‘Todos temos nossa própria tragédia’


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Em entrevista concedida na manhã de ontem à Rádio Difusora, o psicanalista Antônio César Peron, coordenador do curso de Psicanálise da Unifran, afirmou que a sucessão de crimes hediondos registrados recentemente no País e amplamente divulgados pela imprensa não teria impulsionado a decisão de Hélder Rezende de colocar fim à própria vida após atentar contra seus familiares. O profissional disse que a família do assassino poderia ter notado no dia-a-dia vários indicadores do comportamento estranho do assassino, como oscilações de humor, entre outras sensíveis alterações. Outro fator que poderia ter motivado o crime seria o consumo de álcool e drogas, que potencializam o quadro psicótico. Peron afirmou também que as pessoas que sobreviveram à tragédia certamente necessitarão de acompanhamento psicológico, mas que somente após a recuperação será possível avaliar os danos e qual o tipo de tratamento a que cada um será submetido, pois cada indivíduo reage de maneira diferente aos acontecimentos. Comércio da Franca - Como explicar a reação de uma pessoa que atenta contra a vida da própria família? Antônio César Peron -Acredito que este caso seja ligado a uma pessoa que apresenta condição de psicose, onde o autor não tem a condição de articulação, perde o controle da sua punção nervosa e passa a cometer um ato de violência, como o que infelizmente aconteceu na manhã de hoje (ontem) em Franca. Agora nos resta torcer pela plena recuperação de quem sobreviveu a tudo isso. Comércio - A observação do comportamento de Hélder no dia-a-dia por parte de sua família poderia ter evitado a tragédia? Peron - Com toda certeza. Se os familiares fossem ouvidos agora, eles denunciariam determinados fatores e atitudes desta pessoa que já eram comprometedoras. O que nós percebemos é que muitas vezes a família protela ou não dá a devida atenção a determinadas atitudes e acaba chegando a este tipo de comportamento de estar sendo mais agressivo. Certamente no dia-a-dia a família pode perceber algumas alterações. Todos nós temos a nossa própria tragédia e cada um reage conforme as suas condições psíquicas. Comércio - O consumo de álcool e drogas, que foi relatado por alguns familiares de Hélder, pode, então, ter potencializado este quadro de psicose? Peron - O fato de utilizar drogas e bebidas alcoólicas ocorre em função da falta de estrutura do ser humano. Muitas vezes as pessoas confundem e colocam o uso de drogas e álcool como causa deste comportamento, quando na verdade é uma conseqüência. Com certeza essas atitudes acabam potencializando a raiva e aumentando a sua condição de desestrutura, o que o impede de recuar perante a sua própria agressividade, e gera o comportamento agressivo e as conseqüentes atitudes descontroladas. Comércio - Caso as vítimas sobrevivam, como ficará o psicológico destas pessoas? Peron - A gente não sabe como cada um vai elaborar dentro de si esta tragédia. Com certeza eles precisarão de ajuda profissional para que esta elaboração seja facilitada. Para alguns, os sinais podem ser mais graves, para outros pode ser que não. Agora é muito difícil fazer um prognóstico de como ficará a condição psíquica destas pessoas. Nós, humanos, temos uma condição muito boa de superação destes fatores traumáticos. Comércio - Qual tipo de comportamento do ser humano que tem que ser mais observado nas pessoas para se evitar estas tragédias? Peron - Alguns fatores são preponderantes para que possamos estar atentos e avaliar a condição do sujeito. Uma pessoa que não faz laços afetivos, que não elabora as condições mais comuns do dia-a-dia, tem um comportamento que deve ser observado com mais atenção. Se o indivíduo passa de um quadro de calmaria para a euforia com muita facilidade e tem grandes variações de humor já caracteriza um caso que necessita de maiores cuidados. O que não pode acontecer são as oscilações tão intensas no comportamento.

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