem nessas condições aparece com a auto-estima arrebentada. Ele fala com você olhando para o chão.<br /><br /><strong>Comércio - Como é a atuação da Ecofran em questões ambientais?<br />Antônio Mauro -</strong> Eu tenho outro projeto que é o levantamento de informações dos 23 municípios do Comitê de Bacias do Sapucaí-Grande, que é uma avaliação do desgaste dos nossos recursos hídricos, da maneira como a população rural e urbana está utilizando esses recursos. Com base nisso, estamos apresentando um relatório à comissão técnica do comitê de quais são os produtos que estamos produzindo, quanto empregamos de água na irrigação. Para 2010 há a possibilidade de apresentar à comunidade o documento daquilo que estamos fazendo com a água de que dispomos, como nossos filhos estarão daqui a algumas décadas. São reflexões que a comunidade terá como interagir.<br /><strong><br />Comércio - A Ecofran acaba de receber um prêmio pelo reconhecimento de seu trabalho...<br />Antônio Mauro - </strong>Dois consórcios de todo o Brasil, um do Rio de Janeiro e a Ecofran, pelo Estado de São Paulo, foram escolhidos como os melhores em nível nacional. Isso é fantástico para todos nós. Em novembro, vamos a Brasília com um de nossos jovens para receber das mãos do ministro Lupi o prêmio Getúlio Vargas, que muito nos orgulha.<br /><br /><strong>Comércio - A Ecofran está expandindo sua atuação para outras cidades e Estados. Quais são seus próximos objetivos?<br />Antônio Mauro - </strong>Ainda para 2009, abriremos um escritório no Acre, na cidade de Assis Brasil. A Unifran terá uma base para pesquisa de mestres e doutores naquele Estado em conjunto com a USP e nós estaremos presentes. A Ecofran também é uma realidade em Tocantins, com nosso escritório em Palmas. Da mesma forma que em Peruíbe, no litoral, onde será construído o maior porto do Brasil, com 35 mil trabalhadores. Uma obra dessa proporção precisa de gente capacitada para trabalhar, o que não existe por lá, uma região especialmente pobre do Estado de São Paulo. A Ecofran abrirá um escritório para cobrir a formação de mão-de-obra. Nessa tarefa não estou sozinho; tenho parceiros lá. A miséria naquela região é doída, muito intensa. Por que não ajudá-los?<br /><br /><strong>Comércio - Há mais de um mês o senhor vem articulando a vinda do ministro do Trabalho, Carlos Lupi, a Franca. Quando ele virá e o que virá fazer aqui, exatamente?<br />Antônio Mauro -</strong> Acabo de confirmar sua vinda para o próximo sábado, dia 1º de novembro, para apresentar as primeiras carteiras de trabalho assinadas pelo Consórcio Social da Juventude. A presença dele ratificará a importância do primeiro emprego junto aos empresários, à comunidade.<br /><br /><strong>Comércio - Voltando à questão do emprego, se há tanto essa necessidade, por que é difícil conquistar aqueles que poderiam empregar?<br />Antônio Mauro -</strong> Quem dá o emprego espera o seu retorno. Quem contrata não quer errar, a empresa tem encargos. Contratar hoje, para dispensar em um mês, é prejuízo. Mas se eu pensasse assim, não teria conseguido dar início a esses projetos todos. De um modo geral, precisamos de mais atitude. É muito fácil enrolar o rabo e sentar em cima. Ficar no bar no final de semana tomando sua cerveja e discutindo que a violência está crescendo e que é preciso aumentar o muro da casa não leva a nada. É preciso dar a chance para esses jovens. Para um que não quer aprender, há centenas que estão ávidos por conhecimento. <br /></p>
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