Amanhã é Dia da Criança. E dia de minha madrinha, Nossa Senhora Aparecida, que me acoberta em seu manto porque minha mãe assim o quis. Então, permitam-me, o Dia da Criança é um pouco, também, o meu dia.
Ponho-me a pensar como criança, nestas ocasiões. Ensino nos treinamentos de Comunicação Verbal e Gestual que ministro, que adultos não devem esquecer suas porções crianças e, na medida do que for possível, devem agir para restaurá-las.
Quando nossas capacidades crianças afloram a gente fica mais atento, menos emburrado, torna a pensar com o coração e, pelo menos por alguns momentos, fica livre de regras e normas sociais, das decisões cerebrais, das condições a que o mundo adulto nos remete. Acha que não? Que a criança que foi não existe mais?
Então, convido-o a algumas experiências simples, práticas. Imagine como agiria em seu ambiente de trabalho uma criança de 4, 5 anos.
A princípio, se você recomendar, ela ficará sentadinha. Após alguns momentos e certamente, deixará a cadeira. Sem se preocupar com normas ou regras adultas, iniciará o desbravamento do espaço mais próximo. Olhará a cadeira, brincará com ela. Daí a pouco esse objeto não oferecerá mais atrativos. Olhará em volta. O que será aquela tela brilhante, cheia de figurinha? Irá até ela. Colocará o dedo. Olhará para você, como que perguntando: “posso?”. Mesmo sem resposta (você quer ver até onde vai a curiosidade infantil), olhará “com as mãos”. Deixará de lado. Irá ao teclado. Baterá nas teclas. Morderá o mouse. Depois é a vez da caneta. Rabiscará quem sabe, o documento importante que está em cima da mesa. Paro. Muitos pais já teriam escalavrado com a criança à mera menção do dedo na tela.
O que quero demonstrar? Simples. A curiosidade das crianças só chega ao fim quando consegue dar respostas simples às suas dúvidas simples. Nada da complicação do mundo adulto. Busca suas respostas e não as ajuíza. Agrega. Faz quanto tempo que você não desbrava mais nada com curiosidade infantil, com medo de que seus pares o julguem... infantil?
Outra experiência. Caminhei, por vários anos, pela Avenida Santa Cruz, proximidades de Calçados Agabê, onde hoje existe uma escolinha infantil. Ali, há jatubicateiras. Com flores em algumas épocas do ano. Você já sentiu o doce aroma destas flores? Já?
Sente novamente, agora que falo neste cheiro bom? Ao recordar o cheiro, é capaz de recuperar memórias que ficaram marcadas por causa deste aroma? Pois é. Memória é memória não apenas em lembranças. Tudo está ligado. Há memória olfativa, memória tátil, gustativa, auditiva e individual ou conjuntamente ajudam você a se lembrar de suas vivências, mesmo que julgue tudo esquecido. E você as tem. Como era mesmo o sinal que anunciava o recreio de sua escola? Uau! Lembrou-se também dos amigos? Daquele garoto ou garota legal? Vamos a mais uma. Pense no cheiro – também muito bom - de bife acebolado... Lembrou? Salivou?
Esta capacidade de usar memórias sem ajuizamento é própria das crianças. Não organizam suas emoções ou lembranças. Apenas as agregam. Então, se você pular corda, encontrar seu pião e jogá-lo de novo – lembra-se como era bom nisso? –, brincar de “bambolê”, jogar “pedrinhas”, pode ser que se torne um adulto ainda melhor.
Não dá mais, porque você é adulto e não pode se permitir a estas excentricidades? Não sabe o que está perdendo. Se a criança que você foi o tornou um homem bom, vale recordá-la sempre. Se você não se tornou um bom cidadão, é preciso recuperar suas características criança. Quem sabe, ainda há tempo...
ESTILO MÃEZONA
Estudei o primário – hoje, ensino fundamental – na Escola “Cel. Francisco Martins”. Minha primeira professora foi uma senhora grande, brava, bonita, estilo mãezona, chamada Noêmia Martha Bordignon. Tinha o jeito dela de ensinar, cartilha Caminho Suave debaixo de um braço; livro de tabuadas debaixo do outro. Não permitia escrita a tinta. Só lápis. Alunos eram obrigados a boas notas, não a bons conceitos. Em dia de prova, Noêmia ditava e avisava: “errou, cerque o erro com parênteses”. Cada parênteses, um ponto a menos(!). Pela altura do terceiro ou quarto, batia o desespero. Umedecia a ponta do dedo e “tentava” apagar. Resultado: borrão de grafite ou buraco na folha. Noêmia era dura. Zero. Puxão de orelha. Vários.
AS ORELHAS
As orelhas de muitos – as minhas, inclusive – viviam descoladas. Um dia decidi não ir mais à escola. Meus pais, o contrário. Foram me levar. Noêmia aguardada sua turma sentada em um banco no pátio. Minha mãe conversou com ela. Meu pai olhou duro. A reação da professora foi estranha, para mim. Puxou-me pelo pescoço. Afundei em seu colo de mãezona. Aconcheguei-me em seu peito. Senti-me protegido. Soube depois de muitos anos, que ela tinha piscado para meus pais. Continuou a me puxar as orelhas mas aprendi a vencer desafios. As minhas notas e de meus companheiros tornaram-se altas. Nossas orelhas deixaram de sofrer. Dia 15 próximo seria dia dela. Dia de professores competentes.
MARIA MARQUES
Magra, baixinha mas uma gigante em conhecimento e competência, foi a professora do segundo ano. Lembrou-se de mim quando me casei e mandou um mimo próprio de sua delicadeza: três xicarazinhas chinesas. E um bilhete: “você se tornou inesquecível”. Foi ela quem me fez tomar gosto por descrição, narração e composição de textos, sempre a partir da observação de cenas que afixava no quadro-negro. Exigia que construíssemos textos diferentes para a mesma cena. Dizia que eu teria futuro, se quisesse.
CARINHO
Noêmia, Maria Marques, Lúcia Ceraso (a última professora a levar civismo às últimas conseqüências e de quem falo um dia, aqui), Juraci (minha mãe), Sinhana do Fidélis e Sinhá do Zequinha (minhas avós) são as mulheres que me permitiram ser criança normal, sempre sob o manto da Senhora Aparecida. O melhor presente que se dava a uma criança de meu tempo era o encaminhamento sábio.
Luiz Neto
Jornalista, editor de Opinião do Comércio - luizneto@comerciodafranca.com.br
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.