Uma viagem não vale voto


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Dizem que a política (mas pode não ser verdade, afinal isso faz tanto tempo) nasceu exatamente no momento em que o homem pré-histórico soltou o primeiro uh...uhh...uhhh! Essa interjeição foi o arremedo inicial de comunicação, ou seja, de expressão do pensamento humano numa tentativa de fala. Um dia, e ponha dia nisso, a única preocupação humana era ter o que comer. A fonte de alimentação provinha da flora ou da fauna. Seja lá onde for, estavam dois homens na espera de um animal. Não importa qual. O primeiro a aparecer seria abatido a pauladas e comido cru mesmo. Claro, as mulheres e as crianças também teriam um naco de carne. Lá estavam os dois homens, quando, de repente, surge ao longe um animal. Somente um deles viu a fera. O outro mexia na terra distraidamente. Perplexo, frente ao perigo, por ser mais fraco, sem possibilidade de dar o combate inicial, o visionário conseguiu emitir o primeiro urro humano para chamar a atenção do companheiro. Este, imediatamente, pegou um porrete com a finalidade de abater a caça enfurecida. Enquanto lutava, todo sujo de sangue, o caçador ainda ouvia o colega exercitando a capacidade de produzir sons vocálicos como: oh! (quando uma paulada era certeira), ih (quando errava o bote), eh! (se o pau derriçava pelo lombo do bicho). Por fim, com a refeição do dia garantida, o quase falante ainda proferiu um sonoro ‘ah!’. Logo depois, já na caverna, de barriga cheia, o balbuciante tentava explicar para o bando a tática ou política usada para caçar aquele animal de ensangüentada e suculenta carne. Todos ficaram fascinados com o som que saía da boca daquele homem. Daí para frente, ele foi se especializando em dar nomes para as coisas. E mais ainda: conseguia apontar estratégias para facilitar a obtenção de alimentos. Até que começou a usar o poder da fala para ter as melhores partes de uma caça ou do melhor vegetal para si próprio ou para os seus familiares. Com o passar do tempo, a vida em sociedade foi-se aprimorando. Quem melhor falava ia tendo regalias entre os demais. Conseguia sempre impor o seu ponto de vista. Acabava por assumir postos de comando na organização dos bens coletivos. Estabelecia pequenas cotas de cobrança pela administração da coisa pública. Para conseguir mais e mais rendas, muitas vezes, escondia a realidade, chegando mesmo a mentir, com o intuito de obter vantagens extras. Por sua vez, as outras pessoas também começaram a esconder os fatos reais para obter regalias. Muito tempo transcorreu. Normas de governança foram traçadas. Até que numa das últimas eleições, quando candidato ainda podia oferecer transporte gratuito, visando o voto de eleitores residentes em outras localidades, a tramóia de um rapaz escandalizou um garoto de oito anos. O tio do menino tinha domicílio eleitoral numa das cidades da região. No dia do pleito, convidou o sobrinho para acompanhá-lo, à guisa de passeio. Foram então no ônibus fretado pelo candidato X. Depois da votação, a inocente e crédula criança quis saber em quem o tio havia votado. Ao saber que o voto foi dado a Y, recusou-se a embarcar no mesmo veículo para voltar. Hoje, talvez a abstração racional já lhe permita entender os meandros políticos. Antônio Araújo Professor de redação - tonin.palavras@uol.com.br

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