O chicote sempre foi um instrumento bastante usado através dos tempos como algo capaz de causar sofrimento, dor e angústia. A prática de “chicotear”, literalmente, deixou de ser comum há muito tempo. Exceto nos casos de animais de carga que ainda sofrem com as cortantes e dolorosas chicotadas de seus “senhores” que aplicam o método para arrancar obediência e submissão a força.
Como tudo naturalmente avança pelo tempo, os chicotes de hoje também o fizeram, ganhando novas características, tornaram-se modernos e arrojados. Não estão mais no formato com tiras entrelaçadas de couro cru e secas que só de olhar causavam arrepios.
O chicote moderno tornou-se figura de linguagem (alusivo), mas não se enganem, continua sádico e se disfarça em forma de mecanismos legais que padronizam o comportamento dos indivíduos diante de regras e culturas que devem ser rigorosamente obedecidas. Do contrário, conseqüências sobrevirão sobre os considerados alheios a esses paradigmas por não terem se submetido ao modelo comportamental exigido - momento em que se pode conhecer o “novo” chicote que não corta mais a carne e que modernizado, vai mais fundo, atingindo o âmago, cortando e fazendo sangrar a alma humana.
Não é difícil se deparar com pessoas que fazem uso “legal” do chicote nos mais variados segmentos da sociedade. Os exemplos mais corriqueiros estão em algumas unidades escolares, setores da indústria, comércio e prestação de serviços; nas esferas dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário; e ainda, nos meios de convívio religioso e familiar.
O chicote tem “estalado” todos os dias sobre os lombos invisíveis (da alma) de grande multidão: seja num ato corretivo-apelativo de professores que jogam pesado com seus alunos; nas relações entre patrão/empregado que se tencionam; decisões de âmbito político-administrativo que levam o cidadão simples a sofrer conseqüências de impacto negativo causadoras de sofrimento; legislações absurdas e até mesmo burras que em nada resultam; decisões judiciais aquém ou além da tão imaginada “justeza” da Lei; teologias fantasiosas disseminadas por religiões sobrepondo fardos pesadíssimos aos seguidores; e das diferentes e complexas personalidades próprias dos membros de uma mesma família que trocam acusações e se ofendem. Tudo isso e mais são maneiras modernas de nos chicotearmos constantemente entre indivíduos que se dizem em processo de evolução.
Uma flagrante e incontestável prova desse “chicote” surgiu com a infeliz declaração do presidenciável-estadunidense John McCain dizendo que iria “chicotear” seu adversário Barack Obama em pleno debate. Claro que esse “açoitamento” premeditado seria figurativo, porque se daria através de palavras efusivas com ataques programáticos e pessoais. João McCain revelou o chicote que carrega consigo. Muitos não teriam a mesma coragem em fazê-lo, preferem dissimular e esconder o instrumento virtual.
A impressão que dá e que os “chicotes” estão por toda parte, tentando sempre controlar. Ditando os rumos a serem seguidos; o que pela sutileza da ação quase nunca é sentido pelos flagelados na alma. Mas, se olharem com atenção para dentro, lá estarão as feridas.
Ricardo Veríssimo Júnior
Funcionário público, ex-conselheiro da Saúde e do Comércio da Franca
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