‘A dermatologia é um livro aberto, mas escrito em chinês’


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O sonho dos parentes de José Lancha Filho era ter um médico na família. Ele realizou o desejo coletivo. Aos 77 anos, colhe os frutos da escolha e se sente orgulhoso dos seus 51 anos de carreira. “Escolhi ser médico por indução familiar. Era a glória ter um médico em casa. Foi ótimo. Tenho uma clientela grande e sou muito feliz na minha profissão”. Doutor Lancha se formou em 1957, na primeira turma da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) em Ribeirão Preto. A experiência vivida durante cinco anos no serviço de atendimento a pessoas com lepra fez com que escolhesse como especialidade a dermatologia. Ele fala com paixão da área. “É uma especialidade difícil, mas muito gratificante. A dermatologia é um livro aberto, com as doenças todas visíveis, mas escrito em chinês”. O segredo para decifrá-lo? Como não poderia deixar de ser, o doutor tem a resposta na ponta da língua. “Dedicação, muita atenção para com o paciente, valorizar o que ele fala e manutenção do contato com o cliente. É preciso vê-lo com freqüência no começo do tratamento, dar retorno gratuito se for preciso e acompanhar a evolução para realizar um atendimento com segurança”. A especialidade o poupa de outra dificuldade da profissão: a lida com as perdas. “A vantagem da dermatologia é o fato do fenômeno morte ser mais distante, então o profissional sofre menos”. Durante 42 anos, doutor Lancha atuou no serviço público estadual de saúde. Foi o primeiro médico a tratar pacientes com tuberculose em Franca. Hoje, trabalha apenas no consultório particular. Ele acredita que durante as cinco décadas como dermatologista tenha realizado cerca de 320 mil consultas. O médico acorda cedo. Às 6h15 está de pé. Toma um café da manhã reforçado para, às 8h30, iniciar os atendimentos. Quatro horas depois, segue para o almoço e retorna às 14h30. O expediente é encerrado às 19 horas, após receber entre 25 e 30 pacientes por dia. O salário é de R$ 10 mil em média. Nos momentos de lazer, gosta de ler, fazer palavras-cruzadas e caminhar. Também lê notícias. “Leio dois jornais por dia, obrigatoriamente, na hora do almoço”. ATÉ QUANDO Nos planos de José Lancha Filho, sua atuação como médico tem data para terminar. Daqui a três anos. “Continuarei até os 80 anos. Quem consegue trabalhar durante tanto tempo assim, merece uma aposentadoria. Já prestei tudo nesta idade. Quando você fica velho, você passa a ter muita incerteza em relação ao tempo que vai viver, em relação ao estado de saúde física e mental que você tem. É tudo muito incerto, então você não pode fazer projeção por muito tempo”. Lancha Filho é casado há 50 anos, com a dona de casa Ísis Oliveto Lancha e pai de três filhos - Flávia, 48, Fernanda, 47, e Pedro, 44. Ele tem cinco netos. Nenhum dos filhos seguiu sua profissão. A filha mais velha é agropecuarista, a segunda é sua secretária no consultório, e o caçula, advogado. O médico ficou conhecido em Franca pela atuação na política também. Doutor Lancha foi prefeito de 1969 a 1972 e vereador por três mandatos na cidade.

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