Passado e presente


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Fustel de Coulanges, no clássico A Cidade Antiga, escreve que “o passado nunca morre totalmente para o homem”. O esquecimento não chega jamais. Mesmo entre as brumas do tempo é possível resgatá-lo e repetir as lições deixadas, para o bem ou para o mal. A repetição da história é o que se vê no espelho da realidade. O ódio entre ricos e pobres, a dominação dos povos pelos tiranos ou pela oligarquia violenta. O jogo de necessidades e de interesses corrompeu os ocupantes do poder, e a orgia das negociatas transformou-se num escuro e lodoso mar, onde se avistam políticos que buscam, a qualquer preço, a satisfação de suas vaidades por meio do enriquecimento ilícito. Parafraseando Aristóteles, pode-se afirmar que o político, depois de eleito, jura ser eterno inimigo do povo, e fazer-lhe todo o mal que puder. Há os que confiscam bens dos governados para aumentar seus lucros. Há os que usam o nome de Deus ou de Alá para se transformar em senhor das vidas e das fortunas. Abrem templos para arrecadar recursos, comercializam de maneira profana a imagem do divino, fantasiam-se de emissários, anjos perversos de ensandecidas paixões pelo dinheiro ralo roubado dos miseráveis, daqueles que acreditam em palavras vãs, em promessas inúteis. Na política, o passado já invadiu o presente e domina a cena de um espetáculo degradante. Em muitos territórios, há matanças generalizadas de inimigos; em outros, ditadores perversos aprisionam e assassinam sob o signo de combate a opositores. O maremoto de lama invade palácios e residências, respinga em parlamentares de bases governistas, em partidos que ergueram as bandeiras da ética e da transparência, estandartes que se mancharam com o lodo dos esgotos. Agora, a bomba está prestes a detonar. Parlamentares nadam contra a maré, tentam reencontrar a fórmula da impunidade, precisam calar a Imprensa, deusa poderosa, sem afeições nem benevolência. Preferem o apoio dos eleitores pacatos, os que recebem pequenos favores, uma esmola qualquer. Que dizer sobre o ritual do dinheiro? Malas, malotes, pastas, todas recheadas. Milhões e milhões desviados dos cofres públicos para saciar a fome de políticos. Mensalões e bônus para custear as farras gastronômicas, as bebidas e os charutos, roupas de grife e, ainda, o pagamento dos acompanhantes, belas amantes e garotos de programa, dependendo da orientação sexual do freguês. Quais as aspirações do povo que são defendidas? Apenas aquelas originárias de grupos, sejam eles ruralistas, evangélicos, da jogatina, das drogas, dos direitos humanos dos criminosos e daqueles que querem mais recursos à custa da elevação de tributos e criação de taxas. Sustentam ONGs e instituições de seus interesses pessoais. Ao povo, uma banana, ou o sopão dos miseráveis, um caldo azedo destinado a adoçar bocas famintas. Voltando a Fustel de Coulanges: “A sociedade atravessa uma série de revoluções e muda de aspecto”. Mas das brumas do passado renascem os fantasmas. Com outros aspectos, novos disfarces. Tudo para repetir, de maneira grotesca, os ensinamentos dos velhos políticos, com os mesmos sonhos da dominação pela tirania. Apenas com outros nomes, mas com o uso da mentira e do disfarce. Como diria Chacrinha, o velho guerreiro: “Nada se cria, tudo se copia”. Guido Fidelis Jornalista e escritor

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