Era manhã de sábado e ensaiava chover de verdade. O céu nublado. No entanto, só conseguiu fazer chuviscar. Foi quando parei num posto de combustível e pude testemunhar algo entristecedor.
Meu intento antes de iniciar a pequena viagem que faria, seria o de encontrar na loja de conveniência alimento fresco, cultura alimentar aqui das Minas Gerais, o tradicional pãozinho de queijo.
Como disse, era de manhãzinha. A cidade acordava lentamente, mas existia ali na parte externa daquele lugar o remanescente de uma noite de “balada”. Um grupo de quatro jovens, alterados no juízo, amarrotados, empapuçados, em meio a palavras desconexas abraçando com as mãos latas de cerveja que serviam de combustível a alimentar suas fantasias e lhes dando a sensação de euforia própria dos efeitos do álcool.
Mais ao lado, observei um cidadão segurando um pequeno guarda-chuva numa das mãos, e uma sacola plástica que lhe servia na recolha de latas já esvaziadas e jogadas ao lixo, na outra.
Ouvi um assovio que partiu de um dos rapazes beberrões. Em seguida, gritou algo do tipo: “olha aqui, busca lá!”. Não pude acreditar no que vi, mas conto assim mesmo: o assovio foi para chamar o homem que catava latas. O moço ergueu a lata vazia, amassou e arremessou à distância, mandando, “busca lá!”. Buscou transformar o catador em um cão obediente, a servir o capricho imbecil, de profundo mal gosto.
O homem, atento a tudo, fitou calmamente o grupo que gargalhava, caminhou em direção ao objeto e o recolheu à sacola.
Vivi, ali, episódio inesquecível de minha vida. A humildade demonstrada no gesto do “cata-lata” me fez refletir sobre a capacidade de resignação diante das circunstâncias que às vezes a vida nos reserva.
O grupo de aspirantes a boêmios e alcoólatras, a maioria de tenra idade, imaturos e sem ainda muitas respostas dessa existência tão ligeira que chamam de vida; divertiram-se com o fato de alguém se submeter ao constrangimento público de obedecer ao “busca lá” e sair atrás da lata vazia que alivia um pouco a sua própria miséria. Imagino que seja esse o conceito que nutre os que se dedicam a catar latas, enfiando a mão no lixo, se curvando várias vezes ao dia para apanhar o objeto reciclável que garante o sustento de suas famílias. Ao menos sabem que qualquer trabalho, desde que honesto, é digno e merece o sagrado respeito de todos.
Aliás, quase todos. Infelizmente, é cultural a maneira como agem algumas pessoas que se reúnem para tripudiar dos mais fracos.
Neste caso, em que os rapazotes abusaram com o “busca lá”, caracterizou-se opressão, ação imprópria de seres que deveriam ser “humanos”, mas agem como bichos. O bom exemplo de cidadania foi praticado pelo catador. Humilde, abaixou-se e seguiu o seu caminho. E esta foi a melhor resposta que alguém poderia dar. Em seu íntimo, talvez saiba que a desgraça de muitos é que alivia a sua fome e que a resposta efetiva da vida talvez ainda venha, para seus algozes.
Ricardo Veríssimo Júnior
Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e do Comércio da Franca
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