A frase “O mais importante é que nossa emoção sobreviva” soou como um mantra na última quinta-feira, quando me encontrei com uns jovens cinqüentões, cabelos grisalhos, excepcionalmente alegres e festivos em um bar modesto no centro da cidade.
Não por acaso, a tal frase, fragmento da letra de Mordaça, de Eduardo Gudin e Paulo César Pinheiro, de 74, uma das mais belas da música popular brasileira, permeava a conversa dos, não menos por acaso, integrantes do Grupão, grupo musical de Franca que marcou os anos de 1960 e 70.
Fui brevemente apresentado à história dessa formação poucas horas antes de encontrá-los com a mesa já forrada de cervejas às 7 da noite. Não conhecia nada e, confesso, fiquei surpreso com o que ouvi.
Nascido na esteira dos festivais organizados pelas emissoras de TV e rádio, o Grupão surgiu em 1968, quando a música brasileira talvez passasse, a exemplo do resto do mundo, por sua fase mais efervescente.
O Grupão de Ulisses, Jairo, Pixoxô, Rodrigão, Zezão Coimbra, Mazo, Erlindo, Osni Renato, Lurdinha e outros agregados, que não são a formação original, se assume como um grupo vocal por excelência. E mais ainda “bossanovistas”.
Na mesa do Bar do Vicente, cada integrante que chegava era recebido de pé, com abraços e risos, coisa de cúmplices, parceiros de uma vida. A mais festejada foi Lurdinha Figueiredo Nascimento, a bela voz feminina do grupo.
“O que nos une é essa alegria, é a boa música, a amizade. Não temos nenhuma pretensão por dinheiro ou sucesso. Cantamos pela alegria de cantar”, sintetizou Pixoxô, ou o empresário Antônio Carlos Carvalho, 51, que entrou no grupo em 1982.
A FORMAÇÃO
Formado para participar do Festival de Música de Franca em 1968, famoso na época por sua qualidade, organização e jurados, o Grupão logo alcançou o sucesso. Ganharam a primeira edição do festival local, com Fim de Carnaval, a segunda, com Canção de um Homem Só, e a terceira, com Viva a Burguesia. Ao todo embolsaram 14 festivais em diversas cidades.
Para Ulisses Minicucci, médico e ex-vereador, o mais “legal” aconteceu em Passos (MG), no início dos anos 70. Com seu festival concorrido, a cidade mineira atraía músicos e grupos de todo o País. O Grupão, já conhecido, inscreveu-se com a música Participação. Ficou em terceiro lugar, mas viu a platéia inteira vaiar os dois primeiros colocados e aplaudir os francanos.
No consenso de seus integrantes, o Grupão sempre se destacou pela forma de interpretação, privilegiando os vocais. Não à toa, tem como referência o veterano MPB 4, um dos grandes nomes da música nacional.
CANTAR POR CANTAR
Minha pressa inicial foi dando lugar a um interesse cada vez maior pelas histórias que vinham de enxurrada. Em dados momentos, todos falavam ao mesmo tempo entre si. Coisa difícil de acompanhar. E mais cervejas, que a noite estava quente.
Perguntei sobre o assédio, no quê Pixoxô nem fez questão de dissimular. “Ah, sempre tinham as grupetes”. E quantos anos tinham as grupetes: 15, 16? A resposta foi uma bela risada. Ulisses foi mais comedido: “O nosso fã-clube sempre foi grande. Ainda hoje é assim”. Pixoxô emendou: “A gente anunciava que teria apresentação do Grupão em um dia e no outro o bar já estava lotado”.
Aos poucos todo mundo vai entrando na conversa. Explicam que o grupo nunca pôde se profissionalizar como deveria, porque isso implicaria uma dedicação que não podiam dispensar.
Partir para esse caminho significaria sacrificar as profissões que já tinham: médico, arquiteto, empresário, professor de inglês, advogado, jornalista. Por isso, apesar de promissores, ficaram na informalidade.
A conversa estava muito boa, mas desde seu início o que eles queriam mesmo era cantar. Assumo que dei uma mancada ao recusar o pedido de ouvi-los, pois estava mais envolvido com as histórias. “Mas você tem que ouvir a gente cantar pelo menos uma música”, determinou Ulisses. Diante da insistência, não tive mais como recusar.
Erlindo pega a flauta, Pixoxô, o atabaque; o violão vai de mão em mão, mas fica bem com Osni Renato. Daí para frente foi só surpresa.
Cantam como se não fosse nenhum esforço, numa afinação absoluta. Ulisses vai regendo e Pixoxô segue com sua percussão simples, mas fundamental. Erlindo faz a flauta ressoar e parar quem passasse na Saldanha Marinho. Os demais, Jairo, Luiz Antônio, Zezão, Rodrigão, vão nas vozes; segunda, terceira, quarta e por aí vai. Lurdinha canta sozinha, aveludadamente. Ao contrário da mediocridade que ouço pelas ruas de Franca, meus ouvidos foram presenteados naquela noite, que, segundo eles, não se sabe quando vai acontecer novamente.
Rendo-me à Viola Enluarada, dos irmãos Paulo Sérgio e Marcos Vale, uma das mais lindas composições que se pode ouvir. Faltaram Amigo é pra Essas Coisas ou Casaco Marrom, mas essas ficam para a próxima.
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