Quixote no Sesi


| Tempo de leitura: 3 min
Foi em 2002 que uma comissão composta por prestigiosos críticos literários do oriente e ocidente anunciou o resultado de um trabalho que se desenrolava desde o fim do século passado com o objetivo de escolher o melhor livro de ficção do mundo. O eleito foi Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes Y Saavedra, nascido em 1547 em Alcalà de Henares, pequena cidade localizada a 70 quilômetros de Madri e que se mantém magnificamente preservada. A casa onde Cervantes nasceu foi transformada em museu e tem na calçada uma estátua em bronze, tamanho natural. Percebe-se por toda a parte a reverência e o orgulho com que a Espanha cultua o seu escritor. Não só a Espanha, registre-se a bem da verdade. Dom Quixote de la Mancha, a extraordinária narrativa de Cervantes, construída com a mais refinada prosa de Castela, tem 126 capítulos onde se tecem histórias de sabedoria, amizade, ternura, encantamento, amor, lucidez e loucura diante dos mistérios da vida, percebidos de formas diferentes de acordo com a sensibilidade de cada um. Dividida em duas partes, começou a ser escrita em 1602, no cárcere de Sevilha, onde o ficcionista se viu metido por intrigas de pessoas mesquinhas. As aventuras do “cavaleiro da triste figura” começam no dia em que ele, chegado aos 50 anos e com os miolos ressecados de tanta leitura de romances de cavalaria, manda arrear seu pangaré chamado Rocinante, calça-se com velhas armas de seus antepassados, apossa-se de um escudo e sai atrás de façanhas que lhe garantam renome. O enredo foi de tal forma bem conduzido que a repetida frase do segundo capítulo tem um impressionante caráter profético: “Feliz idade e feliz século aquele onde sairão à luz as minhas famosas façanhas, dignas de entalhar-me em bronze, esculpidas em mármore e pintadas em telas para a memória do futuro”. Nenhum outro personagem da literatura estimulou tão grande número de obras como Quixote. Na ilustração desta página, o leitor pode apreciar a escultura do catalão Roberto Crivellé, radicado no Brasil e que tem um número impressionante de trabalhos inspirados em Quixote. Ele participou há pouco tempo com alguns deles da mostra L’Art Català do Brasil, ao lado de José Zaragosa, Pere Tort, Luís Bayon e outros. Cervantes/Quixote fala na perenidade do bronze, do mármore, da tela. Mas o mito foi além, fez-se presente na música, ganhou o cinema, subiu aos palcos. Hoje e amanhã, por exemplo, o público francano poderá assistir no Sesi, a partir das 20 horas, à perfomance Devorando Quixote, da Cia Sylvia Que Te Ama Tanto. Na revisita que fazem ao mito, os diretores Marcelo Denny e Márcio Pimentel discutem temas como a insatisfação humana, tão terrena às vezes, de um sonhador que ultrapassa os limites da realidade para se tornar visionário. A concepção é adulta, o que leva o espetáculo a ser proibido para menores de 18 anos. A montagem “reúne linguagens distintas como vídeo, cinema, cibernarrativas, edição ao vivo de imagens projetadas, ações radicais e de risco físico, outras modalidades de performance”, informam os divulgadores. Pelo que se pode perceber, trata-se de trabalho que foge à linearidade, está mais próximo do teatro-interação e tem como proposta criar um ritual cênico multimídia, aliás, forte tendência de nosso tempo. O público que comparecer hoje e amanhã ao Sesi verá uma versão abrasileirada e antropofágica de Quixote. Explicitando com Pimentel: “Trata-se de uma celebração áudio-visual da liberdade, do compromisso com uma utopia e do importante papel do sonho e da poesia em nossas vidas.” Mais vivo que nunca, Quixote está hoje em Franca, bramindo a espada, soberbo como sempre, pronto para assombrar o gigante Briareu e botar pra correr as injustiças. SERVIÇOS A performance Devorando Quixote será apresentada hoje e amanhã, às 20 horas, no Teatro do Sesi de Franca. Os ingressos começam a ser distribuídos uma hora antes, apenas para maiores de 18 anos (será exigido documento). O Sesi fica na Avenida Santa Cruz, 2870 - Vila Santa Cruz. Informações pelo telefone (16) 3721-1444.

Fale com o GCN/Sampi!
Tem alguma sugestão de pauta ou quer apontar uma correção?
Clique aqui e fale com nossos repórteres.

Comentários

Comentários