A crise e o calçado


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Eu imaginava que, mais cedo ou mais tarde, vivenciaríamos uma crise financeira como a que se faz presente. Vivemos duas realidades financeiras claras: uma real e uma virtual. A real é aquela que estabelece o limite das nossas possibilidades e da nossa capacidade “real” de consumir, ou seja, o quanto eu tenho de dinheiro e o que eu posso adquirir com ele. Essa é a realidade da maior parcela da população brasileira e mundial. A virtual é a do crédito fácil e que se faz presente, principalmente, através do cheque especial e do cartão de crédito. A facilidade com que recebemos um cartão de crédito, com limites altos, seja diretamente de uma operadora de cartões, ou de um Programa de Fidelidade de alguma empresa, é assustadora. Aliás, comparando com o subprime (linha de crédito de alto risco, concedida no mercado norte americano para a aquisição de imóveis a uma parcela da população com rendimento baixos e com uma situação econômica instável), verdadeiro estopim da crise americana, encontraremos uma semelhança muito grande entre esse e o crédito que é concedido pelos bancos brasileiros. O fato do banco exigir um comprovante de renda quando concede o cheque especial ou o cartão de crédito não constitui, de maneira alguma, garantia de “adimplência futura” do candidato a consumidor. Não há como saber o quanto o salário daquele cidadão está comprometido com dívidas e com outros compromissos financeiros. Portanto, a “crise” atual é, na verdade, um ajustamento entre essas duas realidades. O mundo necessita de uma nova ordem econômica que garanta que a riqueza real seja conhecida e colocada a serviço do equilíbrio e do crescimento econômico e social de todos os povos. É necessário, também, que se coloque um limite à especulação financeira. Ela agrada a poucos e prejudica a muitos porque “sangra” a vitalidade da economia na medida em que não gera produção, trabalho e bem estar social. Esse sistema atual de aplicações financeiras (aqui incluído o mercado de ações) deve ser repensado, garantindo algo que gere perspectivas de investimento no crescimento da produção. Finalmente, nosso setor calçadista deve ficar atento ao desenrolar dos acontecimentos. Com o desaquecimento da economia (virtual) norte-americana, maior mercado consumidor do planeta, o parque industrial chinês volta os seus olhos cobiçosos para os mercados emergentes e a fabulosa indústria calçadista chinesa ensaia invasão às nossas praias. Oferecem descontos de até 50% nos seus sapatos e tentarão inundar nosso mercado brasileiro com eles, além de brigar cada vez mais pelos demais mercados onde estamos, com dificuldades, tentando nos manter posicionados. Assim, fora as ações governamentais que deverão ser acionadas, devemos buscar conquistar cada vez mais mercados e, para isso, a indústria calçadista brasileira deve garantir insistentemente, a sua presença nas feiras internacionais com produtos arrojados, contemporâneos e com políticas inovadoras de venda. Isso, infelizmente, não é o que estamos presenciando. Dia 3 de novembro próximo estarei em Dubai participando, com os produtos de uma fábrica francana, da Footwear Expo Dubai. Consultando a Abicalçados quanto às outras empresas brasileiras que estarão presentes, fui informado que só quatro(!) estarão lá, sendo apenas duas(!) de Franca; uma, exatamente a que represento. Triste realidade. Cassiano Pimentel Agente de exportação e professor universitário de Comércio Exterior e Relações Internacionais

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