No fim da Rua Marechal Mascarenhas de Morais, 120, Jardim Dermínio, moram cinco pessoas. A dona de casa Sueli Gomes da Costa, 46, os filhos de 13, 9 e 7 anos e o pai de dois deles vivem no endereço, em um imóvel de fundos. O espaço é precário. Os três cômodos, sem revestimento nas paredes, cobertos com telha de fibrocimento, sem iluminação e abafados, encontram-se numa área com risco de desabamento e estão com o chão rachado. A aproximação da época de chuvas aumenta o temor da mãe e das crianças. “Quando chove, a água sobe pelas rachaduras no chão. Aqui é um forno no calor e um freezer no frio. Quero sair, mas não tenho para aonde ir”, disse Sueli.
O Jardim Dermínio, loteado em 1979, sempre apresentou problemas. As rachaduras surgem nos imóveis com freqüência, porque eles foram construídos em terrenos instáveis, sobre nascentes de água. Desde 2005, a Prefeitura desapropriou e demoliu 30 imóveis “condenados”. O investimento foi de R$ 1 milhão (leia mais no apoio).
Sueli poderia se livrar do problema, sendo indenizada e deixando o bairro. Mas o processo de desapropriação está parado. “Eles falam que pagam uns R$ 20 mil pela casa, mas tenho de dividir com a ex-mulher do pai dos meus filhos. Com R$ 10 mil não consigo comprar outra casa”. Sueli vive com R$ 475 do benefício do filho caçula, David, que tem síndrome de Down, e do Bolsa Família.
A dona de casa sofre há 11 anos morando no mesmo endereço. Antes vivia no imóvel feito na parte da frente do terreno, mas se mudou depois das paredes “se abrirem” devido às rachaduras. No fundo, a situação não é muito diferente. “Não é fácil viver nesse ambiente. O David (filho excepcional) está sempre doente, com bronquite e rinite. Tem escorpião, rato e até cobra, além do mofo e das goteiras”.
OUTROS DRAMAS
A família vive outros dramas. Há mais de um mês, a geladeira de Sueli estragou. Desde então, a dona de casa não consegue conservar os alimentos. “A comida que ponho dentro de casa já não é muita e tem que ficar jogando fora. Já perdi leite, até carne. Carne é cara demais”, disse ela, que vendeu a geladeira para o ferro-velho por R$ 12 e usou o dinheiro para comprar alimentos.
O desespero é tamanho que Sueli pretende vender um presente dos filhos para comprar outra geladeira. “Teve um sorteio do Dia das Crianças e as crianças ganharam uma bicicleta. Elas estão doidinhas para andar, mas não deixo porque quero vender e comprar a geladeira. Falaram que ela vale R$ 200”. Só não vendeu ainda porque está com o pé direito quebrado e não teve condições de sair de casa.
A dona de casa pensa em usar o dinheiro que sobrar para comprar um presente para David, que completará 8 anos na quinta-feira, 23. “Ele adora festa. Queria fazer um bolo e comprar uma roupa nova para ele. O David está sem roupa. Está gordinho e perdeu as dele”, disse, emocionada.
PODER PÚBLICO
Coincidentemente, o prefeito Sidnei Rocha (PSDB) esteve no Jardim Dermínio ontem à tarde para visitar as obras de revitalização do bairro. Informado pela reportagem sobre o caso de Sueli, pediu para o assessor de comunicação da Prefeitura, Marcelo Facuri, investigar a situação.
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Constatou-se no departamento jurídico que a entrada no processo de desapropriação da casa foi dada em maio de 2007 e que o imóvel está avaliado em R$ 24,2 mil. A concretização do processo, segundo ele, está nas mãos de Sueli. “O companheiro dela não se separou oficialmente da ex-mulher e o dinheiro tem de ser partilhado com ela. Quando soube disso, a dona Sueli não quis mais a indenização”, disse Facuri.
O secretário de Ação Social, Roberto Nunes Rocha, disse que a família já é acompanhada pelo poder público, mas se comprometeu a enviar uma equipe ao local para verificar a situação.
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