Mutação


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Dia para se esquecer, o de ontem. Cheguei ao trabalho e percebi o corre-corre da redação do Comércio, o rebuliço no estúdio da Difusora. Tomei tento e rebusquei a atenção: um sujeito tinha acabado de matar a mãe, atirar na mulher e nos três filhos do casal, que ainda dormiam. Atônito, pasmado, prossegui ouvindo os repórteres do GCN prospectando informações junto a vizinhos da casa-palco da tragédia em pleno centro da cidade, ao lado do prédio das Voluntárias Sociais da Rua Ouvidor Freire. A cada segundo, novas informações: a mãe do atirador estava morta. A mulher, atingida na cabeça, passava por cirurgia. As três crianças – gêmeas, de 10 anos e um garoto, de 7 – estavam internadas na Unidade de Tratamento Intensivo da Santa Casa. A reportagem se empenhava em tentar construir um perfil do atirador, filho capaz de matar a mãe, marido que atira na cabeça da esposa, pai que vai à cama onde dormem seus três filhos e age para lhes tirar a vida; suicida. Um homem desesperado, em depressão profunda? Um ser animal em síndrome de álcool e drogas, já que familiares falaram abertamente sobre o lado drogadito do atirador? Mais informações: “Quase foi padre. Estudou e faltou apenas a ordenação”. “Alcoólatra, mas estava havia mais de um ano, sóbrio”, “estava em depressão profunda”. Um dos companheiros de trabalho cá deste Comércio que conviveu em algumas situações com ele, disse que há pouco tempo pediu “orações, porque estava para cometer um desatino”. Nelson Rodrigues, um jornalista referencial, disse em “Senhora dos Afogados” que o ser humano “tem uma face linda e outra hedionda”. E que o “ser humano só se salvará se, ao passar a mão no rosto, reconhecer a própria hediondez’. Está cada vez mais raro encontrar pessoas de espírito calmo. Ande pela rua e observe a falta de paciência que caracteriza a gente deste nosso tempo. Estão todos prontos para o combate. E estamos nos especializando em manter as mazelas do destempero ao alcance das mãos. Andamos preferindo, em lugar da paz, a guerra para manter válidos os nossos pontos-de-vista, mesmo que tortos ou oblíquos. Pessoas intranqüilas formam mais gente intranqüila. A cada dia, cresce a quantidade de gente incapaz de respirar mais profundamente frente à possibilidade de confronto. Eu, particularmente, não conheço mais ninguém que conta até 10 – ou até mil – antes de partir para a briga. Até quem é centrado, derrapa. Dia destes, minha mulher – equilibrada, pés no chão, capaz de tirar a blusa que veste para doar a quem sente frio – me contou que ia caminhando para casa após mais um dia de trabalho quando se achou “seguida”. “Olhei para trás e vi jovem bonito, bem vestido, apertando o passo. Me assustei. Segurei mais forte a bolsa. Fiquei preparada para gritar, se fosse o caso. Ele se aproximou e... seguiu, passos mais rápidos ainda. Não havia motivo mas eu o rotulei”. Estamos todos fazendo o mesmo, diariamente. Se existe dúvida, consideramos melhor não beneficiar com a dúvida, a pessoa que colocamos “sob suspeita”. Melhor prevenir que remediar... Quem observasse os muitos anos de casamento de Hélder Massucato Rezende e Valéria Gomes Massucato, um ex-quase padre que se podia observar de quando em quando podando flores no jardim da casa em que residia e uma proprietária de salão de beleza muito conhecida; quem soubesse dos filhos do casal, poderia considerá-lo personagem centrado, bom marido, bom pai, incapaz de ações violentas. Já quem, a exemplo de nosso companheiro de jornal, o viu pedindo “orações”, deprimido, poderia rotulá-lo como capaz de qualquer coisa. Dois homens distintos, duas personalidades; uma, ontem, vencendo a outra, impondo-se, motivando a ferir de morte sua própria carne. Parece que aflora outro degrau da evolução humana: o “homus violentus”. Evolução, não. Mutação. Para muito pior... HIPÓTESE 1 A investigação tende a acreditar na seguinte seqüência de fatos, para a tragédia da manhã de ontem: Hélder se levanta (ou chega à casa), vai ao quarto onde dormiam os filhos e atira. Anda em direção ao quarto da mulher e atira nela. Apesar de baleada, ela sai da cama e caminha até o corredor da casa. Cai. A mãe do atirador, ao ouvir o barulho, se levanta e abre a porta. Recebe o tiro do filho. Cai, morta. Hélder levanta a arma e usa a última bala contra a própria cabeça. COLETIVA MÉDICA Ontem, às 15h15 minutos, o médico Sinézio Duarte, da Santa Casa de Misericórdia, contou à imprensa o estado dos pacientes baleados que recebeu e operou: as crianças “chegaram ao hospital em coma profundo. Continuam em estado grave. Valéria chegou consciente, em estado de confusão mental. Recebeu um tiro na região temporal mas a bala não traspassou o crânio. Seu estado de saúde é bom”. Fecho este texto às 17 horas. Torço para que todos se recuperem, se puderem ter vida sem seqüelas. E peço a Deus que leve aqueles que tiverem que viver como vegetais. E, POR FIM Faz quanto tempo que você não desabafa? Grite, esperneie. Não guarde só para você suas angústias. Tomara que você consiga encontrar alguém capaz de apenas ouvir, sem querer falar junto. Não se transforme em outro Hélder. A história de sua vida, mesmo desregrada, mesmo inconsistente, mesmo que não valha – segundo você – quase nada, é importante para alguém. No CVV estão aqueles que sabem ouvir sem ameaçar. O telefone é o 141. Luiz Neto Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br

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