Quatro romances. Todos de Evelina


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A Academia Francana de Letras presta homenagem à memória da romancista francana Evelina Gramani Gomes relançando seus quatro títulos. O Pecado de Dionísia, O Destino e Três Mulheres, Os Filhos Mandam e Mara. Edição bem cuidada pela Ribeirão Gráfica, com capas em estilo retrô, reproduzindo as originais num metafórico recorte de janela, tem tiragem de 1.200 exemplares e será distribuída para escolas, bibliotecas, instituições, entidades culturais. A cerimônia de lançamento acontece hoje, às 20 horas, no Salão Nobre da Unesp, na Rua Major Claudiano, 1488, Centro. Foram expedidos 250 convites. A Academia priorizou, na lista de convidados, os nomes de mulheres interessadas na vida cultural da cidade, na qual a literatura acaba desempenhando um papel importante na fixação de maneiras de viver, sentir, pensar a realidade definindo contextos. O prefácio, sucinto e belo, é do neto César Barros, que de forma lírica lembra-se do talento narrativo da avó: “Ainda melhores eram as estórias que repentinamente ela criava, e contava com humor e interpretação a invenção do nhoque e do pé-de-moleque, do baobá, dos índios de Araxá, do pé de manacá atrás daquela serra e muitas outras que infelizmente ela não escreveu”. De acordo com o presidente da Academia Francana de Letras, José Andrade Pires, “todas as obras de Evelina estavam esgotadas e este lançamento cumpre um papel de resgate e de divulgação de uma das nossas maiores ficcionistas”. O acadêmico Luiz Cruz de Oliveira explica que “vários fatores confluíram para dar condições ao lançamento desta edição especial de todos os romances da escritora. Isso é fundamental porque a obra de Evelina tem valor de fato. Em 1952 ela já discutia temas como família, desagregação familiar, divórcio, aborto. São assuntos que só integrarão o cotidiano dos brasileiros, especialmente os do interior do País, uma década depois, ou seja, a partir do final dos anos 60”. Jane Mahalem do Amaral, também acadêmica e como Cruz uma pessoa que conviveu com a escritora, faz um depoimento rico sobre a ficionista francana: “Conheci Dona Evelina quando ela tinha 87 anos. Era uma pessoa muito lúcida e inteligente. Nós conversamos longamente quando fiz uma entrevista com ela e comecei perguntando ‘quem é Evelina Gramani Gomes?’ e ela respondeu: ‘Uma mulher comum.’ Só que com o tempo de conversa me surpreendi com o seu espírito crítico, sua lucidez, sua simpatia. (...) Em suas obras Evelina valoriza muito a figura da mulher. Quando perguntei a ela o que achava das idéias feministas, respondeu que ‘a mulher ao tentar se igualar ao homem se subestimou em muitos aspectos porque mudou a vestimenta, masculinizou-se e adquiriu desvios físicos e morais comparados aos dos homens’. Ao mesmo tempo, Evelina percebeu que ‘o feminismo não foi uma involução porque libertou a mulher de muita dominação, da sua escravidão à rotina doméstica e da tirania do homem.’” Da “orelha” dos volumes que chegam agora ao público constam outros depoimentos importantes. O de Austregésilo de Athayde e o de José Lins do Rego, ambos sobre o primeiro dos romances, O Pecado de Dionísia, cuja primeira edição é de 1951. Diz Athayde: “É um trabalho de valor literário e moral que recomenda bem a autora. O tema, habilmente tratado, é daqueles que figuram nas preocupações diárias dos observadores de nossa sociedade, o que torna o romance oportuno e mais interessante ainda”. E Lins do Rego: “Livro de grande valor psicológico, deve ser lido e meditado pelas mulheres que subestimam sua influência na constituição da família e na integridade do lar”. O intelectual e o romancista já pontificavam então como grandes expressões da intelectualidade brasileira. José Lins do Rego, ficcionista como Evelina, um dos criadores da corrente chamada Regionalismo, lançaria neste mesmo ano um livro de crítica literária, O Romance e os Caminhos da Vida, onde esmiúça o gênero: “Todos os que chegam para o romance com um método fracassam porque pretendem violar a lei da natureza procurando falsificar a vida”. Quem leu os romances de Evelina Gramani Gomes saberá que ela fez o caminho sugerido pelo autor de Menino de Engenho, ou seja, deixou-se conduzir pela naturalidade de suas evocações e observações da vida em todas as suas manifestações, das mais simples às mais complexas. Seus personagens evocam espelhos que passeiam pela vida real, sua sutil maneira de narrar lembra aquela que Carlos Drummond de Andrade definiu como “a arte de destelhar casas sem que transeuntes percebam”. EVELINA GRAMANI GOMES Verbete do livro Esboço de História da Literatura Francana, de Luiz Cruz de Oliveira, 2005, informa que Evelina Gramani Gomes nasceu em 1896 e morreu em 1987, portanto aos 91 anos. Seus pais foram os italianos Vicente Gramani e Letícia Barci Gramani. Fez os primeiros estudos em Franca, no Grupo Escolar “Coronel Francisco Martins”, e os seguintes em São Paulo, na tradicional escola de normalistas “Caetano de Campos”. Ali se formou em 1915. Durante a epidemia de gripe de 1918 prestou serviços como enfermeira voluntária. Casou-se em 1920 com Modestino Gomes e teve os filhos Maria e Sebastião. Depois do nascimento do segundo filho deixou o magistério. Dedicou-se a obras sociais e prestou serviços relevantes na área da saúde. Foi presidente da Legião Brasileira de Assistência. O Centro de Saúde local tem o seu nome. Foi voraz leitora e desde criança manifestou talento para a escrita. Membro da UBE (União Brasileira de Escritores), trouxe a Franca pela primeira vez o escritor Caio Porfírio Carneiro, que voltaria à cidade diversas vezes. Seus romances, pela ordem de publicação, são os seguintes: O Pecado de Dionísia (1951); O Destino e Três Mulheres (1952); Os Filhos Mandam (1953); Mara (1963); Um Caso de Família (1976). Afrânio Coutinho, ao organizar a sua Enciclopédia de Literatura Brasileira, em 1990, inseriu o nome da ficcionista francana. O mesmo fez Nelly Novaes Coelho em 2002, no Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras. Franca ali está, representada no segmento literário por um de seus maiores nomes - Evelina Gramani Gomes. A cidade precisa ter isto sempre presente. A publicação do conjunto da obra inscreve-se como ocasião para o resgate e a gratidão por parte daqueles que elegem a palavra escrita como documento, memória, criação. Colaborou: Fernanda Martins

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