O ato de criar é dificílimo. Ainda mais em se tratando de gente. Criança (criar+ança), por si só, já diz tudo: a ação acrescida pelo sufixo aqui se torna das mais trabalhosas, em todos os sentidos possíveis. A criação de um filho demanda tempo, boa vontade e principalmente capital.
A motivação inicial dos pais para educar (modificar) o comportamento de uma criança tem por base o aspecto fisiológico. Toda mãe apresenta preocupação constante quando à incapacidade de limpeza do recém-nascido. Manter o filho limpo exige um esforço diuturno por parte da progenitora. Por isso, ela não vê o momento dessa dependência filial acabar.
Uma criança de nariz sujo ou de fralda cheia não representa uma situação cômoda ou agradável para quem está por perto. O fato em si incomoda sobejamente. Somente uma mãe pode não sentir repugnância e até ter prazer em realizar essa tarefa de limpeza infantil. Além dos pais, dificilmente uma pessoa faz isso com gosto. Nem mesmo recebendo salário para executar o serviço.
Por causa disso, nos primeiros meses e anos, a educação de uma criança segue sempre o caminho fisiológico. O esforço materno (às vezes, paterno também) busca continuamente treinar o filho para aprender a se limpar. A instrução quanto à limpeza inicia-se cedo.
Essa aprendizagem acaba contaminando outras futuras formas de aquisição de conhecimento. Quem recebe orientações higiênicas desde a tenra idade, pode até se transformar em um adulto asseado, gentil, não inclinado a rixas ou desavenças gratuitas.
Sem nenhuma forma de julgamento para com quem repassa os cuidados infantis, o tempo atual transformou-se em uma triste época para se viver. Crianças de um ano e pouco já são mandadas para uma creche. A maioria prefere dizer “escolinha”. No entanto, apenas muda o nome. A finalidade não deixa de ser a mesma: terceirizar parte da criação. Ou seja, colocar nas mãos dos outros uma responsabilidade que a própria natureza cansa de mostrar ser da alçada dos geradores da nova vida.
Diante dessa corriqueira situação, como querer uma sociedade harmoniosa? Geralmente toda criança gosta de segurança. Aprecia sentir o apoio, o cuidado, a reprimenda de pessoas próximas, familiares a elas. Pode parecer o contrário, mas no fundo, a mente infantil quer regras de conduta. Quando falta o condicionamento moral no início da vida, dificilmente o respeito pode ser conseguido depois.
A prova disso está na convivência escolar da atualidade. As crianças são tiranas consigo próprias. Agressões verbais e até físicas são rotineiras e constantes nesses ambientes. Isso demonstra a falta de uma base educacional familiar. Sem aquele tradicional “elo” de primeiras repreensões, depois fica difícil treinar a adolescência para a independência, a responsabilidade e a cooperação.
O melhor presente que se pode dar a uma criança, em qualquer dia, é ensiná-la a limpar-se, a ler, a agir sozinha, a dirigir suas próprias atitudes, a ter domínio sobre a sua inata vontade... Com isso tudo e um pouco mais, possivelmente, no futuro, a criança de hoje possa se transformar em um adulto confiante, que viva sem se apoiar noutras pessoas, sem submissão às vontades alheias.
Antônio Araújo
Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br
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