Numa democracia, política é discurso. Não se trata de “discurso de palanque”, de retórica, somente. Discurso aqui é um texto e é imagem: é o sentido e o significado do que se expressa. É uma palavra, uma fala e também um slogan. É uma postura e um posicionamento, um compromisso com valores e idéias.
Quando se governa é obra e também é o conjunto de opções que assume um governante. Tudo isso é discurso. Ele é o coração da política que, em democracia, não deseja nem busca a submissão pela opressão (como na ditadura) mas, ao contrário, busca a agregação, os consensos, a alteridade e a identidade dos atores políticos.
Contudo, mesmo numa sociedade de imagens como a nossa, a política continua a ter na palavra o seu locus.
A política moderna nasceu com O Príncipe de Maquiavel antes mesmo dos reis absolutistas unificarem o poder no período de superação do medievo europeu. É mais deles do que do fabuloso pensador da política a inclinação para a concentração de todo poder em si: “o Estado sou eu”, diria mais tarde Luís XIV, consagrando essa perspectiva moderna que indicava o caminho para a superação definitiva do domínio teológico sobre a política.
A política do nosso tempo é a política democrática, aquela que incorpora as massas ao ambiente institucional no qual ela se desenvolve. Nela é que nasceram os partidos políticos, agregadores de interesses e vontades parciais que visam se expressar coletivamente no espaço público.
Os partidos políticos e a vida institucional tornaram a política mais complexa e a democratizaram, dificultando a concentração de poder nas mãos de uma única pessoa. Eles representam, portanto, um avanço da política moderna. Ganharam impulso pois passaram a expressar no seu ideário e nos seus símbolos numa palavra, no seu discurso a diversidade intrínseca existente na sociedade contemporânea.
A partir daí a política institucional passou a depender dos partidos políticos, nos planos local, regional e nacional. Mas a política e os partidos são compostos de pessoas, homens e mulheres. Além disso, os sistemas institucionais que regulam a vida partidária são falhos, possibilitando a emergência de disfunções e de ambições desmedidas.
O resultado, no mais das vezes, é o movimento de descolamento das lideranças em relação aos partidos, fazendo com que elas os sobrepujem e, no limite, os manipulem. Pior que isso, muitas lideranças acabam se convencendo especialmente após as vitórias eleitorais que são maiores que os partidos e, algumas delas, acreditam que podem ser maiores que o próprio espaço público, que a própria democracia, que a própria política.
Isso aconteceu no passado e acontece hoje. Os regimes autoritários se sustentaram nesse princípio. Os chamados populismos latino-americanos também.
Não é, portanto, saudável ouvirmos dos vencedores que eles se julgam todo-poderosos. Que a aritmética do voto expressa o mesmo valor que a sua capacidade política de agregação e liderança. É bom relembrar que a legitimidade que advém do número não promove automaticamente a mesma agregação em torno da mesma liderança.
Como se sabe, a política é mais complexa e movediça. Depois das vitórias, como ensinou o florentino, é preciso exercitar a virtù para continuar a garantir a fortuna!
Alberto Aggio
Professor de história da Unesp/Franca
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