Pede pra sair


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No Se Liga Profissões da semana passada, o Comércio descreveu um pouco da rotina do Tiro de Guerra de Franca: suas missões, a seleção e o perfil dos voluntários, o equipamento utilizado, os horários, as normas disciplinares e o adestramento no uso do fuzil. Hoje, esta folha aborda as etapas mais duras da instrução e aponta as trilhas da carreira militar. Os recrutas do TG são submetidos regularmente ao chamado TFM (Treinamento Físico-Militar), que começa com exercícios de alongamento e termina com os tradicionais abdominais, flexões e barras. O condicionamento adquirido os habilita a superar a chamada pista de progressão, onde devem transpor cordas dispostas horizontalmente nos modos craw e preguiça, percorrer em zigue-zague o terreno salpicado por árvores - para não serem “alvo fácil” - e, finalmente, atravessar o trecho de areia no modo rastejante, sem deixar a boca do fuzil arrastar no chão. Ao longo do ano são executadas marchas de 8 km, 12 km e 16 km, nessa ordem crescente. “Mas sempre estico um pouco a distância”, confidencia o sargento Langner ao Comércio. É importante dar uma “forçadinha” para ver como os recrutas se saem. Em outubro eles passarão pela prova mais dura, à qual os alunos do Curso de Formação de Cabo (CFC) já foram submetidos em junho: o bivaque (acampamento improvisado). Na ocasião, os atiradores do CFC saíram de madrugada e marcharam até a Fazenda Municipal, onde montaram as barracas e realizaram TFM, progressão na pista, orientação com bússola no mato, etc., em quase 20 horas de atividade. “ Se você não estiver motivado, não agüenta duas horas”, conta o atirador Rocha. No amanhecer, levantaram o bivaque e fizeram o caminho de volta. Desta vez a atividade será repetida por todo o TG. Com isso, espera-se que eles se saiam bem no dia da Inspeção, quando um tenente virá a Franca verificar in loco se a tropa atende aos requisitos de desempenho exigidos em regulamento. Ao superarem esse último certame, os atiradores poderão concluir em dezembro a jornada iniciada em março e voltar para casa com a sensação do dever cumprido, após prestar juramento à Bandeira e passar à reserva do Exército. Nem todos, porém, querem ficar na reserva. Alguns, ao passarem pelo serviço militar, encontram na farda sua vocação e põem-se a estudar para os concursos que abrem as portas desse ofício. É o caso do atirador Campos, que quer ingressar na ESA (Escola de Sargentos das Armas) “porque defender a Pátria é muito importante”. Sapateiro durante a semana e garçom aos sábados e domingos, o atirador Damasceno também quer entrar na ESA ou se tornar PM. “Meu pai tinha esse sonho quando jovem, mas não pôde realizá-lo, então decidi fazer isso por ele”, revela o jovem. O atirador Finardi, por sua vez, espera ser admitido na AMAN (Academia Militar das Agulhas Negras), convicto de que “ali é onde posso melhor servir ao País”. O jovem que almeja seguir carreira militar em uma das chamadas Armas Combatentes do Exército - Infantaria, Artilharia, Cavalaria, Engenharia e Comunicações - tem dois caminhos a seguir: a ESA e a AMAN. A primeira, sediada em Três Corações (MG), admite jovens de 18 a 24 anos que tenham o ensino fundamental completo. O curso dura 19 meses, período durante o qual o aluno será capacitado a desempenhar as tarefas que cabem a um sargento, dentre as quais se sobressai a de adestrar e comandar os soldados e cabos de um GC, unidade formada por 11 homens. Três GCs, liderados por três sargentos, formam um pelotão, unidade cujo comando cabe a um tenente. Ao concluir o curso, o aluno sai da ESA como 3º sargento, podendo ao final da carreira atingir o posto de capitão, oficial encarregado de comandar uma companhia, unidade constituída por quatro pelotões. A AMAN, sediada em Resende (RJ), aceita jovens de 18 a 21 anos que tenham concluído o ensino médio. Ao passar no concurso, porém, o jovem é encaminhado antes à EsPCEx (Escola Preparatória de Cadetes do Exército), em Campinas (SP), onde passa 12 meses sendo preparado para a intensa carga de atividade física e intelectual a que será submetido na Academia durante os quatro anos seguintes. Muitos desistem no meio do caminho, pois na AMAN, diz a lenda, “o filho chora e a mãe não vê”. Isso é particularmente verdadeiro na Infantaria, cujos cadetes enfrentam as mais duras privações. Uma delas é a prova Mega, que consiste em 60 horas seguidas de 17 exercícios consecutivos no campo, no mato e nos cursos d’água - o cadete Maurício Dias Silva morreu de exaustão no Mega deste ano, em junho. Ao terminar o curso, os alunos da AMAN recebem o posto de 2º tenente e podem chegar a general-de-exército, o que leva uns 30 anos. Ao longo da carreira, porém, ocorre uma rigorosa seleção segundo o desempenho de cada um deles, pois, conforme se sobe na hierarquia, maiores são as unidades a comandar e menos numerosos são os cargos - uma pirâmide. Em todo o Brasil há menos de 170 generais, responsáveis pela chefia de brigadas, divisões, etc. Por isso, de cada 100 cadetes formados na AMAN, apenas seis chegam ao generalato, cuja conquista exige do militar que cumpra outras duas etapas: freqüentar o curso de dois anos da ESAO (Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais) após ser promovido a capitão e, depois, se chegar a major, ser aprovado na disputada ECEME (Escola de Comando e Estado-Maior do Exército), cujo curso dura dois anos. Nos quartéis usa-se a gíria “tríplice coroado” para designar o general que, ao longo de sua carreira, se graduou como primeiro colocado de sua turma na AMAN, na ESAO e na ECEME. Em toda a história do Exército há apenas 14 “tríplices coroados”. Deles, há apenas um ainda vivo e no serviço ativo: o general Augusto Heleno Ribeiro, que liderou as tropas do Brasil no Haiti em 2004-2005 e hoje responde pelo Comando Militar da Amazônia, região considerada prioridade máxima pelas Forças Armadas. Durante a carreira, tanto os militares formados na ESA como aqueles egressos da AMAN fazem outros cursos adicionais em caráter opcional - para fins de aprimoramento, o que conta pontos na promoção - ou obrigatório - conforme a função para a qual forem designados. Esses “cursos extras” são ministrados no CIOPESP (Centro de Instrução de Operações Especiais), na ESIMEX (Escola de Inteligência Militar do Exército) e no temido CIGS (Centro de Instrução de Guerra na Selva). O jovem que almeja seguir carreira no Exército não deve se iludir: os horários são rígidos, as promoções demoram anos, não se escolhe a cidade onde se vai trabalhar e, em muitas regiões atrasadas do País, onde o governo não está presente, o Exército se desdobra em missões sociais como vacinar, alfabetizar, construir pontes, etc. Portanto, o jovem deve ter em mente que a atividade militar, mais do que uma profissão, é um sacerdócio. E deve estar consciente de que nem sempre seus silenciosos sacrifícios serão devidamente reconhecidos, pois “na maior parte do tempo, quando a sociedade está em paz, as pessoas esquecem de Deus e zombam do soldado, mas quando a Pátria está em perigo, todos clamam pela ajuda de Deus e pela proteção do soldado” (Cícero).

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