João Gabriel Correira Gonçalves só conheceu seu quarto de paredes azuis e o berço com detalhes amarelos ontem, três meses depois de nascer. O nenê nasceu do tamanho de um pacote de café, com apenas 555 gramas e 22 centímetros, antes mesmo de completar seis meses de gestação.
João Gabriel tinha entre 30% e 50% de chances de sobreviver e pode ser considerado um guerreiro. De janeiro a setembro deste ano, nasceram 11 bebês com menos de 1.000 gramas na Santa Casa, apenas três sobreviveram. Ele foi o segundo menor. Um outro nasceu com 520 gramas, mas morreu. Em 2007, no mesmo período, foram 17 com essa margem de peso. Apenas seis resistiram. Até ontem, 11 bebês prematuros, ou seja, que nasceram antes do tempo, com menos de 37 semanas de gestação (o ideal são 40 semanas), estavam internados na Santa Casa e Hospital Unimed em Franca. No Hospital Regional não havia nenhum.
A gravidez da dona de casa Doralice Correira, 29, foi complicada. Logo no começo sentia dores, cólicas e teve três hemorragias. Na última vez que passou mal, com infecção de urina, os médicos decidiram pelo nascimento de João Gabriel. A mãe foi medicada para induzir parto normal, mas foi preciso fazer cesárea. “Sofri muito”.
Desde que João nasceu, no dia 17 de julho, a família, que mora na Fazenda Santa Luzia, em Restinga, viveu preocupada com sua evolução. Ele ficou entubado, dependia de aparelhos para respirar, era alimentado por sonda, teve hemorragia intracraniana e infecções. Mas venceu, ganhou peso e recebeu alta. Com 2,1 quilos e 40 centímetros, foi liberado para morar com os pais e as duas irmãs de 12 e 7 anos.
A chegada do nenê à fazenda foi emocionante. Por volta das 13 horas de ontem, a patroa do pai de João Gabriel, a avó paterna e a irmã Isadora, 7, aguardavam ansiosas. Ela faltou da escola para esperar o irmão. As duas senhoras se emocionaram e agradeceram a Deus pelo milagre. “Eu gosto de bebê. Achei legal ele estar aqui”, disse a irmã. O pai do bebê, o tratorista João Gonçalves, 42, também se emocionou. “Quando nasceu com seis meses, pensei: ‘nossa mãe do céu, será que ele vai sobreviver?’. Mas a gente se apegou com Deus e tudo deu certo”, disse.
Doralice, que nos últimos três meses viajava todos os dias de Restinga para Franca para ficar com o filho na Santa Casa, respirou mais aliviada ao entrar em casa com o filho nos braços. A primeira atitude foi levá-lo ao quartinho dele. “Chorei muito porque ele era muito pequenininho, igual uma garrafinha de água, todo roxinho, com a cabecinha tortinha e eu nem acreditei que iria resistir. Mas nunca perdi as esperanças”, disse a mãe.
A dona de casa está ciente de que o filho pode apresentar seqüelas no futuro. “Estou preparada para lidar com isso, mas eu acho que ele não vai ter seqüela nenhuma. A doutora deu alta e falou que, por enquanto, os exames mostram que está ouvindo, está bem”.
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PALAVRA MÉDICA
A médica intensivista Rita Fontes, da UTI Neonatal da Santa Casa, acompanhou o caso de João Gabriel. Ela o considera um guerreiro, pois quando nasceu estava com todos os órgãos imaturos, mas resistiu. “Ele era prematuro extremo. Era uma criança com diagnóstico ruim. O João evoluiu com ventilação mecânica, com medicamento para melhorar as trocas pulmonares, necessidade de alimentação pela veia, com hemorragia intracraniana e com infecções. Superou tudo e está recebendo alta em condições favoráveis”.
Segundo ela, não é possível dizer se ficará com seqüelas. “Só vamos saber da evolução neuropsicomotora no próximo ano, tem que acompanhar”.
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