O perigoso e inconseqüente confronto que o governo proporcionou entre policiais civis e militares, no Palácio dos Bandeirantes, é grave e extremamente prejudicial para a segurança pública. Parece até coisa programada por algum megalomaníaco para, a qualquer custo, enfraquecer a reivindicação salarial dos grevistas, que o governo nunca se mostrou disposto a atender.
Todos os policiais do Estado de São Paulo – civis e militares – encontram-se com seus salários defasados em função da falta de reposição inflacionária e da adoção de abonos e outros artifícios que o governo mau patrão vem aplicando nos últimos 12 anos, para corroer a economia, a hierarquia, a disciplina e a estabilidade da classe. A única diferença é que os policiais civis podem e os militares não podem fazer greve, sob pena de sofrerem rigorosas punições administrativas e criminais e serem presos e demitidos.
Quando, constrangidos, impediram a passagem dos grevistas, os PMs estavam apenas cumprindo sua missão e obedecendo rigorosamente ordens de seus superiores hierárquicos, o secretário da Segurança Pública e o próprio governador. Pode-se dizer, sem medo de errar, que a responsabilidade pelo confronto é do governo, que usou o seu poder discricionário para promover, com o uso da força, a repressão aos policiais civis grevistas. Os PMs, se descumprissem a ordem, ficariam sujeitos aos rigores do Código Penal Militar.
Os policiais militares paulistas têm os mesmos reclamos dos civis. Seus salários, cada vez menores, não são suficientes para viver e tratar da família. Muitos deles estão endividados e humilhados até perante a mulher e filhos, por não poder lhes prover o necessário. Como seus regulamentos os impedem de fazer greve, só podem esperar que o resultado da greve do civil acabe se refletindo também sobre seu holerite.
No passado ocorria uma certa rivalidade entre policiais civis e militares, ambos interessados em prestar uma maior gama de serviços e bem atender à comunidade. É profundamente lamentável que o equilíbrio duramente conquistado seja rompido por interesse estatal-patronal ou político de qualquer natureza. Os homens e os grupos políticos felizmente são passageiros e a instituição policial é perene. Estabelecer e incentivar a divisão e o confronto é deixar a população insegura e desassistida. Em vez de jogar uma polícia contra a outra, o governo deveria procurar resolver a situação e, se for o caso, declarar-se incompetente, sair de cena e deixar essa tarefa para a Justiça do Trabalho.
Se insistir no confronto e no divisionismo, estará mais uma vez sucateando instituições sérias e honestas como as Polícias Militar e Civil e poderá repetir, com mais gravidade, crises como a da Casa de Detenção, onde a polícia entrou cumprindo a determinação de governo e foi deixada à própria sorte, como vilã.
O governador e seus auxiliares precisam ter muita sensibilidade ao tratar do assunto, para evitar solução às avessas. José Serra deve, inclusive, mirar-se no exemplo do grande Franco Montoro que, mesmo ilhado no Palácio dos Bandeirantes, abriu mão de seu poder de reprimir militarmente os manifestantes na famosa greve dos professores. Não ganhou a queda-de-braço do momento. Foi até criticado por isso, mas evitou o derramamento de sangue e, depois, com a ordem restabelecida, teve moral suficiente para, como estadista, negociar e apaziguar a classe descontente.
Dirceu Cardoso Gonçalves
Tenente, diretor da Associação de Assistência Social dos Policiais Militares de São Paulo
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