Atendendo a seu pedido e a bem da verdade ao meu contento, li e vou lhe contar o que foi lido. Que este seu texto me caiu em meio a uma procura, um achado de muitos, num momento muito especial em que me encontro quando busco ‘ler’ tantas histórias passageiras que têm me acontecido e como coloca com muita clareza em seu texto ‘...o tempo engoliria se não houvesse um escriba para separá-las (e no meu caso recontá-las nem que seja a mim mesma, de modo a perceber que sentido me fazem). Não só os seus textos, vários autores, articulistas, contistas e uma gama de velhos e novos textos que passam pelos meus olhos e transpassam, ganhando agora um sentido todo especial.
Há dias se deu como já mencionei, relacionando o seu texto a outras três leituras, me fizeram refletir. Decidi ler Saramago e seu ‘Ensaio sobre a cegueira’ esperando assim ter apenas uma crítica quando viesse a ver o filme. Então ali me deparei com a profundidade de um conselho que aparenta simples: ‘Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Quanta gente pode olhar e não quer ver, ou quer olhar apenas para o que quer ver, alimentando intolerância. E vendo, muitas vezes não faz caso. Falo de todas as misérias de cada um de nós, nossas deficiências, nossas conveniências, enfim as ‘leituras de mundo’ de que falam os psicólogos... Penso que muitas vezes nos condenamos à cegueira e ao analfabetismo interior.
Mas voltando, quanta alegria tiro destas suas crônicas dominicais. Às vezes parece que nos foram dirigidas, ou que estamos ali a prosear com quem a escreveu. Que graça quando tive a perspicácia de compreender ‘O Carvalho e a Rocha’ (26/08/2007). E tive a alma lavada como educadora que sou, quando comentou sobre o resultado da pesquisa que demonstra que as pessoas não sabem localizar Franca no Estado de São Paulo (se não me falha a memória esta se chamava ‘O Andarilho’).
Lisonjeei-me, penso que como todas as mulheres que o leram, ao passar estes meus olhos comuns pela frase ‘... porque só as mulheres possuem uma capacidade ilimitada de sentir e se emocionar’. Mas não há que ser tão generalista: esta semana Corrêa Neves Júnior presenteou seus colaboradores do Comércio com a sugestão de dois excelentes textos que leu. Com certeza, sentiu e se comoveu, quis partilhar percebendo a importância que teria para os demais, trazendo-nos uma possibilidade de olhar, mais que para as palavras escritas, a de olharmos para nossas próprias vidas.
Trata-se de texto publicado pela revista Época (18/08/2008) assinado pela repórter Eliane Brum, que acompanhou a rotina de uma servente de merendeira aposentada durante o período terminal do câncer que a acometeu. Apesar de tratar da tristeza que é a certeza da despedida, alcançou com delicadeza um texto poético, demonstrando respeito pela dor, pela morte, pela paciente e sua família, e assim também pela vida. O outro foi extraído do diário do repórter Marcos Uchôa, publicado na Revista do Fantástico, narrando momentos de seu calvário, também acometido por um tumor. Este jovem jornalista, morto aos 36 anos, lutou pela possibilidade de continuar a olhar fatos antevendo conseqüências, olhar inquisidor, crítico, como devem tê-lo os profissionais da imprensa.
Ouça, Professor Chiachiri, seus olhos não os vemos, mas aquela expressão franca do seu sorriso não nos deixa dúvida quanto à sua pessoa que não perdeu mesmo o brilho no olhar!
Andréia Cristina Xavier
Professora e arquivista
Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.