Antes carregava os filhos para o Araxá. Agora são eles que me levam. O mais novo deu os seus primeiros passos inseguros na grande esplanada do Grande Hotel do Barreiro, com direito a fotos, chupeta na boca e urso de pelúcia na mão esquerda. Anos depois o mais velho, então adolescente, enquanto se exercitava naquele mesmo espaço, criou uma novidade para o Comércio da Franca - o Caderno de Domingo.
Nestas e em outras ocasiões, olhando curiosos os fósseis de dinossauros que ainda eram mantidos em exposição no bosque Burle Marx, repensávamos a nossa pré-história. Depois eu subia até a Fonte Dona Beja e eles iam com o pai desbravar o lindo lago em pedalinhos.O pai se foi, os pedalinhos desapareceram. Restou a memória boa à qual chamamos saudade.
Mas a paisagem no entorno continua deslumbrante, pude conferir num destes últimos fins de semana, observando da estrada ( impossível não reverenciar a memória de João Traficante, que lutou por ela) a alternância de cerrados e serras intercalados por campos e pastagens. De temperaturas amenas e sempre florida, a cada estação diferentes cores, como a costumam definir, a cidade lá está, tão perto dos francanos mas pouco explorada por estes em suas belezas e riquezas. O Parque do Cristo com seu mirante e imensa estátua.
A igreja de São Sebastião com as esculturas de Bento Antonio da Boa Morte. O Museu Sacro, anexo. O outro, Calmon Barreto, nome do araxaense de múltiplos talentos que conquistou fama nacional e internacional como gravador, pintor, escultor. A Matriz de São Domingos, magnífica com seus grandiosos afrescos e vitrais coloridos. O Museu Dona Beja, casarão do século 19 que Assis Chateaubriand instalou em 1965 reunindo acervo composto por mobiliário do tempo do império, oratórios, louças; agora também amostras de riquezas extraídas do rico subsolo - nióbio, apatita, tipos de silício exportados para o mundo inteiro. E o Grande Hotel do Barreiro, claro, que hoje tem o Ouro Minas na frente do nome.
Como é bonito este hotel, ligado às termas por uma galeria suspensa decorada com afrescos e paisagens mineiras.
O Complexo do Barreiro foi o ponto de partida de um novo tempo de esplendores para a altaneira Araxá: o topônimo na lingua tupi-guarani tanto significa “ lugar de onde se vê primeiro o sol”como também o nome da tribo que foi dizimada em meados do século 18. Segundo alguns historiadores, pela expedição de Inácio Correa Pamplona; de acordo com outros, pelos tamoios, grandes apreciadores de carne humana.
Ficou o nome expressivo, e com ele uma comunidade que se enriqueceu com a descoberta da fertilidade das terras, das águas sulfurosas, radioativas, das riquezas minerais. E se tornou conhecida pelos doces , tantos que uma lista deles beiraria uma centena de itens. Escolhi para os leitores interessados um bem original - e uso ‘original’ aqui no seu sentido etimológico: o que remete às origens. Experimentei faz muito tempo, sob o nome que está no título. Sempre o quis reencontrar. Pois aconteceu: ele está no livro Araxá põe a mesa, com o título ‘Amor aos pedaços’. De qualquer forma, amor. Vamos lá, então, seguindo a receita de Adélia Scaf Montandon.
Comece com o recheio. Passe pelo ralo grosso um abacaxi. Misture um coco ralado (você pode substituir por coco de pacote). Junte meio quilo de açúcar, 3 gemas, 1 colher bem cheia da manteiga. Leve ao fogo até aparecer o fundo da panela. Deixe esfriar.
Enquanto isso, prepare a massa. Misture farinha de trigo, açúcar, ovos, manteiga, sumo de limão, o sal amoníaco dissolvido em xícara de leite. Amasse até ficar homogêneo, se necessário junte mais farinha. Divida a massa em duas partes. Abra uma delas bem finamente e forre uma assadeira retangular grande já untada com a manteiga. Ajeite a massa no fundo e nas laterais.Distribua o recheio. Estenda a outra parte da massa com rolo. Cubra o recheio, una as pontas da massa, fure a parte de cima com um garfo. Leve ao forno quente até dourar. Ainda quente, pincele com manteiga. Deixe esfriar, corte em pedaços, passe em açúcar com canela. Outra opção é a que você pode ver na ilustração. Forrei forminhas de empada, recheei com o doce, cobri e procedi como o já indicado. Depois ajeitei em embalagens feitas artesanalmente com renda guipure e cetim.
<b>Aprenda a fazer a receita</b>:
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