Artistas & políticos


| Tempo de leitura: 4 min
Que todo político tem de compor uma faceta de artista para agüentar o rojão da vida pública é fato. Mas que todo artista leva jeito para lançar-se na vida política é equívoco e dos maiores. Uma passada de olhos na lista de números divulgados ontem pelos municípios que tiveram artistas no páreo revela como às vezes vai longe a distância entre aplaudir uma celebridade e digitar seu número na urna de votação. Gretchen, que na juventude se celebrizou pelo rebolado, ingressou no PSB no final de 2007 e desde o começo deste ano fazia campanha para a prefeitura de Itamaracá (PE). Foi notícia em todas as mídias. Citada algumas vezes pelo escritor João Ubaldo Ribeiro, serviu aos escárnios de José Simão e alimentou o sarcasmo de muitos colunistas. Mas não se sabe se a isto se deve realmente a pífia votação que lhe foi destinada. Sua colega Rita Cadillac, chacrete famosa e corajosa (apresentou-se numa sensual performance em presídio de segurança máxima há alguns anos), das mais ovacionadas pelo público do Abelardo Barbosa (Chacrinha) nos anos 80, atualmente pertencente aos quadros do PSB, achou que tinha chance de assumir uma cadeira na câmara de Praia Grande. Ficou a ver navios. Não será nesta legislatura. Taty Pink, pernambucana que virou capa de revista ao participar da quinta edição do BBB, almejou compor o legislativo do Recife: teve 4.256 votos, pouco para o tanto que se envolveu na campanha. Mas deve se consolar com seu colega BBB6, Alberto Cowboy, que só conseguiu 241 votos como postulante a uma vaga na câmara de Belo Horizonte. Ou com Didi Brother, da primeira edição do programa, que reuniu com muito esforço 557 votos dos eleitores de Salvador. Ou com Carlão, BBB6, 290 votos para a edilidade de São Bernardo do Campo. Aqui pertinho, em Ribeirão Preto, Rodrigo, outro participante do programa e vencedor da segunda edição, somou apenas 329 votos. Não se sabe por qual razão, se há alguma ou se é apenas coincidência: todos filiados ao DEM. Por outros partidos arriscaram-se também Sérgio Mallandro, Kid Bengala, Pit Bitoca e Lacraia, praticantes de uma arte indefinível que lhes assegura no entanto o direito de se auto-intitularem artistas. O que você faz? Qual a sua profissão? “Sou artista”, respondem muito seriamente nestes tempos confusos de indefinições onde qualquer um tem pelo menos cinco minutos garantidos de fama. Há exceções nesta aventura democrática. Netinho de Paula, por exemplo, que abocanhou uma enormidade de votos nesta eleição concorrendo a uma vaga na câmara paulistana. Até 2001 vocalista do grupo de pagode Negritude Junior, para o qual entrou aos 15 anos, deu-se bem ao sair e buscar carrreira-solo. Talvez você se lembre de algumas de suas músicas. Uma delas especialmente permanece na memória dos fãs: A Fila Anda. “Tô muito tempo na fita/ esperando a falha deste rapaz/ vacilou a fila anda/ é assim que a gente faz/ carência abre concorrência/ vaso quebrado não conserta mais.” O sucesso como cantor, associado à desinibição e simpatia, o alavancou para a carreira de apresentador de TV - o Domingo da Gente, da Record. Netinho é um sujeito esforçado, faria jus a ter no currículo a expressão “self made man”. Aos 7 anos vendia doces nas ruas da violenta Carapicuíba, Grande São Paulo; hoje é detentor da concessão de um canal independente de televisão, o TV da Gente. Além de vereador da maior cidade do País, o que não é pouco. Pois então. O moço obteve 85 mil votos! Foi o terceiro mais votado, empurrando para baixo nomes muito conhecidos da política paulistana, cobras criadas, candidatos que apostaram tudo neste lance e ficaram fora. Ganhou até beijo do presidente, fã confesso de pagode. A outra exceção é Frank Aguiar, ícone do que vem sendo chamado “forró eletrônico”. Nascido no Piauí no mesmo ano de Netinho, 1970, gravou o primeiro disco em 1998, em São Paulo, onde chegou com dificuldades, procurando uma chance. Deu sorte. A partir daí não parou mais. Foram 15 álbuns, 3 coletâneas, 3 DVDs. E tome shows por este Brasil afora. Depois de ser enredo da Escola de Samba Tom Maior, elegeu-se em 2006 deputado federal pelo PDT. Há alguns meses juntou-se ao petista Luiz Marinho na dobradinha para a prefeitura de São Bernardo do Campo. Está no segundo turno, com grandes chances de vitória no próximo dia 26. Melhor impossível.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários